
Na tradição política alagoana, poucos instrumentos possuem tanto valor quanto a chamada "caneta" das nomeações e exonerações. É por meio dela que prefeitos, governadores e parlamentares constroem alianças, recompõem bases e consolidam espaços de poder.
Em Maceió, Rodrigo Cunha decidiu abrir mão da caneta — pelo menos por enquanto.
Passados dois meses da posse, as nomeações e exonerações da Prefeitura continuam sendo assinadas pelo chefe de gabinete, major Luiz Diego Ramos Rodrigues, com base em delegação formalizada por decreto assinado por JHC em 29 de dezembro de 2025.
O decreto transferiu ao chefe de gabinete a competência para assinar alguns atos exclusivos do prefeito. Na prática, é ele quem assina praticamente todas nomeações e exonerações publicadas no Diário Oficial.
A delegação foi criada ainda na gestão de JHC. Curiosamente, Diego só passou a assinar esses atos nos últimos dias da administração anterior, a menos de uma semana da posse de Rodrigo. Mesmo após assumir a prefeitura, o atual prefeito optou por manter o modelo.
Do ponto de vista jurídico, não existe qualquer irregularidade. Prefeitos podem delegar competências a auxiliares. Politicamente, porém, a situação chama atenção.
Em Alagoas, a caneta das nomeações é um dos principais instrumentos de poder político.
Nos bastidores, a avaliação é que Rodrigo segue priorizando os compromissos assumidos com JHC. A percepção é reforçada pela manutenção da maior parte da estrutura herdada da gestão anterior e pela permanência de indicados políticos ligados ao ex-prefeito.
O próprio Rodrigo nunca escondeu sua disposição de honrar esses compromissos. Desde a posse, preservou boa parte da equipe e manteve espaços para aliados de JHC na administração municipal.
O resultado é uma situação incomum. Enquanto a maioria dos prefeitos inicia o mandato promovendo mudanças e exercendo diretamente o poder das nomeações, Rodrigo escolheu a continuidade.
A estratégia tem vantagens. Preserva a estabilidade administrativa e evita rupturas internas. Mas também produz um efeito simbólico.
Mesmo ocupando o cargo mais importante da cidade, Rodrigo abre mão, ao menos por enquanto, do instrumento político mais poderoso que um prefeito possui.
A questão que começa a surgir nos bastidores não é se ele tem a caneta. Como prefeito, pode retomá-la quando quiser.
A dúvida é outra: até quando continuará disposto a não usá-la?