Além do perigo imaginário: como a terapia cognitivo-comportamental entende e trata a ansiedade
Brasil lidera o ranking mundial de prevalência de transtornos de ansiedade

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Se você já vivenciou esse conjunto de sensações, sabe que a experiência transcende o mero desconforto passageiro: trata-se de uma tempestade neurofisiológica paralisante. No cenário contemporâneo, esse fenômeno deixou de ser um evento isolado para se tornar uma verdadeira crise de saúde pública global. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil lidera o ranking mundial de prevalência de transtornos de ansiedade, com aproximadamente 9,3% da população afetada — o que corresponde a mais de 18,6 milhões de brasileiros. Globalmente, calcula-se que cerca de 264 milhões de pessoas vivam sob o domínio dessa condição, com um aumento expressivo de mais de 25% registrado nos últimos anos. Por trás dessas estatísticas alarmantes, contudo, reside uma estrutura cognitiva complexa que precisa ser desmantelada para que se possa compreender a raiz do sofrimento humano.
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Para decodificar esse mecanismo, a psicologia científica recorre a modelos teóricos consolidados. Grandes estudiosos da psicologia cognitiva, como Aaron Beck e David Clark, apontam que a ansiedade se autoalimenta através de um ciclo vicioso fortemente sustentado pela interpretação enviesada de ameaça e pela superestimativa sistemática do perigo. Em termos evolutivos e adaptativos, a ansiedade em sua origem primordial cumpre uma função essencial de sobrevivência: diante de um risco real, a amígdala cerebral aciona o eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA), hiperativando o sistema nervoso simpático e inundando a corrente sanguínea com cortisol e adrenalina. É essa descarga que prepara o organismo para as respostas arquetípicas de luta ou fuga. O nó cego da clínica contemporânea surge quando esse alarme biológico, projetado para reagir a predadores concretos, passa a responder a perigos imaginados, hipóteses catastróficas e projeções incertas sobre o futuro.
Quando a mente percebe uma ameaça antecipada — ainda que puramente hipotética —, a resposta somática e emocional ocorre em tempo real. Pressionado pela agonia física, o indivíduo recorre quase que instintivamente ao mecanismo que a psicologia cognitiva conceitua como armadilha da esquiva comportamental. Na tentativa urgente de aplacar o sofrimento e restaurar a sensação de controle, a pessoa passa a evitar ativamente situações, reuniões, diálogos, ambientes ou até mesmo pensamentos que associou ao gatilho ansioso. O comportamento de esquiva funciona, assim, como uma anestesia imediata: ao recuar do estímulo estressor, os níveis de excitação fisiológica despencam e a sensação de alívio se instala de pronto.


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Entretanto, esse alívio momentâneo oculta um custo psíquico devastador a médio e longo prazo. Do ponto de vista do aprendizado e do condicionamento, a esquiva envia uma mensagem biológica e cognitiva inequívoca ao cérebro: a de que o cenário temido era, de fato, mortalmente perigoso e que o indivíduo não possuía os recursos de enfrentamento (coping) necessários para sobreviver a ele. Com isso, perde-se a oportunidade de desmitificar a ameaça. O ciclo se fecha de maneira perversa e autorreferencial: o medo gera a esquiva, a esquiva reforça e consolida a percepção de incapacidade pessoal, e a ansiedade se sedimenta como uma prisão diária, estreitando drasticamente o repertório de vida e a autonomia do sujeito.
É precisamente sobre essa engrenagem que a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) intervém de forma estruturada, empiricamente validada e focada na autonomia do paciente. Diferente de abordagens que buscam a supressão simplista do sintoma ou a eliminação irreal de uma emoção natural, a TCC visa reestruturar o sistema de crenças e os padrões automáticos de processamento da informação. Por meio do questionamento socrático, do exame de evidências e da reestruturação cognitiva, o indivíduo aprende a identificar as distorções do pensamento — como a catastrofização e a leitura mental — e a confrontá-las de maneira objetiva. Paralelamente, o protocolo de exposição gradual e sistemática aos estímulos temidos permite a habituação fisiológica e o desmonte gradual da esquiva comportamental, provando na prática que o desconforto é tolerável e que as previsões nefastas raramente se concretizam.
Superar a ansiedade patológica não significa alcançar um estado imperturbável de anestesia emocional ou invulnerabilidade, mas sim construir um repertório psicológico flexível que permita ao indivíduo caminhar a despeito do medo. Compreender criticamente que pensamentos são construções mentais e não fatos consumados, e que o organismo possui mecanismos neurobiológicos natos para autorregular suas respostas fisiológicas, representa o ponto de virada na clínica. Afinal, ao aprendermos a decodificar os alarmes falsos emitidos por nossa mente, desarmamos as armadilhas dos perigos imaginários e recuperamos a autoridade sobre a nossa própria história.
Gabriella Matias - Psicóloga Clínica - CRP - 20/03139 (@gabrielamatias_psi)
Especialista em Terapia Cognitivo-comportamental; Educação Especial e Psicomotricidade, Neuropsicologia, Clincia, Psicologia Jurídica, Psicologia Organizacional.
*Os artigos assinados são de responsabilidade dos seus autores, não representando, necessariamente, a opinião da Organização Arnon de Mello.
