
O lançamento do livro Modelo de Trabalho, de Eduardo Barroca e Roberto Maleson, reuniu treinadores, ex-jogadores, dirigentes e jornalistas para discutir algo raro no país da bola: o pensamento que estrutura o jogo.
O livro é um convite à lucidez, um mapa sobre como se constrói um time com coerência, planejamento e propósito.

Barroca apresentou o futebol em sua forma mais humana: o jogo como consequência de decisões.
De escolhas que carregam dúvida, coragem e sensibilidade. Falou da mãe, dona Conceição, da esposa, dos filhos e dos professores que o ensinaram a ver o campo com os olhos de quem educa. Agradeceu ao auxiliar Felipe Lucena, que ficou em Maceió mantendo os treinos, e emocionou-se ao lado de Paulo Angioni, a quem chama de pai da bola.

Angioni retribuiu com a frase mais emocionada da noite: “Esse menino Eduardo é um filho.”

Havia ali nomes que ajudaram a construir o futebol brasileiro nas últimas décadas, como Joel Santana, René Simões, Zé Ricardo, Cléber Xavier, Gilson Kleina e Antônio Melo, além de ex-atletas como Joel Carli, Fernando e Valdir Bigode.
Gerações diferentes, visões distintas, unidas por um mesmo ideal: o de um futebol mais consciente, mais preparado e mais digno do país que se orgulha de ser o berço da bola.

Durante a conversa com a imprensa, conduzida por Ricardo Gonzalez, do SporTV, Barroca foi questionado sobre sua relação com a crônica esportiva.
Citou meu nome com generosidade ao falar da importância de se discutir o jogo com respeito e independência.
A lembrança me honrou. E serviu, mais uma vez, como lembrete de que o jornalismo que pensa o futebol é tão essencial quanto o treinador que o estuda.

Entre os presentes, representantes de grandes clubes e técnicos consagrados.
Fui o único alagoano na plateia, diante do escudo do CRB estampado no banner de apoio à obra. Mas, curiosamente, o clube não mandou ninguém.
Pequeno detalhe, grande sinal.
Enquanto o técnico representava Alagoas em um dos eventos mais importantes do pensamento esportivo recente, o clube que ele comanda preferiu o conforto da ausência.
É o retrato fiel de um modelo mental que ainda governa boa parte do futebol brasileiro: o de que pensar é perda de tempo.
A velha crença de que basta correr, treinar e rezar por um gol salvador no fim.

Só que o futebol moderno não tem espaço para esse tipo de ingenuidade.
O jogo é complexo, exige leitura, método e interpretação.

Quem não entende isso continua jogando uma partida que o mundo já terminou há tempos.
Modelo de Trabalho é um lembrete de que o jogo também se vence com ideias.
E de que o respeito ao futebol começa, invariavelmente, pela disposição de compreendê-lo.
