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HOME > blogs > RAPHA FALCÃO
Imagem ilustrativa da imagem Até o cartão amarelo virou anúncio?

BLOG DO
Rapha Falcão

Até o cartão amarelo virou anúncio?

Existe um momento em que a publicidade deixa de valorizar o espetáculo e começa a disputar atenção com ele.


				Até o cartão amarelo virou anúncio?
Divulgação

No futebol brasileiro, essa discussão ganhou um novo capítulo. A CBF anunciou uma parceria com a Yelum Seguros para estampar a marca da empresa nos cartões amarelos utilizados pelos árbitros em partidas do Campeonato Brasileiro e da Copa do Brasil. A ação, prevista até o fim de 2026, também envolve outros espaços ligados à equipe de arbitragem.

A proposta oficial é transformar o cartão amarelo em uma plataforma de conscientização sobre atenção, prevenção e segurança.

A associação faz sentido dentro da lógica da campanha. O cartão interrompe o jogo para chamar atenção sobre uma conduta. A seguradora trabalha com a ideia de prevenção. Existe uma conexão conceitual.

Mas o debate não precisa ficar limitado à criatividade da ação.

A pergunta mais importante é outra:

até onde o futebol pode comercializar seus elementos sem prejudicar a experiência de quem assiste?

Quando tudo vira espaço de mídia

O torcedor já convive com marcas nas placas ao redor do campo, nas camisas dos jogadores, nos uniformes dos árbitros, nas entrevistas, nas vinhetas, nos intervalos, nas transmissões e nas ações realizadas durante as partidas.

Também existem QR Codes, inserções dos narradores, conteúdos patrocinados, estatísticas oferecidas por marcas e ativações integradas aos programas esportivos.

Agora, até o cartão amarelo pode carregar publicidade.

Isoladamente, cada uma dessas ações pode parecer aceitável. O problema aparece quando todas disputam atenção ao mesmo tempo.

A sensação transmitida ao público é de que qualquer elemento do esporte pode ser transformado em inventário comercial.

E existe uma diferença importante entre uma marca participar do futebol e uma marca ocupar o futebol.

O cartão amarelo não é um espaço neutro

O cartão amarelo faz parte da tensão emocional da partida.

Ele representa advertência, reclamação, vaia, pressão, indignação e risco. Dependendo do momento, pode mudar o comportamento de um jogador, alterar a estratégia de uma equipe ou influenciar os minutos seguintes do confronto.

Quando uma marca entra nesse instante, ela não está aparecendo em um espaço qualquer.

Está se associando a um dos símbolos mais reconhecidos e emocionalmente carregados do jogo.

Isso não significa que a ação seja necessariamente errada. Significa apenas que o contexto precisa ser analisado com mais profundidade do que os números de alcance.

Porque publicidade não é somente aparecer.

É aparecer no lugar certo, no momento certo e com uma presença que não prejudique aquilo que tornou aquele espaço valioso.

Aparecer mais não significa construir mais marca

Durante muito tempo, parte do mercado publicitário tratou exposição como sinônimo de eficiência.

Quanto mais vezes uma marca fosse vista, melhor seria o resultado.

Hoje, essa lógica precisa ser revista.

O consumidor aprendeu a ignorar banners, pular anúncios, silenciar conteúdos e reconhecer rapidamente quando uma mensagem está tentando interromper sua experiência.

Quando a publicidade invade um momento de alta atenção, ela pode até aumentar a lembrança da marca. Mas essa lembrança nem sempre será positiva.

Uma pesquisa experimental sobre anúncios interruptivos identificou que esse tipo de exposição pode reduzir a disposição do consumidor para pagar por produtos relacionados à marca anunciante. Ou seja, conquistar atenção à força não garante maior valor percebido.

No marketing, visibilidade sem contexto pode produzir rejeição.

A marca aparece, mas aparece demais.

Aparece quando o público não gostaria de vê-la.

Aparece competindo com aquilo que a audiência realmente queria acompanhar.

A Copa do Mundo já apresentou esse alerta

Durante as transmissões da Copa do Mundo de 2026, a presença intensa de publicidade de casas de apostas também provocou críticas e questionamentos.

O debate deixou de ser apenas uma reclamação nas redes sociais. A Secretaria Nacional do Consumidor abriu uma investigação para apurar possíveis irregularidades em ações publicitárias durante as transmissões, e o Conar chegou a determinar a suspensão emergencial de peças consideradas abusivas enquanto o caso era analisado.

O episódio mostrou que existe um limite delicado entre monetizar uma audiência e explorar excessivamente a atenção dessa audiência.

Quando o anúncio começa a interromper o ritmo, disputar protagonismo com os lances ou cansar o telespectador, a experiência piora.

E quando a experiência piora, todos perdem.

O público perde interesse.

A transmissão perde qualidade.

O esporte perde parte do seu valor emocional.

E as próprias marcas passam a ser associadas ao incômodo.

O futebol não é apenas audiência

O futebol possui uma força que poucas plataformas conseguem reproduzir.

Ele reúne paixão, memória, família, rivalidade, comunidade e pertencimento.

As pessoas não acompanham uma partida como acompanham qualquer outro conteúdo. Elas se envolvem, criam rituais, compartilham emoções e desenvolvem vínculos que atravessam gerações.

É justamente essa conexão que torna o futebol tão valioso para os anunciantes.

Mas também é essa conexão que precisa ser protegida.

O torcedor entende que patrocínios são importantes. Clubes, campeonatos, emissoras e plataformas precisam de receita para manter suas operações.

A questão não é eliminar a publicidade.

A questão é impedir que o esporte comece a parecer apenas uma vitrine cercada por um jogo.

O excesso pode destruir o próprio ativo que as marcas procuram

As empresas investem no futebol porque querem comprar acesso à atenção do torcedor.

Porém, quando todos os espaços são preenchidos por anúncios, essa atenção começa a perder valor.

Se tudo é publicidade, nenhuma publicidade parece especial.

Se todas as marcas querem interromper o torcedor, ele aprende a ignorar todas elas.

O excesso cria uma espécie de inflação da atenção. Existem mais anúncios disputando o mesmo olhar, mas cada aparição individual provoca menos impacto.

Por isso, o futuro do marketing esportivo não deveria depender apenas da criação de novos espaços publicitários.

Deveria depender da criação de experiências mais relevantes, integradas e respeitosas.

Uma ação bem conectada ao contexto pode fortalecer a relação entre marca e público.

Uma ação percebida como invasiva pode gerar exatamente o efeito contrário.

Publicidade boa respeita o jogo

O futebol precisa de investimento.

Precisa de patrocinadores, transmissões rentáveis e modelos comerciais sustentáveis.

Mas também precisa reconhecer que a experiência do torcedor é o principal ativo de toda essa estrutura.

Sem emoção, não existe audiência.

Sem audiência, não existe alcance.

Sem alcance, não existe espaço publicitário valioso.

O cartão amarelo patrocinado pode ser uma ação criativa. Também pode representar um sinal de alerta sobre a direção que o marketing esportivo está tomando.

Talvez a discussão não seja sobre colocar ou não uma marca no cartão.

Talvez seja sobre entender quanto da experiência ainda precisa permanecer pertencendo exclusivamente ao jogo.

Porque publicidade eficiente não é aquela que aparece em todos os lugares.

É aquela que sabe exatamente onde deveria estar.

Na sua opinião, o futebol está criando ações comerciais mais inteligentes ou já passou do limite nos anúncios?