Filhote de mutum-de-alagoas nasce sem chocadeira em zoológico e reforça esperança para ave extinta na natureza
Nascimento inédito no Zoológico de Belo Horizonte ocorreu sob os cuidados dos próprios pais

Quando a casca do ovo começou a rachar no Zoológico de Belo Horizonte, a equipe acompanhava cada movimento à distância. Desta vez, não houve necessidade de incubadora nem de intervenção humana. O filhote rompeu o ovo sozinho e permaneceu ao lado da mãe desde os primeiros instantes de vida.
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O nascimento, anunciado pela Prefeitura de Belo Horizonte em janeiro de 2026, marcou um feito inédito para a conservação do mutum-de-alagoas (Pauxi mitu). Segundo a administração municipal, foi o primeiro exemplar da espécie nascido no Brasil a eclodir naturalmente e a ser criado pelos próprios pais, sem o uso de chocadeira.
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O resultado representa um passo importante para uma ave considerada extinta na natureza, cuja sobrevivência depende exclusivamente de programas de reprodução mantidos por zoológicos e criadouros especializados.
Um nascimento raro para uma espécie rara


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Na época do anúncio, o filhote tinha pouco mais de 15 dias e permanecia em um recinto reservado, longe da visitação pública, sob os cuidados do casal reprodutor.
Embora pareça um processo comum para outras aves, o nascimento natural chamou a atenção porque programas de conservação frequentemente utilizam chocadeiras para controlar temperatura, umidade e garantir o desenvolvimento dos embriões quando os pais abandonam o ninho ou apresentam dificuldades na incubação.
Em Belo Horizonte, a equipe decidiu seguir um caminho diferente.
A aposta foi deixar a natureza agir
Em vez de retirar o ovo para incubação artificial, os profissionais investiram na preparação do ambiente para que todo o ciclo ocorresse dentro do recinto.
A fêmea permaneceu incubando o ovo até o nascimento, e o filhote passou imediatamente aos cuidados dos pais.
Segundo a bióloga Márcia Procópio, chefe da seção de aves do zoológico, esse tipo de criação favorece o desenvolvimento de comportamentos naturais, considerados fundamentais para futuras ações de reintrodução da espécie em seu habitat.
Foram anos até formar o casal
O sucesso não aconteceu por acaso.
Os dois mutuns chegaram ao Zoológico de Belo Horizonte em 2018, ainda jovens, como parte do Plano de Ação Nacional para a Conservação do Mutum-de-alagoas.
Nos primeiros anos, a convivência foi marcada por dificuldades.
Inicialmente, a fêmea rejeitava o macho porque ele ainda não havia atingido a maturidade sexual. Mais tarde, já adulto, ele passou a atacá-la durante as tentativas de aproximação.
Para evitar ferimentos, os tratadores criaram divisórias dentro do recinto, permitindo que as aves se vissem e se acostumassem gradualmente uma com a outra antes do contato direto.
Um recinto pensado para lembrar a Mata Atlântica
Além do acompanhamento comportamental, o espaço recebeu diversas adaptações.
Foram instaladas barreiras vegetais, áreas de sombra, novos poleiros e diferentes opções de ninhos, criando um ambiente mais semelhante ao encontrado nas florestas.
O objetivo era reduzir o estresse dos animais e estimular comportamentos naturais relacionados à reprodução e aos cuidados parentais.
A estratégia deu resultado.
Após anos de monitoramento, o filhote nasceu naturalmente e, poucos dias depois, já era visto deixando o ninho e explorando o recinto ao lado dos pais.
Uma ave que desapareceu das florestas
O mutum-de-alagoas é uma ave de grande porte originalmente associada à Mata Atlântica do Nordeste, especialmente ao estado de Alagoas.
A destruição das florestas e a caça reduziram drasticamente sua população ao longo do século XX.
Segundo a Prefeitura de Belo Horizonte, a espécie desapareceu da natureza na década de 1970. Já a BirdLife International registra que o último avistamento não confirmado ocorreu no fim dos anos 1980. Independentemente da referência histórica, atualmente não existe uma população selvagem autossustentável reconhecida internacionalmente.
Toda a população atual veio de poucos animais
A situação do mutum-de-alagoas é ainda mais delicada porque a população mantida sob cuidados humanos descende de apenas alguns exemplares.
Essa base genética extremamente reduzida exige planejamento rigoroso dos cruzamentos para evitar a reprodução entre parentes próximos e preservar a diversidade genética da espécie.
Instituições participantes compartilham informações sobre parentesco, nascimentos e características dos animais antes de formar novos casais reprodutores.
O retorno à natureza já começou
Embora continue classificado como extinto na natureza, o mutum-de-alagoas já participa de projetos de reintrodução.
Em 2019, três casais foram levados para uma área de Mata Atlântica em Rio Largo, na Região Metropolitana de Maceió.
Posteriormente, os trabalhos seguiram na Mata do Cedro, localizada na Usina Utinga, com acompanhamento de instituições ambientais de Alagoas.
Ainda assim, a espécie só deixará oficialmente a categoria de extinta na natureza quando houver uma população selvagem estável, capaz de sobreviver e se reproduzir sem depender continuamente de animais criados em cativeiro.
Um filhote que representa muito mais que um nascimento
O novo mutum-de-alagoas ainda permanecerá sob acompanhamento dos especialistas, mas seu nascimento representa um avanço importante para os programas de conservação.
Ao crescer sob os cuidados dos próprios pais e desenvolver comportamentos naturais desde os primeiros dias de vida, ele amplia o conhecimento sobre a reprodução da espécie e fortalece as perspectivas de futuras reintroduções.
Para uma ave que desapareceu das florestas brasileiras e hoje depende da dedicação de pesquisadores e zoológicos para continuar existindo, cada novo filhote significa mais do que o aumento da população: representa uma nova chance de um dia voltar a ocupar seu lugar na Mata Atlântica.
