
A Câmara Municipal de Maceió realizou nessa terça-feira (09/06) uma audiência pública para discutir o crescimento urbano do litoral norte da capital. Convocado pelo vereador Allan Pierre (MDB), o debate reuniu representantes da Prefeitura, órgãos ambientais, entidades técnicas, empresários da construção civil, associações comunitárias e integrantes da sociedade civil organizada.
O encontro ocorreu poucas semanas após a chegada do novo Plano Diretor à Câmara de Vereadores. A revisão da principal legislação urbanística do município deveria ter sido concluída em 2015, mas só agora começa a ser analisada pelo Legislativo, acumulando 11 anos de atraso.
A escolha do litoral norte não foi por acaso.
É justamente nessa região que se concentra a principal frente de expansão imobiliária de Maceió. E é também ali que surgem os maiores questionamentos sobre mobilidade, infraestrutura urbana, preservação ambiental e ocupação do solo.
Mais prédios, mais pressão
Há outro fator que ajuda a explicar a intensidade da disputa em torno do litoral norte: o dinheiro.
Dados do mercado imobiliário apontam que Cruz das Almas concentrou 23% das vendas de imóveis de Maceió no primeiro trimestre deste ano. Considerando que o setor movimentou cerca de R$ 3,4 bilhões nos últimos 12 meses, a participação do bairro pode representar algo próximo de R$ 65 milhões a R$ 70 milhões por mês apenas em novos negócios imobiliários.
Não se trata apenas de uma discussão sobre prédios, gabaritos ou licenças ambientais. A região concentra uma das maiores correntes de investimentos privados da capital. Quanto maior o volume de recursos envolvidos, maior também a pressão pela ocupação de novas áreas e pela flexibilização das regras urbanísticas.
É justamente nesse ponto que o Plano Diretor ganha importância. O desafio é definir quais interesses prevalecerão quando crescimento econômico, preservação ambiental, mobilidade urbana e qualidade de vida passarem a disputar o mesmo espaço.
Liderança
Levantamento do Sinduscon mostra que Cruz das Almas liderou as vendas de imóveis em Maceió no primeiro trimestre deste ano, concentrando 23% das unidades comercializadas. Jatiúca e Antares aparecem logo atrás, com 17% cada. Ponta Verde responde por outros 16%.
Juntos, os quatro bairros concentraram 73% das vendas do mercado imobiliário da capital.
Na prática, Cruz das Almas se consolidou como a porta de entrada do novo vetor de expansão urbana da cidade. A partir dali, a pressão avança em direção a Jacarecica, Guaxuma, Garça Torta, Riacho Doce e Ipioca.
O crescimento, no entanto, tem levantado preocupações. Moradores, ambientalistas e entidades técnicas apontam riscos relacionados à ocupação de áreas de restinga, dunas e encostas, além da pressão crescente sobre o sistema viário, saneamento básico e drenagem urbana.
Também entram na discussão os processos de erosão costeira observados em alguns trechos do litoral, a redução de áreas verdes e a capacidade de suporte ambiental da região diante do avanço de grandes empreendimentos.
O debate sobre o futuro da orla norte ganhou força justamente porque os impactos já começam a aparecer antes mesmo da consolidação de boa parte dos projetos imobiliários previstos para a região.
O papel do Plano Diretor
Para Allan Pierre, a discussão não é contra o crescimento econômico nem contra os investimentos privados. A questão central, segundo ele, é definir quais serão as regras para o desenvolvimento da cidade nos próximos anos.
"O Plano Diretor precisa servir para organizar esse crescimento. A cidade mudou completamente nos últimos anos. Tivemos a tragédia da mineração, bairros inteiros desapareceram, novos vetores de expansão surgiram e a pressão sobre o litoral norte aumentou. Precisamos ouvir a população, os técnicos, o setor produtivo e as comunidades. Não podemos permitir que apenas os interesses econômicos definam o futuro da cidade", afirmou.
Presidente da Comissão de Assuntos Urbanos da Câmara, Allan tem sido um dos principais defensores da atualização do Plano Diretor. Primeiro cobrou o envio da proposta ao Legislativo. Agora, defende que a discussão ocorra de forma aberta, envolvendo moradores, especialistas, empresários e órgãos públicos.
A audiência desta semana foi apenas o primeiro passo.
Nos próximos meses, a Câmara deverá realizar novas discussões sobre o Plano Diretor, documento que definirá as regras de crescimento da capital pelos próximos dez anos.
E poucas regiões estarão tão no centro desse debate quanto o litoral norte, onde a valorização imobiliária avança na mesma velocidade das preocupações urbanísticas e ambientais.

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Audiência pública discute crescimento urbano do Litoral Norte de Maceió