No Agreste alagoano, jovem produtor rural aposta na hidroponia e fortalece a agricultura familiar
O acesso ao conhecimento técnico e ao microcrédito rural permitiu ao técnico agrícola de Estrela de Alagoas abrir novas perspectivas para a agricultura na região

No município de Estrela de Alagoas, no Agreste alagoano, fileiras de coentro cultivadas sobre água e solução nutritiva chamam a atenção em meio ao clima quente e seco característico do Agreste. Aos 23 anos, quando muitos jovens do interior enxergam a saída para os centros urbanos como único caminho possível, Anderson Barbosa decidiu fazer o movimento inverso: permanecer no campo e investir em tecnologia para transformar a propriedade da família.
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Da pinha às hortaliças
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De acordo com o último Censo Agropecuário divulgado pelo IBGE, o estado de Alagoas abriga cerca de 97.852 estabelecimentos de agricultura familiar. Em Estrela de Alagoas, o setor é um dos pilares da economia local: baseia-se fortemente na atividade familiar e responde por expressivos 22,7% do Produto Interno Bruto (PIB) do município, tradicional produtor de milho, feijão e hortifrúti.
Antes de mudar o rumo da propriedade, a família de Anderson viveu na pele as instabilidades do campo. No passado, a região se destacava pela produção de pinha. Contudo, a falta de conhecimento técnico e o ataque severo do fungo antracnose acabaram com diversas plantações. "A gente tirava duas colheitas por ano e perdeu as duas. Só sobrou o extrativismo do caju, mas que não sustenta a casa o ano inteiro", relembra Anderson.


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A alternativa foi migrar para o cultivo convencional de hortaliças como alface, couve e coentro, mas um obstáculo ainda maior travava o crescimento: a água.

"Uma das maiores dificuldades que eu tinha era a questão de recursos hídricos. Nós éramos abastecidos por um poço comunitário, mas não podíamos usar muito, senão faltava para os vizinhos. Diante das poucas oportunidades na área rural, meu pensamento no ensino médio era um só: sair daqui", confessa o jovem.
A virada de chave começou no final de 2024, quando Anderson se formou no curso técnico de Agronegócio pelo Serviço Nacional de Aprendizado Rural de Alagoas (Senar). Foi nesse período que ele conheceu a hidroponia, o cultivo de plantas sem o uso do solo. Após uma visita técnica a produtores de Arapiraca, ele decidiu que era hora de testar a teoria na prática. Com recursos próprios e de forma tímida, montou a primeira bancada. Faltava, porém, o fôlego financeiro para transformar o experimento em um negócio viável.
O microcrédito como alavanca de inovação
Utilizando o Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF) dos pais, Anderson acessou a linha do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), por meio da unidade do Agroamigo em Palmeira dos Índios, em julho de 2025. O valor obtido, de R$ 8.000, pode parecer modesto para os padrões do grande agronegócio, mas permitiu que Anderson ampliasse o sistema e colocasse o projeto em prática.
O recurso foi direcionado para a compra de materiais e insumos específicos para o sistema conhecido como Nutrient Film Technique (NFT) , no qual uma fina lâmina de solução nutritiva circula continuamente por canais ou tubos de PVC inclinados, alimentando as plantas. Mais do que erguer as estruturas, o dinheiro financiou a pesquisa e o manejo de uma cultura desafiadora no modelo hidropônico: o coentro.

"A internet e os livros apresentam mais informações sobre a alface, mas o comércio local para a alface aqui é muito menor. O financiamento me deu a segurança para errar, testar defensivos e descobrir o manejo correto para o coentro. Hoje, com o recurso da própria produção, eu pago as parcelas do financiamento tranquilamente", destaca Anderson.
Além da segurança comercial, a eficiência do espaço salta aos olhos. Em uma área de apenas 5 metros por 6 metros, Anderson consegue produzir 200 maços (unidades) de coentro a cada 15 dias.
Aproveitamento total dos insumos
O espírito inovador de Anderson também gerou um impacto ecológico exemplar. Diferente dos sistemas tradicionais que acabam desperdiçando alguns insumos, a propriedade adota 100% de reaproveitamento da solução nutritiva.
Quando a água com adubo perde a concentração ideal para o coentro, ela não é descartada. "Se eu jogasse no solo de qualquer jeito, além de perder o dinheiro do adubo, eu poderia salinizar a terra. Então eu bombeio esse rejeito rico em nutrientes para irrigar as culturas convencionais de maracujá e melancia", ensina o produtor.
Toda essa engrenagem conta com o braço forte da família. Para não sobrecarregar os pais com manejos complexos nesta fase de consolidação, Anderson adaptou os processos. Hoje, o pai e a mãe participam ativamente do plantio das mudas, do monitoramento básico e da comercialização dos produtos.
O impacto do microcrédito rural
A história de Anderson também ajuda a compreender a dimensão do impacto do microcrédito rural na agricultura familiar. No balanço de dezembro de 2025, o Agroamigo registrou a marca histórica de mais de R$ 51,3 bilhões aplicados desde a sua criação, somando 8,9 milhões de operações, com uma carteira ativa de R$ 18,2 bilhões e 1,9 milhão de clientes.
Em Estrela de Alagoas, a coordenadora do programa, Lília Alves, explica que o projeto de Anderson se destacou desde o primeiro momento na mesa de análise de crédito, justamente pelo potencial de responder a gargalos históricos do Agreste.
"O projeto do Anderson nos chamou a atenção pela proposta inovadora da hidroponia, uma atividade ainda muito pouco explorada na região, mas com elevado potencial produtivo e sustentável. O caso dele demonstra que a juventude rural, quando recebe acesso a crédito e assistência, deixa de pensar em ir embora e se torna agente de transformação social e econômica na comunidade."
Hoje, em meados de 2026, Anderson colhe mais do que coentro e renda: colhe reconhecimento. O antigo estudante que pensava em sair do seu município em busca de novas oportunidades agora vê sua propriedade ser utilizada como campo de aulas práticas e visitas técnicas para turmas do Instituto Federal de Alagoas (Ifal) e do Senar.
"Eu me sinto muito grato. Não saí do meu lugar, onde fui criado, e hoje consigo dar a visão para outros jovens de que eles não precisam ir embora. Na nossa região também dá para ficar, ter a nossa renda e viver com tranquilidade", finaliza Anderson, mostrando como a inovação, o conhecimento e o acesso ao crédito podem transformar vidas e fortalecer o futuro da agricultura familiar.
