Você pensa ou apenas repete?
A expressão “Sapere Aude” nasceu com Horácio, mas é Immanuel Kant quem resgata durante o Iluminismo como a lema da razão, do pensamento crítico e da autonomia intelectual do indivíduo

Sapere Aude significa “ouse pensar”, noutras palavras, tenha coragem de fazer uso do seu próprio entendimento com base na razão. E essa ideia é extremamente necessária hoje. Nunca tivemos tanto acesso à informação. Somos atravessados diariamente por notícias, vídeos, podcasts, livros, cortes, opiniões, manchetes, especialistas e pseudo especialistas, algoritmos disputando a nossa atenção e até IA. O problema contemporâneo já não é apenas ter acesso à informação, mas sim saber analisar, filtrar, selecionar, criticar, perceber o erro, a falácia, o viés e só então, o que fazer com ela.
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Cabe destacar que pensamento crítico não pergunta apenas: “O que está sendo dito?” Ele pergunta também: “Quem está dizendo? De onde essa pessoa fala? Que repertório sustenta essa afirmação? Quais interesses, experiências, valores e pressupostos atravessam aquilo que estou recebendo?”
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Nietzsche oferece uma chave interessante para isso quando escreve, em “Além do Bem e do Mal”, que gradualmente percebeu que toda grande filosofia é uma espécie de confissão pessoal de seu autor, ou seja: uma ideia não surge no vácuo, há sempre alguém selecionando, interpretando e organizando o mundo antes de entregá-lo a nós. Isso acontece sempre por meio da sua bagagem pessoal e repertório, bem como pelos filtros de seu interesse.
Por isso, consumir informação não é o mesmo que produzir conhecimento. Informação recebida sem elaboração analítica, pode virar apenas eco. E aqui está a principal falha da educação brasileira: fomos treinados para acumular e decorar respostas, quando deveríamos aprender a construir perguntas. Mas a verdade é que sequer somos ensinados a raciocinar, e isso passaria por exemplo pela mesma formação intelectual de Nicolau Copérnico, Dante e Isaac Newton, o Trivium e Quadrivium. Nessas estruturas, antes de tudo, você é ensinado sobre gramática, lógica, dialética e retórica, ou seja, sobre como receber a informação, digeri-la e comunicá-la, e só depois a compreensão quantitativa do mundo, como matemática, astrologia.


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E como historiadora devo questionar diretamente que tipo de pensamento estamos estimulando na sociedade atual, quando pesquisas sólidas comprovam que Hitler e Eva Brown não morreram da forma que ainda está sendo contado nos livros didáticos e cobrados no ENEM. Ou seja, essa é a prova cabal de que estamos treinando cidadãos para apenas reproduzir e não pensar.
Então, caro leitor, já fez o exercício especulativo de quantas das mais de 30 mil decisões que você toma diariamente, quantas foram de fato questionadas e analisadas por você, e quantas apenas seguiram o fluxo do automático pela vida corrida que gera o maior ganho de qualquer sistema: a massa ignara?
Por: Chris Kumakola
Chris é historiadora, com pesquisa no Museu Campo de Auschwitz sobre Narrativa. É autora de duas obras e ghostwriter de outros 42 livros.
Como gestora, foi a mulher mais jovem do Brasil a assumir e recuperar uma holding em recuperação judicial, reavendo aos cofres da companhia mais de 15 milhões de reais em um ano.
Foi fundadora de uma legaltech e uma edutech. Atualmente é CEO do ecossistema Efeito Narrativa, onde direciona senadores, deputados, grandes empresários, multinacionais frente a arquitetura narrativa que sustenta poder e blindagem reputacional no mercado.
*Os artigos assinados são de responsabilidade dos seus autores, não representando, necessariamente, a opinião da Organização Arnon de Mello.
