
Há noites em que o placar diz muita coisa. Há outras em que ele não dá conta de contar a melhor parte da história.
CRB x Vitória, no Rei Pelé, foi assim.
Quem foi ao estádio viu seis gols, intensidade, alternância no controle do jogo, transições de manual e uma busca quase teimosa pelo ataque. Quem assistiu pela televisão também percebeu. Não por acaso, a transmissão fez questão de elogiar a qualidade da partida. Em tempos de tanto jogo amarrado, de tanto medo de perder, de tanto futebol sem coragem, o que se viu em Maceió foi um respiro. Um jogo vivo. Um jogo com alma.

Assisti de casa, ainda me recuperando de um trauma na costela. E talvez por isso o olhar tenha ficado ainda mais atento aos detalhes. Em vários momentos, a bola seguia rolando, mas a história parecia morar também na beira do campo. De um lado, Jair Ventura. Do outro, Eduardo Barroca. Dois treinadores cariocas, dois homens do futebol, dois profissionais que não chegaram onde chegaram por acaso.
E isso me toca.
Porque ali não estavam apenas dois técnicos comandando equipes. Ali estavam duas trajetórias construídas com estudo, chão, espera, aprendizado e persistência. Gente que conhece o ofício. Gente que passou pela faculdade de Educação Física, pelas divisões de base, pela função de auxiliar, pelas etapas que muita gente esquece quando enxerga só a vitrine. Antes do aplauso, veio o trabalho. Antes do reconhecimento, veio a estrada.
Talvez por isso o jogo tenha tido tanta verdade.
O Vitória de Jair Ventura mostrou agressividade, pressão, verticalidade e letalidade. O CRB de Eduardo Barroca respondeu com personalidade, coragem e volume, sem se esconder do tamanho do desafio. Houve falhas, claro. O futebol também é feito delas. Mas houve algo maior, os dois lados quiseram ganhar jogando futebol, não apenas sobrevivendo a ele.

Só que a cena que mais ficou, para mim, veio depois.
Prestei atenção na quantidade de atletas que foram cumprimentar Jair Ventura e Eduardo Barroca ao fim da partida. Esse gesto, aparentemente simples, diz muito. Jogador não presta continência para discurso vazio. Jogador percebe caráter. Jogador percebe quem ensina, quem respeita, quem lidera sem precisar gritar o tempo inteiro que lidera. Respeito, no futebol, não se impõe no crachá. Se conquista no trato, no trabalho e na coerência.
Por isso, o jogo no Rei Pelé contou mais de uma história. Contou a história de uma grande partida. Contou a história de dois times que buscaram o gol o tempo todo. E contou também algo que vale ser registrado com mais cuidado, a história de dois treinadores cariocas que seguem honrando o futebol com competência e humanidade.
Minha alegria, sinceramente, foi dupla. Pela qualidade do espetáculo e por Deus ter me dado a oportunidade de chamar de amigos dois profissionais que carregam no campo aquilo que construíram na vida.
No fim, a bola decidiu o resultado. Mas foi a beira do campo que deu sentido maior à noite.