De engenheira a economista: conheça o time semiprofissional da Bolívia
Vôlei não é esporte profissional na Bolívia. Com idades a partir de 15 anos, jogadoras do San Martín pagaram as próprias passagens para vir ao Brasil; lanterna do torneio, time voltou realizado
Engenheiras, nutricionistas, economistas, estudantes e... jogadoras de vôlei. Este é o curioso currículo das atletas do San Martín, time boliviano que foi o lanterna do Sul-Americano de Clubes feminino, disputado em Bauru, no interior de São Paulo.
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Essa é uma consequência da não existência de uma liga profissional de vôlei na Bolívia, país que trata o esporte na base do amadorismo. A equipe foi a campeã da liga semiprofissional e conseguiu a vaga para o campeonato sul-americano.
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Das 12 atletas do elenco do San Martín, apenas três têm mais de 21 anos. Duas delas têm 15 anos de idade e a maioria tem menos de 1,75 metro de altura.
Para percorrer os 2,2 mil quilômetros da cidade de Cocachabamba até Bauru, as jogadoras precisaram pagar a passagem de avião do próprio bolso. Cada uma desembolsou 460 dólares, o equivalente a R$ 2,3 mil. A Confederação Sul-Americana de Vôlei (CSV) custeou apenas a hospedagem dos times participantes.


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As bolivianas não pagaram apenas a passagem, mas principalmente o sonho de ver do outro lado da quadra algumas das melhores jogadoras da história do voleibol mundial, como as medalhistas olímpicas Thaisa, Carol Gattaz e Dani Lins.
– É claro que temos que tomar um cuidado maior, mas elas jogaram super direitinho. São meninas muito fofas. Elas estão no mesmo hotel. São nossas fãs e é legal essa troca – disse à TV TEM a central Carol Gattaz, que jogou os três sets contra as bolivianas, na última sexta-feira.
A ponteira Dayana, do San Martín, descreveu a sensação de jogar um campeonato internacional de vôlei fora do país.
– Para a maioria de nós é quase a primeira vez. Estamos muito felizes e é uma experiência linda – falou Dayana.
– A verdade é que valia como uma final para a gente. Tanto para nós, quanto para elas. Foi um sonho. Fizemos uma ótima partida (contra o Atlético Barbato). Tentamos de tudo para ganhar, mas conseguir vencer dois sets já foi ótimo para nós – destacou Jéssica Pereiro, levantadora do San Martín, também em entrevista à TV TEM.
Na primeira fase, o San Martín perdeu para Sesi-Bauru e Minas, ambas por 3 sets a 0. No último período, chegou a anotar 20 pontos no Minas, atual campeão Sul-Americano, mesmo que tenha sido contra as reservas.
Na disputa pelo quinto lugar, as bolivianas perderam no tie-break para o Atlético Barbato, do Uruguai, e ficaram na sexta e última posição da competição.
Os dois times finalistas do Sul-Americano garantem vaga no Mundial de Clubes, que será no fim do ano na China.
O preço do sonho
O ge entrevistou Maria Cecília Ximenes, auxiliar técnica e coordenadora das categorias de base do San Martín. Foi ela que comandou o time nos dois últimos jogos no campeonato.
Nas edições do Sul-Americanos de 2021 e 2022, Maria estava dentro da quadra, atuando como central e oposta pela equipe boliviana.
– É lindo aprender. Eu anteriormente vim como jogadora e é uma experiência linda. É o que sempre se sonhou, de nutrir dessas experiências – disse a treinadora.
Maria Cecília lamentou a falta de apoio para a prática do vôlei na Bolívia e detalhou algumas das dificuldades enfrentadas na vinda ao Brasil.
– A realidade é complicada, porque foi com nossos próprios recursos. Cada menina pagou sua passagem para vir para cá. Lamentavelmente não tem vôlei profissional na Bolívia. É uma liga superior, que não é profissional, onde participam os clubes campeões dos departamentos. Saímos campeões e nos classificamos para o Sul-Americano – relembrou.
A auxiliar técnica do San Martín também destacou as multifunções que cada jogadora precisa exercer para dar seguimento ao sonho de um futuro menos cinza.
– Como o vôlei não é profissional, muitas delas trabalham, estudam e não conseguiram a permissão para vir. Nutricionista, engenheiras, economista. A maioria é de meninas da escola, muitas jovens. Duas jogadoras, por exemplo, tem apenas 15 anos de idade – revelou.
Mesmo diante de um universo amador, Maria Cecília tenta fazer um trabalho profissional para driblar os obstáculos de anos de falta de incentivo ao vôlei na Bolívia.
– Estamos com um projeto de começar a ter esse tema, das quadras, da infraestrutura. Pouco a pouco, porque eu coordeno desde as pequenas, a formação. Necessita-se de trabalho contínuo para ter resultados – finalizou a auxiliar técnica e coordenadora das categorias de base do San Martín.
