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Cidades com maior taxa de armas por habitante favoreceram Bolsonaro

Maioria das cidades com taxa mais alta de armas recadastradas por habitante teve Bolsonaro como vencedor no segundo turno das eleições

A maioria das cidades com a taxa mais alta de armas por habitante nos últimos quatro anos teve o então candidato à reeleição Jair Bolsonaro (PL) como o mais votado no segundo turno das eleições presidenciais de 2022.

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É o que mostra análise do Metrópoles feita sobre dados de recadastramento de armas de fogo, realizado nos primeiros meses do governo Lula. A medida atingiu as armas adquiridas a partir de 7 de maio de 2019, data do decreto de Bolsonaro que ampliou o acesso dos civis aos armamentos.

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Dos 100 municípios com maior taxa de armas recadastradas por habitante, em 91 deles Bolsonaro obteve mais votos e em nove Lula ganhou, quando levados em conta apenas os votos válidos. Isso considerando os municípios com mais de 50 mil moradores.

O município que mais se armou nos últimos quatro anos é Jataí, na região sudoeste de Goiás, onde Bolsonaro venceu. A cidade ficou conhecida na imprensa após o caso de uma diretora escolar ter sido afastada por publicar foto armada com fuzil e por ter um clube de tiros para crianças.

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Perfil predominante

Os dados aos quais o Metrópoles teve acesso via Lei de Acesso à Informação (LAI) revelam que há um perfil majoritário entre os compradores de armas de fogo: homens, casados, escolarizados e moradores das regiões Sul e Centro-Oeste.

Um total de 486,4 mil pessoas proprietárias de 947,9 mil armas de fogo preencheram os formulários de recadastramento de armas. Quando o assunto é a profissão das pessoas que se armaram nos últimos quatro anos, ganha destaca o número de comerciantes, produtores rurais, engenheiros e diretores de empresas.

Influência política

O discurso pró-armas de Bolsonaro foi uma de suas principais promessas ainda na campanha de 2018. Na Presidência da República, Bolsonaro elaborou decretos que facilitaram a compra de armamento pela população. Ele defendia o uso da arma não só como uma forma de “enfrentar” a criminalidade, mas também como uma maneira de combater uma eventual ditadura.

“Olha como é fácil impor uma ditadura no Brasil. Por isso eu quero que o povo se arme, a garantia de que não vai aparecer um filho da puta e impor uma ditadura aqui. A bosta de um decreto, algema e bota todo mundo dentro de casa. Se ele tivesse armado ia para rua. Se eu fosse ditador, eu desarmava como fizeram todos no passado”, defendeu o presidente em reunião ministerial de 22 de abril de 2020, início da pandemia da Covid-19.

Também são de Bolsonaro declarações como: “Povo armado jamais será escravizado”.

Especialista em Segurança Pública e pesquisador do Grupo Candango de Criminologia da UnB, o professor Welliton Caixeta Maciel lembra que no governo Bolsonaro houve um aumento do incentivo da compra de armas e munições, mas que esse aumento na busca por armas já era registrado antes.

“Bolsonaro influenciou na venda de armas não só pela questão simbólica, enquanto líder político, mas ele liberou geral por meio de normativas. A gente percebe também que houve um apoio muito grande às empresas, como ao mercado armamentista. O comércio bélico cresceu”, explica Caixeta.

Além disso, chamou a atenção do professor que entre as cidades que mais se armaram nos últimos quatro anos há muitas que têm o agronegócio forte. “Essas cidades são a maioria do interior e têm uma forte influência do agro. Essas pessoas não estavam arrumando armas apenas para se defender, mas também por questões patrimoniais. O perfil de quem tem posse de armas são pessoas com poder aquisitivo e que tem patrimônio”, avalia o pesquisador.

O professor da UnB lembra que embora os defensores de facilitar o acesso às armas tenham o discurso de combater a criminalidade, há estudos nacionais e internacionais que comprovam que mais armas de fogo aumentam a vulnerabilidade e não aumentam a segurança.

Para ele, essa defesa da arma para se defender é um atestado de incompetência da segurança pública e do estado.

Militância organizada

O gerente de projetos do Instituto Sou da Paz, Bruno Langeani, avalia que o ex-presidente, depois de quatro anos no poder, deixou uma militância organizada em prol do armamentismo no Brasil. “Por um lado, ele trabalhou para criar uma demanda e, por outro, flexibilizou as regras de acesso aos armamentos”, disse.

Bruno descreve que, nas eleições de 2022, esse empenho se converteu em capital político, uma vez que cidades com mais armas tenderam a um maior apoio a Bolsonaro ao invés de Lula. “Em linhas gerais, eu vejo essa estratégia, apesar de deixar legados muito ruins para o Brasil, deu certo para o ex-presidente”, completa.

Ele, porém, considera que a militância armamentista deixada por Bolsonaro agora busca se desvincular do antigo líder, diante da imagem relacionada a eventos violentos como o 8 de janeiro. “Talvez mude de cara ou mude o líder, mas a indústria que foi criada ao redor disso e a quantidade de pessoas que aderiram a essa pauta não desaparecem da noite para o dia”, observa.

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