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Muitas mulheres só percebem anos depois que viveram violência obstétrica

Psicóloga e psicanalista Mariza Souza explica como o trauma pode permanecer ativo emocionalmente mesmo muito tempo após o nascimento do filho


				Muitas mulheres só percebem anos depois que viveram violência obstétrica
Muitas mulheres só percebem anos depois que viveram violência obstétrica. Foto: Pexels

O nascimento de um filho costuma ser lembrado como um dos momentos mais marcantes da vida de uma mulher. Mas, para muitas mães, o parto também se torna uma experiência atravessada por medo, humilhação, solidão e sofrimento emocional profundo, sentimentos que nem sempre conseguem ser compreendidos ou nomeados naquele momento.

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Em muitos casos, a percepção de que houve violência obstétrica surge apenas anos depois.

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Quando a dor é tratada como “normal”

A violência obstétrica ainda é uma realidade silenciosa e frequentemente naturalizada. Gritos, ironias, pressão psicológica, procedimentos realizados sem consentimento, ausência de acolhimento e perda de autonomia sobre o próprio corpo acabam sendo incorporados por muitas mulheres como se fossem parte inevitável do parto.

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Na prática clínica, é comum encontrar pacientes que carregam durante anos sentimentos persistentes de culpa, tristeza, raiva, medo ou inadequação sem conseguir relacionar essas emoções à forma como foram tratadas durante o nascimento do filho.

Muitas só conseguem reconhecer o trauma quando encontram um espaço seguro para falar sobre a própria experiência.

O mais delicado é que o trauma nem sempre aparece de forma evidente. Às vezes, ele se manifesta através de crises de ansiedade, medo de engravidar novamente, dificuldade de vínculo materno, depressão pós-parto ou uma sensação constante de fracasso e impotência emocional.

Uma paciente acompanhada em psicoterapia relatava sofrimento intenso sempre que lembrava do nascimento do primeiro filho. Durante muito tempo, acreditou que tudo o que havia vivido era “normal”. Apenas anos depois conseguiu perceber que tinha sido submetida a humilhações, ordens agressivas e procedimentos conduzidos sem cuidado emocional.

Entre as experiências relatadas estavam frases de repreensão durante o trabalho de parto, gritos para que “colaborasse” e a realização da manobra de Kristeller, técnica de pressão abdominal utilizada para acelerar a saída do bebê e cercada de críticas por entidades médicas internacionais.

Após o parto, a paciente desenvolveu dores intensas, dificuldade de locomoção e um quadro de depressão pós-parto que permaneceu sem acolhimento ou tratamento.

Mesmo assim, durante muitos anos, ela não utilizava a palavra “violência” para definir o que havia vivido. Existia apenas a sensação persistente de que algo naquele momento da vida permanecia emocionalmente aberto.

O corpo registra o que não conseguiu ser elaborado

Muitas mulheres cresceram ouvindo que sofrer faz parte da maternidade. Por isso, frequentemente minimizam experiências profundamente traumáticas. Frases como “o importante é que o bebê nasceu saudável” acabam invalidando a dor emocional e física vivida pela mãe.

A violência obstétrica não acontece apenas através da agressão física. Ela também pode surgir na negligência, na desumanização do cuidado, na ausência de escuta e na perda da autonomia da mulher em um momento de extrema vulnerabilidade.

Do ponto de vista psíquico, o trauma acontece justamente quando a experiência ultrapassa a capacidade emocional de compreensão e elaboração naquele instante. O corpo registra. A memória emocional permanece ativa. E aquilo que não pôde ser simbolizado retorna mais tarde através de sintomas emocionais, relacionais e até físicos.

Por isso, o acolhimento psicológico tem um papel tão importante nesse processo.

Quando a mulher encontra um espaço onde sua dor é legitimada e escutada sem julgamento, ela consegue reorganizar emocionalmente aquilo que viveu. Dar nome ao trauma não aumenta o sofrimento. Muitas vezes, é justamente o que permite que ele deixe de agir de forma silenciosa dentro da vida psíquica.

Compreender que medo, tristeza, raiva ou frustração em relação ao parto não tornam ninguém uma mãe pior também faz parte desse processo de elaboração.

Falar sobre violência obstétrica não significa criar medo da maternidade nem estabelecer oposição entre pacientes e profissionais de saúde. Significa ampliar a consciência sobre a importância do respeito, da escuta e da humanização no cuidado com a mulher.

Toda mulher merece ser tratada com dignidade durante o parto. E toda dor emocional ligada a essa experiência merece acolhimento, reconhecimento e cuidado.

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