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Maternidade e mercado de trabalho: por que uma escolha não precisa definir toda a vida de uma mulher?

Escolha precisa pertencer à mulher, considerando sua realidade, seus desejos e aquilo que faz sentido para ela naquele momento


				Maternidade e mercado de trabalho: por que uma escolha não precisa definir toda a vida de uma mulher?
Isabella Severo.

Durante muito tempo, os caminhos pareciam mais bem delimitados. Para muitas mulheres, a chegada dos filhos significava deixar o mercado de trabalho, assumir os cuidados da casa e dedicar-se integralmente à família. Hoje, o cenário mudou, mas isso não significa que a pressão tenha desaparecido. Ela apenas ganhou novas formas.

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A mulher contemporânea é incentivada a estudar, construir uma carreira, conquistar independência financeira, crescer profissionalmente e, quando decide ser mãe, voltar ao trabalho e manter o ritmo que tinha antes da maternidade.

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Entre um modelo e outro, permanece uma questão: por que a sociedade parece tão interessada em dizer às mulheres qual escolha elas deveriam fazer?

A mãe que decide permanecer em casa pode ser questionada sobre sua independência, sua carreira e seu futuro profissional. A mãe que retorna ao trabalho pode ouvir que está perdendo momentos importantes da infância dos filhos ou que deveria estar mais presente. Em ambos os casos, existe uma expectativa sobre o que seria uma “boa mãe”.

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Mas, afinal, o que significa ser uma boa mãe?

O psicanalista e pediatra Donald W. Winnicott pode nos ajudar a pensar sobre essa questão a partir do conceito de “mãe suficientemente boa”. Em vez de uma maternidade baseada na perfeição, Winnicott descreve uma mãe capaz de se adaptar de maneira sensível às necessidades do bebê e que, gradualmente, permite que ele também experimente pequenas frustrações e desenvolva sua autonomia.

Essa perspectiva nos lembra de algo importante: uma mãe não precisa ser perfeita para oferecer um cuidado suficientemente bom ao seu filho.

Talvez essa reflexão possa ir além da relação entre mãe e bebê.

Quando uma mulher retorna ao mercado de trabalho, pode carregar a sensação de que está falhando como mãe. Quando decide permanecer em casa, pode sentir que está renunciando uma parte importante de si mesma. Em ambos os casos, existe uma tentativa de alcançar um modelo ideal de maternidade que, na prática, pode ser impossível de sustentar.

A pergunta, então, talvez não devesse ser “qual escolha uma boa mãe faria?”, mas: o que é possível e suficientemente bom para esta mãe, este filho e esta família, neste momento da vida?

Não existe uma única maneira correta de viver a maternidade. Cada mulher conhece, ou deveria ter a oportunidade de conhecer, sua realidade, seus desejos, suas necessidades, suas condições financeiras, sua rede de apoio e aquilo que faz sentido para sua família naquele momento.

Existe, ainda, uma pressão menos evidente: a ideia de que uma decisão tomada hoje determinará quem seremos amanhã.

Se eu decidir não voltar ao mercado de trabalho agora, será que nunca mais conseguirei voltar? Se eu desacelerar minha carreira, será que ela estará perdida? Se eu retornar ao trabalho, deixarei de ser uma boa mãe? São tantas questões que passam pela cabeça que, muitas vezes, transformam escolhas circunstanciais em previsões definitivas sobre o futuro.

Como se ficar em casa hoje significasse nunca mais trabalhar. Como se desacelerar profissionalmente significasse abandonar uma carreira. Como se voltar ao mercado de trabalho significasse renunciar à maternidade.

Mas uma escolha não precisa ser uma sentença.

Talvez a maternidade não precise ser entendida como o momento em que uma mulher deixa de ser profissional, assim como a carreira não precisa ser vista como aquilo que impede uma mulher de exercer plenamente a maternidade. São dimensões que podem ocupar espaços diferentes em momentos diferentes.

Por isso, talvez o mais importante não seja encontrar uma escolha perfeita, mas fazer uma escolha consciente para a realidade que existe hoje, sem transformá-la em uma definição sobre toda a vida que ainda está por vir.

A escolha precisa pertencer à mulher, considerando sua realidade, seus desejos e aquilo que faz sentido para ela naquele momento. Afinal uma escolha pode mudar o ritmo da sua vida sem determinar o seu destino.

________________________________________

Por Isabella Severo — Psicóloga, CRP 06/235979

Sobre a autora

Isabella Severo é psicóloga, inscrita no CRP 06/235979, com atuação clínica. Atende adolescentes e adultos.

*Os artigos assinados são de responsabilidade dos seus autores, não representando, necessariamente, a opinião da Organização Arnon de Mello.

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