De menino rejeitado à inspiração de uma quadrilha: conheça a história do 'Ceguinho do Centro'
Edmilson Mendes transformou décadas de luta nas ruas de Maceió em símbolo de inclusão, cultura popular e superação

Jobison Barros
26/06/2026 às 6:52 • Atualizada em 26/06/2026 às 7:50 - há XX semanas
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Durante mais de quatro décadas, milhares de pessoas cruzaram com ele pelas calçadas do centro de Maceió. Sempre acompanhado do pandeiro e da música, Edmilson Mendes conquistou o carinho dos alagoanos e se tornou uma das figuras mais conhecidas da capital. Nesta sexta-feira (26), porém, sua história ganhou um novo capítulo: o artista popular, conhecido como "Ceguinho do Centro", foi homenageado pela quadrilha junina Sanfona do Rei, grande campeã do concurso Forró & Folia 2026, realizado em Girau do Ponciano.
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Com o espetáculo "Os Olhos", a quadrilha de Atalaia levou para a arena uma apresentação marcada pela sensibilidade. Inspirado na trajetória de Edmilson, o enredo abordou a deficiência visual, a inclusão e a capacidade de enxergar além das limitações físicas. A apresentação ainda fez referências a Santa Luzia, considerada pela tradição católica a protetora dos olhos, e ao pássaro assum-preto, símbolo de resistência na cultura nordestina.
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Natural de São Bento do Una, no Agreste de Pernambuco, Edmilson Mendes perdeu a visão ainda nos primeiros meses de vida. A infância foi cercada por dificuldades. Além da deficiência visual, enfrentou a rejeição do pai biológico e episódios de violência praticados pelo padrasto.
Foi na música que encontrou um caminho para seguir em frente. Ainda criança, aprendeu ouvindo as antigas rádios-postes das cidades do interior e logo começou a tocar em feiras livres para ajudar no sustento da mãe e dos seis irmãos.


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Aos 12 anos, decidiu mudar a própria história. Chegou sozinho a Maceió trazendo apenas um velho pandeiro. Na capital alagoana, viveu em um abrigo para menores e estudou na Escola de Cegos Cyro Accioly, onde fortaleceu sua independência.
Seu primeiro palco foi a Praça Bonfim. Depois, passou pela antiga Rodoviária de Maceió, no bairro do Poço, até fixar seu ponto na Rua do Livramento, no centro da cidade, onde se transformou em uma das figuras mais conhecidas do comércio popular.

Nem sempre foi fácil. Nos primeiros anos como artista de rua, enfrentou preconceito e chegou a ser hostilizado por comerciantes. Com persistência, conquistou respeito e fez da música sua profissão, tornando-se um símbolo da cultura popular alagoana.
Morador da Comunidade Frei Damião, no Benedito Bentes, casado e pai de três filhos, Edmilson se considera alagoano de coração. Em 2021, realizou outro grande sonho ao lançar o primeiro CD da carreira, "Janela para o Mundo", projeto viabilizado por meio do Prêmio Zailton Sarmento, da Lei Aldir Blanc, e por uma campanha de arrecadação realizada na internet.
Agora, sua história ultrapassa as ruas onde construiu a própria trajetória e ganha espaço também na cultura junina. Ao conquistar o título do Forró & Folia 2026, a Sanfona do Rei não levou apenas um troféu para Atalaia, levou para o centro da arena a história de um homem que transformou dificuldades em música, preconceito em respeito e que, emocionado, resumiu o significado daquela homenagem em poucas palavras: "Cego também tem vez."