Ninguém te avisou que os 40 seriam assim, e por que isso não é um problema seu
Resultado é um ciclo que eu vejo se repetir infinitamente

Eu atendo mulheres todos os dias no consultório e escuto praticamente a mesma frase, com variações diferentes: "eu não me reconheço mais". Vem de quem nunca conseguiu sustentar uma rotina de exercício, por mais que tenha tentado várias vezes. Vem de quem dormia bem a vida toda e de repente passa a noite acordada olhando pro teto. Vem de quem sempre teve energia de sobra e hoje chega no fim do dia sem forças nem pra tirar a maquiagem.
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E a primeira coisa que eu digo, sempre, é: você não está ficando fraca. Você está passando por um dos processos mais intensos de mudança hormonal e metabólica que o corpo feminino vive. E ninguém te preparou pra isso.
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A gente cresce ouvindo que basta força de vontade. Que se você não consegue manter uma dieta, é falta de disciplina. Que se você não vai pra academia, é preguiça. Só que ninguém fala que, depois dos 40, o corpo simplesmente responde diferente aos mesmos estímulos de antes. A oscilação hormonal da perimenopausa mexe com sono, humor, composição corporal, disposição. E ainda assim, a mulher continua sendo cobrada com o mesmo discurso de sempre, como se nada tivesse mudado.
O resultado é um ciclo que eu vejo se repetir infinitamente: começa a academia, motivada, e para em duas semanas. Começa uma dieta, e não sustenta. Tenta de novo, com um pouco menos de fé em si mesma cada vez. E o pior não é nem parar. É o que a gente aprende a pensar sobre si mesma quando para: que não tem jeito, que já tentou de tudo, que talvez seja assim mesmo agora.


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Eu não acredito nisso. E, como geriatra, tenho um motivo bem concreto pra não acreditar.
Escolhi a geriatria por causa dos meus avós, Laura, Rony, Lacy e Graciema. Foi com eles que aprendi que o envelhecimento pode ser lindo, cheio de vida, e que merece respeito, não medo. Mas foi na residência que eu entendi, na prática, o outro lado dessa história: o que anos de hábitos inadequados e pouco cuidado com a saúde provocam. Dependência, fraqueza, perda de autonomia. Ali eu me apaixonei pela prevenção. Por chegar antes do problema.
E uma coisa ficou muito clara pra mim ao longo desses anos: nosso envelhecimento não é definido pelo dia em que fomos à academia e treinamos duas horas, nem pela dieta rígida que seguimos por uma semana. Ele é construído nas pequenas ações do dia a dia, no 1% que a gente entrega repetidamente, ao longo de décadas. Não é tudo ou nada. É um pouquinho, dentro da realidade de cada uma, sustentado no tempo.
Eu cansei de ouvir mulheres dizendo que o auge delas já passou. E discordo profundamente disso. O auge dos 20 anos, esse a natureza dá de presente pra todo mundo, sem esforço nenhum. Mas existe outro auge, o que a gente constrói com as decisões que toma todos os dias, com o que escolhe fazer ou deixar de fazer. Esse é mais valioso, mais duradouro, porque é ele que molda quem nós nos tornamos. E esse, ninguém tira.
Foi pensando nisso que criei a Jornada AUGE.
Como médica, eu vivia uma frustração recorrente: fazer todo o planejamento de mudança de hábitos com a paciente, e ela voltar meses depois sem ter conseguido sustentar quase nada. E o motivo quase nunca era falta de vontade. Era falta de estrutura. Faltava alguém por perto pra ajustar a rota quando a vida virava de cabeça pra baixo, pra ajudar a retomar depois de uma falha, pra transformar aquela orientação genérica de consultório em algo que realmente cabe na vida real de cada mulher.
Por isso a Jornada não é só teoria. São 12 semanas com encontros semanais em grupo, uma comunidade de mulheres vivendo o mesmo momento, e encontros individuais comigo, pra construir junto o que chamo de âncora de identidade, aquela frase que vira filtro de decisão nos dias difíceis, e o kit de emergência, com uma pessoa da rede de apoio de cada uma pronta pra ser acionada quando o caminho começa a desandar.
Trabalhamos três hábitos angulares ao longo do programa: movimento, sono e tempo para si. Não por acaso. São hábitos que, sozinhos, puxam outras mudanças junto. Quando você se exercita, naturalmente cuida melhor da alimentação, porque já está num movimento de se cuidar. Quando dorme bem, toma decisões melhores, porque está descansada.
E o mais importante: ensino que falha é dado, não sentença. Ninguém sai dessas 12 semanas com uma rotina perfeita e imune a imprevistos, porque imprevisto sempre vai existir. Uma gripe, uma viagem, uma fase corrida no trabalho. O que a gente constrói é a capacidade de reduzir aos mínimos viáveis nas semanas difíceis, e voltar, sem se punir por ter saído do caminho. No fim, o que separa quem envelhece bem de quem não envelhece é justamente isso: algumas pessoas sabem voltar.
Foi com essa convicção que estruturei a Jornada AUGE, um programa de 12 semanas que criei justamente pra dar corpo a essas ideias: encontros em grupo, acompanhamento individual e uma comunidade de mulheres vivendo o mesmo momento, tudo pensado pra devolver, aos poucos, o protagonismo que a rotina costuma tirar da gente. Pra mim, é isso que significa cuidar da saúde depois dos 40. Não é perseguir um padrão antigo de disciplina, é aprender a se conhecer de novo, e descobrir que dá, sim, pra construir um auge novo, diferente do que a gente imaginava aos 20, e talvez até mais bonito.
Isadora Zaniboni
Médica Geriatra, professora de Geriatria na UNISUL PB e criadora da Jornada AUGE.
*Os artigos assinados são de responsabilidade dos seus autores, não representando, necessariamente, a opinião da Organização Arnon de Mello.
