
Recebi do amigo Marcelo Sampaio uma provocação interessante: “Marlon, o Brasil parou de produzir grandes laterais e camisas 10? A safra é ruim ou existe alguma explicação?”
Não tenho a pretensão de apresentar uma verdade definitiva. Futebol não aceita respostas tão simples, embora muita gente continue tentando resolvê-lo em frases prontas. Minha leitura é outra: talvez estejamos procurando jogadores do presente com a fotografia tática do passado.
O primeiro impacto de Carlo Ancelotti na Seleção passa justamente pela compreensão das prioridades. Na cultura europeia, de maneira geral, o lateral precisa primeiro assegurar a proteção defensiva, depois participar da construção e, somente quando o contexto permitir, avançar. Isso não significa proibir o ataque. Significa não transformar qualquer subida em obrigação.
O Brasil construiu uma escola extraordinária de laterais que percorriam o corredor inteiro. Carlos Alberto Torres, Júnior, Branco, Jorginho, Cafu, Roberto Carlos e Marcelo ajudaram a criar no imaginário do torcedor a ideia de que o lateral brasileiro precisa atacar como ponta.
O problema é que o jogo mudou.
Hoje, o lateral não precisa necessariamente chegar à linha de fundo para ser ofensivo. Ele pode entrar por dentro, aproximar-se dos volantes, formar uma saída de três, oferecer apoio atrás da linha da bola ou liberar o extremo para permanecer aberto. Em determinados momentos, parece meia. Em outros, terceiro zagueiro. E continua tendo que defender o espaço deixado nas costas.
Portanto, talvez a dificuldade brasileira não esteja apenas na ausência de grandes nomes. Está também na comparação injusta entre funções diferentes. Procuramos o novo Cafu ou o novo Roberto Carlos, quando o futebol pode estar pedindo outro perfil: menos corredor automático, mais jogador capaz de interpretar o jogo.
Com o camisa 10 acontece algo parecido.

Durante décadas, o 10 foi o proprietário de uma região do campo. Recebia entre as costas dos volantes e a frente dos zagueiros, muitas vezes de costas para o gol, girava, cadenciava e encontrava o passe que poucos enxergavam. Pelé, Zico, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e Alex representaram, cada um à sua maneira, essa centralidade criativa.
Aquela região não desapareceu. O que desapareceu foi o dono exclusivo do espaço.
Hoje, a entrelinha virou uma zona de flutuação. O extremo sai do corredor e entra por dentro. O falso 9 abandona os zagueiros e recua. O meia parte do lado para receber de frente. O interior avança após a construção. Em vez de um jogador morar naquele setor, vários passam por ele.
O antigo 10, então, tomou dois caminhos.
Quando tinha passe, leitura e capacidade para controlar o ritmo, recuou alguns metros e virou médio construtor. Passou a receber de frente, com maior visão do campo e menos pressão nas costas. Quando tinha drible, aceleração e mobilidade, foi deslocado para um dos lados. Tornou-se o chamado meia-ponta, partindo do corredor ou do meio-espaço para atacar por dentro.
O 10 não morreu. Foi espalhado pelo campo.

Ganso talvez seja o último grande representante brasileiro do modelo clássico. Um jogador de cadência, leitura, passe vertical e domínio do tempo da jogada. Com Fernando Diniz, encontrou um ambiente que compreendia suas características e organizava a equipe para potencializá-las. Fora de contextos semelhantes, passou muitas vezes a ser julgado pelo que não fazia, e não pelo que poderia oferecer.
Em outra escala, lembro de Daniel Costa no CSA. Um camisa 10 clássico, com bola parada, lançamento, passe longo e capacidade de diminuir a velocidade do jogo quando todos pareciam querer acelerá-lo. Não tinha o dinamismo exigido pelos modelos atuais, mas possuía recursos técnicos que estão cada vez mais raros.

A questão é que o futebol contemporâneo cobra do jogador criativo participação na pressão, recomposição, mobilidade e ocupação de diferentes zonas. Pensar já não basta. É preciso pensar correndo, pressionar depois de perder a bola e reaparecer em outro setor segundos depois.
O mesmo processo atingiu outras posições. Volantes com boa marcação e qualidade na saída recuaram para a defesa. Mascherano é um exemplo emblemático. O antigo meio-campista tornou-se zagueiro porque sabia defender avançando, tinha velocidade para cobrir espaços e melhorava a construção desde trás.
Enquanto o volante desceu, o lateral entrou no meio e o camisa 10 saiu de sua posição fixa. O futebol não eliminou as funções. Misturou todas elas.
Por isso, não sei se a resposta está apenas em uma safra ruim. O Brasil continua produzindo talento. A dúvida é se a formação está ensinando os jovens a interpretar as novas exigências sem retirar deles a criatividade que sempre nos diferenciou.
Não basta formar um lateral que ataque. Ele precisa saber quando atacar, onde construir e como proteger.
Não basta formar um meia habilidoso. Ele precisa compreender onde receber, como escapar da pressão e qual espaço ocupar depois de passar a bola.
Talvez o Brasil não tenha parado de produzir laterais e camisas 10. E sim o lateral que procuramos tenha virado construtor, e o camisa 10 que esperamos esteja jogando alguns metros atrás ou começando a jogada pelo lado.
O talento não desapareceu. Mudou de endereço.