Às vésperas da Copa Feminina no Brasil, Fifa lança guia para gestantes e mães voltarem a jogar com segurança
Publicação traz protocolos inéditos para orientar atletas, treinadores e equipes médicas durante a gravidez e após

Falta menos de um ano para o Brasil receber a Copa do Mundo Feminina de 2027, e a Fifa apresentou dois protocolos inéditos para orientar jogadoras, treinadores e equipes médicas sobre como manter a prática do futebol durante a gravidez e como planejar um retorno seguro aos treinos e às competições após o parto. A iniciativa busca oferecer respaldo científico para que a maternidade deixe de ser vista como um obstáculo à carreira esportiva.
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Os trabalhos foram publicados no British Journal of Sports Medicine e desenvolvidos por pesquisadoras do Canadá, Reino Unido e Brasil, em parceria com a Fifa, órgão internacional que rege o futebol. Os documentos respondem a uma lacuna: apesar do crescimento do futebol feminino e do aumento de atletas que conciliam maternidade e carreira, ainda havia pouca orientação específica baseada em evidências para esse público.
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Futebol durante a gravidez
O primeiro estudo deu origem ao protocolo Stay in Play During Pregnancy ("Continue em jogo durante a gravidez"), que orienta decisões compartilhadas entre a atleta e sua equipe multidisciplinar.


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A principal recomendação é que o futebol com contato total seja interrompido após 12 semanas de gestação. A partir desse período, a jogadora pode continuar treinando, desde que as atividades sejam adaptadas, com contato leve ou controlado e na ausência de contraindicações médicas.
Segundo as autoras, abandonar completamente os treinos nem sempre é a melhor estratégia. As evidências analisadas mostram que a prática regular de atividade física durante a gravidez está associada a benefícios para a saúde da mãe e do bebê, enquanto a redução excessiva dos exercícios pode aumentar o risco de complicações gestacionais e dificultar a recuperação após o parto.
Antes de definir a continuidade da prática esportiva, o protocolo recomenda avaliar fatores como:
- contraindicações médicas à atividade física;
- saúde mental;
- medo de se movimentar ou de sofrer lesões;
- saúde do assoalho pélvico;
- qualidade do sono;
- apoio social e emocional.
Caso alguma dessas avaliações indique necessidade de acompanhamento, a jogadora deve ser encaminhada para profissionais especializados, como obstetras, fisioterapeutas pélvicos ou psicólogos, sem que isso signifique necessariamente interromper a prática esportiva.
Volta aos gramados após o parto
O segundo estudo apresenta o Stepping into Play, protocolo voltado ao retorno das atletas depois do nascimento do bebê.
Em vez de estabelecer um prazo fixo para voltar aos treinos, o documento propõe uma progressão em sete etapas, respeitando a recuperação física e emocional de cada jogadora. A ideia é que o retorno seja individualizado e baseado na condição clínica da atleta, e não apenas no tempo decorrido desde o parto.
Entre os aspectos avaliados estão:
- cicatrização e recuperação do parto;
- saúde do assoalho pélvico;
- função da parede abdominal;
- dores musculoesqueléticas;
- saúde mental;
- qualidade do sono;
- amamentação;
- disponibilidade de energia;
- apoio familiar e social.
Assim como no protocolo para gestantes, a ferramenta utiliza questionários validados para identificar possíveis limitações e indicar quando a atleta deve buscar atendimento especializado antes de avançar para fases mais intensas de treinamento.
Mais apoio para as jogadoras
Os dois estudos também refletem mudanças recentes na política da Fifa. Em 2024, a entidade atualizou seu regulamento de maternidade, determinando que os clubes devem oferecer suporte médico e elaborar um plano individualizado para o retorno das jogadoras após a licença-maternidade. Os novos protocolos procuram transformar essas diretrizes em orientações práticas para atletas de todos os níveis, do amador ao profissional.
Na fase de validação, as ferramentas foram avaliadas por especialistas, treinadores, profissionais de saúde e atletas de 12 países. O guia para gestantes recebeu aprovação de 94% dos participantes, enquanto o protocolo pós-parto alcançou 97% de aprovação. Em estudos de caso, mais de 90% dos avaliadores utilizaram corretamente os fluxos de decisão propostos pelos documentos, indicando que eles podem facilitar decisões mais seguras sobre a continuidade ou retomada da prática esportiva.
Medidas práticas
Para desenvolver as novas ferramentas, a equipe liderada pela pesquisadora Margie Davenport, pesquisadora de gravidez da Faculdade de Cinesiologia, Esporte e Recreação da Universidade de Alberta (Canadá), reuniu e analisou estudos já publicados sobre a prática de esportes de alto rendimento durante a gravidez e o período pós-parto. Com base nessas evidências, os pesquisadores definiram os principais critérios para a triagem de saúde das atletas e submeteram os protocolos à avaliação de médicos, treinadores e jogadoras, para verificar se eram práticos, precisos e fáceis de aplicar.
Os guias foram elaborados para atender atletas profissionais, amadoras e recreativas. Eles utilizam fluxogramas que ajudam a identificar condições de saúde que exigem avaliação médica antes da continuidade ou retomada da prática esportiva. Além disso, incluem uma triagem para fatores como saúde mental, medo de se movimentar e alterações no assoalho pélvico, que podem influenciar o desempenho e a segurança da atleta.
"Antes do desenvolvimento dessas ferramentas de apoio à decisão, havia confusão sobre como treinar durante a gravidez ou no pós-parto, então agora isso as capacita a tomar decisões informadas para que possam continuar jogando enquanto forem capazes, se assim desejarem”, explica Davenport.
