Obesidade: a doença que ainda insistimos em tratar como uma escolha
Obesidade deixou de ser um problema individual para se tornar uma das maiores ameaças à saúde pública mundial

Você provavelmente conhece alguém que teve um infarto antes dos 50 anos. Ou que desenvolveu diabetes, precisou colocar uma prótese no joelho ou passou anos tentando emagrecer sem sucesso.
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O que muitas pessoas não percebem é que, por trás dessas histórias, frequentemente existe uma doença crônica chamada obesidade.
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Apesar de ainda ser tratada por muitos como uma questão de falta de força de vontade ou de escolhas inadequadas, a obesidade é reconhecida pelas principais sociedades médicas do mundo como uma doença complexa, multifatorial e crônica. Ela resulta de alterações na regulação do tecido de gordura, da genética, dos hormônios, do ambiente, do comportamento e de diversos mecanismos biológicos que tornam extremamente difícil perder peso e manter a perda de peso.
Mais do que excesso de peso, a obesidade representa um excesso de gordura corporal capaz de comprometer o funcionamento de praticamente todos os órgãos do corpo. Além disso, promove um estado de inflamação crônica que contribui para o desenvolvimento e a progressão de diversas doenças.


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Um dos maiores problemas de saúde pública do século XXI
A obesidade deixou de ser um problema individual para se tornar uma das maiores ameaças à saúde pública mundial.
Estima-se que aproximadamente um em cada três brasileiros viva com obesidade, e esse número continua crescendo, inclusive entre crianças e adolescentes.
O impacto vai muito além da balança.
A obesidade aumenta significativamente o risco de diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, hipertensão arterial, doença hepática gordurosa, osteoartrite, infertilidade, apneia do sono e diversos tipos de câncer. Também está associada à pior qualidade de vida, maior incapacidade física e redução da expectativa de vida.
O problema não é o peso. É o que o excesso de gordura faz silenciosamente com o organismo.
Durante muitos anos, acreditou-se que bastava calcular o Índice de Massa Corporal (IMC) para diagnosticar obesidade.
Hoje sabemos que essa visão é limitada.
Duas pessoas com o mesmo IMC podem ter riscos completamente diferentes para a saúde. O diagnóstico também leva em consideração o acúmulo de gordura corporal — especialmente na região abdominal — e, principalmente, se esse excesso de gordura já está comprometendo a saúde da pessoa.
Em outras palavras, a obesidade não é definida apenas pelo número que aparece na balança, mas pelos efeitos que o excesso de gordura exerce sobre o organismo.
A obesidade mata — mesmo quando parece "não ser tão grave"
Diferentemente de muitas doenças, a obesidade costuma evoluir de forma silenciosa durante anos.
Enquanto isso, ocorre um processo contínuo de inflamação, resistência à insulina, alterações hormonais, sobrecarga das articulações, perda progressiva da saúde cardiovascular e, muitas vezes, redução da massa muscular.
Quando surgem as complicações, o dano frequentemente já está instalado.
Infarto, acidente vascular cerebral (AVC), insuficiência cardíaca, doença renal crônica, cirrose causada pela doença hepática gordurosa e diversos tipos de câncer estão entre as principais causas de morte relacionadas à obesidade.
Por isso, esperar o aparecimento do diabetes, da hipertensão ou de outras complicações para iniciar o tratamento significa perder uma oportunidade importante de prevenção.
Quem deve ficar atento?
Embora qualquer pessoa possa desenvolver obesidade, alguns fatores aumentam significativamente esse risco:
• histórico familiar;
• sedentarismo;
• alimentação rica em alimentos ultraprocessados;
• privação de sono;
• estresse crônico;
• uso de alguns medicamentos;
• menopausa;
• algumas doenças hormonais.
Além disso, pessoas com aumento da circunferência abdominal merecem atenção especial, já que o acúmulo de gordura nessa região está fortemente associado ao risco cardiovascular e metabólico.
A boa notícia: existe diagnóstico
Hoje sabemos que avaliar apenas o peso é insuficiente.
O diagnóstico da obesidade vai muito além do IMC. O médico também avalia a distribuição da gordura corporal, a circunferência abdominal, a presença de doenças relacionadas ao excesso de gordura e o impacto dessa condição sobre a saúde e a capacidade funcional da pessoa.
Também podem ser solicitados exames laboratoriais para investigar alterações metabólicas, hormonais e nutricionais frequentemente associadas à obesidade.
Quanto mais cedo o diagnóstico é feito, maiores são as chances de prevenir complicações futuras.
Existe tratamento
Outro mito bastante comum é acreditar que tratar obesidade significa apenas "fechar a boca".
Hoje sabemos que isso não funciona para a maioria das pessoas.
O tratamento deve ser individualizado e inclui mudanças sustentáveis no estilo de vida, alimentação adequada, prática regular de atividade física, sono de qualidade, manejo do estresse e acompanhamento multiprofissional quando necessário.
Para muitos pacientes, medicamentos também fazem parte do tratamento, ajudando a controlar mecanismos biológicos relacionados à fome, à saciedade e ao metabolismo. Em situações específicas, a cirurgia bariátrica pode ser a alternativa mais adequada.
O objetivo do tratamento não é apenas reduzir o peso, mas diminuir o risco de doenças, preservar a massa muscular, melhorar a qualidade de vida e aumentar a expectativa de vida com autonomia e independência.
Não espere a primeira complicação
Assim como acontece com a hipertensão ou a osteoporose, a obesidade costuma evoluir silenciosamente durante muitos anos antes de provocar consequências importantes.
Esperar o diabetes aparecer. Esperar o infarto acontecer. Esperar a dor impedir você de caminhar.
Esse é o maior erro.
A obesidade tem diagnóstico, tem tratamento e pode ser abordada antes que provoque danos irreversíveis.
Se você apresenta excesso de gordura corporal, aumento da circunferência abdominal ou já convive com doenças relacionadas ao peso, converse com um médico que tenha experiência no tratamento da obesidade.
Cuidar da obesidade não é buscar um corpo perfeito.
É proteger o coração, o cérebro, os músculos, os ossos e todos os órgãos que permitirão que você viva mais e viva melhor.
Afinal, longevidade não significa apenas viver mais anos. Significa preservar saúde, autonomia e qualidade de vida ao longo de toda a vida.
Sobre a autora
Dra. Mariana Maurer Herter é médica fisiatra (CRM-RS 32.954 | RQE 44.434), com certificação internacional em Medicina do Estilo de Vida. Atua com foco em saúde muscular, obesidade, menopausa, osteoporose, longevidade e prevenção de doenças relacionadas ao envelhecimento. Realiza atendimentos online para todo o Brasil e consultas presenciais em Porto Alegre (RS).
Para mais informações e conteúdos sobre saúde, acompanhe @marianaherter.
*Os artigos assinados são de responsabilidade dos seus autores, não representando, necessariamente, a opinião da Organização Arnon de Mello.
