Pedreiro lidera registros de acidentes de trabalho entre ocupações identificadas em Alagoas
Em 2021, foram 1.226 ocorrências; já em 2025, o número de notificações subiu para 3.752 casos no estado

A queda de um andaime poderia ter encerrado a carreira de João*, pedreiro com mais de 20 anos de profissão. Durante uma obra, ele se desequilibrou, caiu, bateu a cabeça e ficou desacordado. Também fraturou um dos dedos da mão. Quase dois meses depois, conseguiu voltar ao trabalho, mas ainda convive com as consequências do acidente: o dedo permanece dormente e ele não consegue fechá-lo completamente.
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“Eu fazia um serviço em uma casa. Subi nos andaimes e, durante a obra, eu me desequilibrei e caí. Fiquei desacordado porque bati a cabeça e quebrei um dos dedos das mãos. Passei quase dois meses sem conseguir trabalhar. Até hoje ainda sinto, não consigo fechar direito o dedo, ele é dormente; o médico disse que perdi a sensibilidade”, relata.
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João não usava equipamento de proteção individual (EPI) quando sofreu o acidente. A experiência, segundo ele, serviu de alerta. Depois da queda, passou a adotar mais cuidados durante o trabalho.
O caso do pedreiro não é isolado. Em Alagoas, pedreiro foi a ocupação identificada com o maior número de registros de acidentes de trabalho em 2024, segundo dados do Ministério da Saúde. Foram 386 ocorrências naquele ano — número superior ao registrado entre trabalhadores da cana-de-açúcar, que somaram 255 casos.


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Em 2025, os pedreiros apareceram novamente entre as ocupações com mais acidentes no Estado, com 362 registros. A categoria ficou atrás apenas dos casos classificados como “CBO sem identificação”, que reuniram 446 ocorrências. Trabalhadores da cultura da cana-de-açúcar aparecem na sequência, com 189 registros.
Os números também mostram que o problema já aparecia antes. Em 2021, foram registrados 73 acidentes envolvendo pedreiros, contra 59 entre trabalhadores agropecuários em geral e 40 entre serventes de obras.

Entre 2021 e 2024, os registros de acidentes envolvendo pedreiros passaram de 73 para 386 — um aumento de mais de cinco vezes.
Por trás das estatísticas estão trabalhadores que, como João, podem carregar por meses ou até pelo resto da vida as consequências de um acidente ocorrido durante um dia comum de trabalho.
O Ministério da Saúde também instituiu o Pacto Pela Vida do Trabalhador e da Trabalhadora, programa nacional voltado à prevenção e à vigilância de mortes relacionadas ao trabalho. A iniciativa prevê a atuação conjunta da União, estados e municípios, por meio do SUS, para investigar óbitos, identificar fatores de risco e adotar medidas capazes de evitar novas mortes. A estratégia inclui acidentes de trabalho, doenças e intoxicações relacionadas à atividade profissional, além de outras situações associadas ao trabalho.

Segundo Paulo Malgueiro, diretor de relacionamentos da ABI e do Sindicato da Indústria da Construção do Estado de Alagoas (Sinduscon-AL), entre os principais acidentes envolvendo pedreiros estão as quedas de altura, choques elétricos, soterramentos e perfurações provocadas pelo uso de ferramentas, como furadeiras e maquitas. Ele explica que a própria dinâmica da construção civil aumenta os riscos, já que o ambiente de trabalho muda diariamente, com novas estruturas e diferentes fatores de perigo surgindo ao longo da obra.
O especialista também destaca a informalidade como um dos principais desafios para a prevenção de acidentes no setor. Segundo ele, em obras informais, muitas vezes não há acompanhamento de profissionais de segurança do trabalho, fornecimento adequado de equipamentos de proteção individual (EPIs) ou treinamento para atividades de risco, como trabalho em altura e contato com energia elétrica. “Então, fica difícil de medir. Quando tem um acidente, é um pedreiro, independentemente de ele estar na informalidade ou em uma empresa formal, com todos os cuidados necessários”, afirma.
Para Marcela Monteiro Dória, titular regional da Coordenadoria Nacional de Defesa do Meio Ambiente do Trabalho do Ministério Público do Trabalho (Codemat), a prevenção de acidentes deve começar pela identificação e pelo controle dos riscos, e não pelo simples fornecimento de equipamentos de proteção individual (EPIs). “As empresas precisam investir em uma gestão de segurança que envolva análise dos riscos, planejamento, medidas de proteção coletiva, capacitação e supervisão dos trabalhadores. Os EPIs, nesse contexto, são medidas complementares, utilizadas quando os demais controles não forem suficientes para eliminar ou neutralizar os riscos”, disse.

A representante do MPT também destaca que, no caso de atividades em altura, como as realizadas em andaimes, é necessário planejamento prévio, análise de riscos, capacitação e adoção prioritária de sistemas de proteção coletiva. “Quando essas medidas não forem suficientes, devem ser utilizados equipamentos adequados, como cinturão de segurança, talabarte e sistema de ancoragem”. Ela ressalta ainda que a montagem, o uso e a desmontagem dos andaimes devem seguir procedimentos técnicos e as normas de segurança aplicáveis à atividade.
Na construção civil, atividades realizadas em altura, o uso de ferramentas e equipamentos e a movimentação de materiais fazem parte da rotina. A adoção de medidas de segurança, o fornecimento e o uso adequado de EPIs e a fiscalização das condições de trabalho são fundamentais para reduzir os riscos.

Para João, o acidente mudou a maneira como encara a profissão que exerce há mais de duas décadas. A queda passou, mas a marca permaneceu: a dificuldade para movimentar o dedo e a perda de sensibilidade ainda fazem parte da sua rotina.
*Nome fictício utilizado para preservar a identidade do trabalhador.
