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Estudo usado por Milei não diz que Brasil liderou 'campanha anti-Argentina'

Presidente argentino participou de um ato de pré-campanha de Flávio Bolsonaro


				Estudo usado por Milei não diz que Brasil liderou 'campanha anti-Argentina'

O presidente argentino Javier Milei participou no último sábado (25) de um ato de pré-campanha de Flávio Bolsonaro, em São Paulo. Em seu discurso, ele insultou o presidente Lula (PT): chamou-o de "ladrão" e "lixo socialista". Além disso, relacionou-o a uma "campanha anti-Argentina" que ocorreu nas redes sociais durante a Copa do Mundo e disse: "Se vocês revisarem os dados da recente campanha anti-Argentina, o lugar de onde vieram mais ataques foi o Brasil, e não é dos brasileiros, é da progressista socialista (sic)".

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No dia seguinte, Milei voltou ao tema em uma entrevista à Rádio Mitre, durante a Exposição Rural. Isso provocou um conflito diplomático entre a Argentina e o Brasil, a ponto de o governo brasileiro "chamar para consultas" seu embaixador na Argentina, Julio Bitelli.

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Mas não há provas, até o momento, para sustentar o que Milei afirmou. O Chequeado entrou em contato com a assessoria de imprensa da Presidência da Argentina para consultar a fonte das declarações, mas não obteve resposta até o momento da publicação desta reportagem.

Fonte das declarações de Milei

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Em nenhuma de suas intervenções o presidente argentino mencionou a fonte de suas afirmações. No entanto, em sua conta no X, o mandatário republicou três vezes um post da conta "Encuestas Argentinas" (@EncuestAR), que afirma que o Brasil foi o país com mais publicações sobre a Argentina (22%), seguido por México (15%) e Estados Unidos (13%), entre dezembro de 2022 e julho de 2026.

O gráfico divulgado nos posts cita a consultoria Monitor Digital como fonte. A empresa publicou, em 24 de julho, uma análise intitulada "A derrota para a Espanha transformou a 'argentinidade' em tema de discussão global". Nela, foram analisadas 645 milhões de publicações no X, Facebook, Instagram, Threads, Reddit, TikTok e YouTube sobre a Argentina, feitas por usuários de outros países, entre dezembro de 2022 e julho de 2026.

O relatório afirma que "56,2% das publicações sobre a Argentina foram feitas em espanhol, muito acima do inglês, com 30,7%, e do português, com 9,5%".

Além disso, indica que o Brasil foi o país com maior volume de publicações estrangeiras, com 22,1%; seguido pelo México, com 14,8%; Estados Unidos, com 13%; e Espanha, com 11%. Como explicação, o estudo afirma que o dado referente ao Brasil se deve ao tamanho de suas comunidades nas redes sociais (por ser um país com mais de 210 milhões de habitantes), e, em segundo lugar, à "cultura futebolística do Brasil, o maior país da América do Sul em extensão territorial e população, e sua rivalidade histórica com a Argentina".

Mas o estudo da Monitor Digital, dirigida pelo jornalista Diego Corbalán, não analisa nem afirma que se tratou de uma campanha coordenada, como afirmou Milei. "Da análise que fizemos não encontramos nenhuma campanha que tenha sido especificamente orquestrada por um determinado grupo de usuários das redes sociais", afirmou Corbalán em entrevista ao Chequeado.

O estudo também não analisou temas específicos nem as intenções dos usuários. "Para este relatório, apenas rastreamos menções gerais sobre a Argentina e os argentinos, incluindo a seleção argentina por meio do termo 'argentina'", explicou Corbalán.

Não há evidências de uma 'campanha anti-Argentina' coordenada

Um estudo da consultoria Inteligencia Analytica, do qual participaram os pesquisadores Natalia Aruguete e Ernesto Calvo, analisou quase 600 mil tuítes entre os dias 19 e 21 de julho —antes e depois da final da Copa do Mundo— sobre a discussão contrária à Argentina e concluiu que não houve uma campanha coordenada nas redes sociais, ao contrário do que sustentou o presidente argentino.

"A escala foi enorme: 587.907 tuítes de 325.627 contas. Mas quase não houve contas recém-criadas e a maioria publicou apenas um tuíte. Muito volume, por si só, não equivale à coordenação", declarou Aruguete em sua conta no X.

E esclareceu: "A estrutura da rede reforça essa leitura: muito poucas conexões entre os participantes e baixa concentração das interações. Não aparece um núcleo denso capaz de organizar a conversa. Houve hostilidade, sim; o que os dados não mostram é uma operação centralizada".

Marcelo Escolar, geógrafo e diretor da consultoria, explicou à FM Urbana Play que "a conversa foi orgânica, espontânea, com predominância, no campo temático, de questões relacionadas à arbitragem e à trapaça. Quanto ao tema do racismo, não foi um tema central; a particularidade foi que a resposta argentina foi desproporcional em relação à participação real na discussão. O tema interessou mais aos argentinos do que à discussão em geral".

A análise apenas especifica a diferença entre os países no caso do racismo: indica que a Argentina foi o grupo mais ativo na discussão sobre racismo (2,61%), muito próxima do Brasil (2,54%). Mas isso também não sustenta o que disse Milei, e os analistas esclarecem que os dados medem a presença do tema, e não a posição em relação a ele.

Também não foi encontrada, na análise sobre racismo, uma diferença política. "Libertários, peronistas, opositores e contas do PRO [partido político] apareceram dentro das mesmas comunidades. As comunidades habituais da política argentina praticamente não coincidiram com as comunidades formadas durante essa conversa. Diante de uma acusação nacional, a divisão partidária deixou de organizar a discussão", afirmou a consultoria.

"Não há evidências para sustentar que 'o lugar de onde vieram mais ataques' foi o Brasil", afirmou Lucas Raffo, consultor da Ad Hoc, empresa que pesquisou as narrativas relacionadas à Argentina nas redes sociais durante a Copa do Mundo. "Também não há evidências para sustentar que as narrativas que surgiram sobre a Argentina estejam 'coordenadas entre si'", explicou Raffo.

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