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Como Porto Alegre virou Buenos Aires em filme exibido em Veneza

Co-produção de Brasil e Itália, Retorno a Buenos Aires foi rodado na capital gaúcha e acompanha um sobrevivente


				Como Porto Alegre virou Buenos Aires em filme exibido em Veneza
Divulgação.

Veneza — Depois da passagem de Ainda Estou Aqui pelo Festival de Veneza há dois anos, o evento italiano contou novamente com um representante do Brasil na competição oficial. Retorno a Buenos Aires foi o último concorrente exibido na mostra que terminou no sábado (11/9), com a cerimônia de premiação.

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Trata-se, na verdade, de uma co-produção com a Itália dirigida pelo ítalo-chileno Marco Bechis, rodada na maior parte em Porto Alegre e com a atriz Paula Cohen no elenco, brasileira nascida no Uruguai. Há ainda a participação do gaúcho Eduardo Hoy, intérprete do protagonista (o italiano Adriano Giannini) quando jovem.

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Essa diversidade de sotaques se justifica pela história. No drama, um ex-militante de esquerda argentino, preso e torturado durante a ditadura do país, é convidado anos depois a testemunhar em processo contra os militares. Exilado na Itália, deve regressar a Buenos Aires e, junto com outros ex-presos políticos, depor no tribunal sobre os horrores que viveu quando estudante aos 20 anos.

Já as locações na capital gaúcha vieram em função de uma vontade, mas também de um contexto atual na Argentina. “Bechis queria muito voltar a filmar no Brasil”, diz Cibele Amaral, uma das produtoras. Em 2008, ele filmou aqui Terra Vermelha, com locações em Mato Grosso do Sul. “Mas também com o governo Milei não seria viável filmar lá uma história como essa”.

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A escolha recaiu, então, na capital gaúcha, que tem semelhanças urbanas com a portenha e é vista em muitas sequências em tomadas aéreas. Mas há também filmagens nas ruas, e uma curiosidade foi o uso de táxis típicos nas cores amarela e preta. Os carros, na verdade, foram envelopados para ficarem iguais aos de Buenos Aires.

Favoreceu também o fato de grande parte das filmagens se dar em ambientes fechados. Os demais produtores, André Ristum e Patrick de Jongh, lembram que o conceito autoral do cineasta se vale bastante de locações internas. “Conseguimos rodar em um hotel antigo, de arquitetura art-déco, que funcionou muito bem para o cenário do tribunal”, lembra Ristum.

“Bechis ficou entusiasmado quando viu o espaço enorme do restaurante e o aproveitou numa cena noturna, quando estava fechado, numa sequência tensa da trama”. Na tomada, o protagonista está sozinho fazendo anotações para seu depoimento quando aos poucos os demais ex-companheiros de luta chegam e iniciam uma discussão sobre as decisões dele no passado.

A predileção do diretor por ambientes fechados é, em parte, determinada pelos dramas que conta no cinema. O mais conhecido é uma espécie de preâmbulo deste filme. “Garagem Olimpo” (1999) trata pela linguagem ficcional do local real onde os jovens militantes argentinos eram presos e torturados. O centro da trama é uma jovem para ali levada. Agora, no novo filme, o protagonista visita a garagem com a filha de uma guerrilheira que não sobreviveu. Sua consciência o atordoa justamente por ter sobrevivido. A que custo, o filme mostrará.

Foi para refletir sobre os sobreviventes da ditadura que o realizador resgatou mais uma vez sua própria trajetória. Embora menos trágica, ele conheceu a brutalidade do regime ao ser preso aos 20 anos quando estudante. Ficou apenas dez dias preso. Isso o fez sair da Argentina e morar brevemente em São Paulo, para então seguir para a Itália. Mas ele não quer só relembrar ditaduras. “Como estarão os sobreviventes da Ucrânia, de Gaza, de tantas guerras por aí?”, indaga, em conversa com um grupo de jornalistas durante o festival.

“Minha intenção é lembrar que os que ficam permanecem marcados, sofrem, tem suas vidas paralisadas, e não raro são julgados pela sociedade”.

O julgamento, aliás, como rito legal para fazer justiça, é o ponto alto do filme. Momento que um bom elenco faz toda a diferença. Em confrontos dramáticos com o protagonista, a juíza responsável pelo processo interpretada pela atriz Paula Cohen primeiro o adverte que ele pode sair do processo como vítima mas também como réu, a depender do que falar na tribuna. Já durante a sessão, ela o incita a contar detalhes dolorosos de sua experiencia.

“Bechis é um diretor que sabe determinar muito claro o que quer, e isso nos deixa muito seguros e com espaço para conversar, debater”, comenta a atriz.

Profissional sobretudo do teatro, ela foi escolhida também por ter domínio do espanhol. Sua personagem é um amálgama de diversas juízas atuantes nos processos de 1985 que condenaram à pena perpétua os militares responsáveis pela opressão. “Essa é uma dificuldade, como não fizemos esse processo no Brasil, tive que pesquisar, ler muito, sobre como tudo se deu na Argentina”.

Ela lembra que criança, ainda no Uruguai, ouvia os pais falarem do assunto. “Também lembro de canções que remetiam àquele momento”. Bechis acredita que há uma ferida ainda aberta nos países latino-americanos que não realizaram a revisão dos tempos dos regimes militares e seu justiçamento.

“Na Argentina, Videla morreu na cadeia, mas no Chile, por exemplo, Pinochet morreu tranquilo em uma clínica e recebendo homenagens”, diz, referindo-se aos presidentes militares no cargo naquele período. “Por isso faço filmes, é como posso contribuir para lembrar o horror.”

Acompanhe a matéria em Metrópoles.com

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