Coach que alugou mansão recebeu R$ 5,9 mil de Auxílio Emergencial
Polícia Civil de SP investiga outros dois coaches estrangeiros após mulheres afirmarem terem sido usadas como 'cobaias' de curso sobre conquista em festa em mansão na Zona Sul de SP
O coach de relacionamento Fabrício Castro, que é brasileiro e assinou o contrato de locação da mansão onde foi realizada uma festa para o grupo estrangeiro investigado após um curso sobre como conquistar mulheres, em São Paulo, recebeu R$ 5.950 em Auxílio Emergencial.
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A festa numa mansão no Morumbi, Zona Sul de São Paulo, é investigada pela Polícia Civil na capital paulista (entenda mais abaixo). Os advogados de Fabrício dizem que ele intermediou a locação do local e aparece no documento porque o dono exigiu que uma das partes locatárias fosse brasileira.
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“Pelo fato de conhecer diversas pessoas na região de São Paulo, tão somente viabilizou a contratação de DJs e sistemas de som. À exceção das duas ocasiões acima retratadas, participou do evento apenas como convidado, não havendo qualquer exigência de título oneroso para que este permanecesse no local.”
Auxílio Emergencial


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Segundo o portal da transparência do governo federal, Fabrício recebeu entre 2020 e 2021 R$ 5.950 em Auxílio Emergencial. Os valores de parcelas variavam de R$ 250 a R$ 600 em 2021. O sistema aponta que uma parcela de R$ 250 de abril de 2021 foi devolvida à União.
O primeiro pagamento foi em abril de 2020 e o último, em outubro de 2021. Nas redes socais, em abril de 2020, ele divulgou seu curso de treinamento "Marcar Encontros Online (MEO)" como “resultado de anos de estudo, prática e ação”.
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“Posso dizer, sem titubear que essa é a minha obra-prima até agora, não existe maneira melhor e mais eficiente hoje de tornar sua jornada congruente com aquilo que você sempre sonhou”, escreveu em seu perfil no Instagram.
No mesmo texto, o coach falou sobre “confiança” e características sobre como “pegar garota, fechar contrato” e se tornar um “verdadeiro homem”.
O mesmo mês de abril teve também publicações sobre alimentação saudável. No mês seguinte, houve mais um pagamento de R$ 600 pelo governo federal. No primeiro dia de agosto, Fabrício comentou sobre a Covid.
“Que situação do Covid-19 é uma m*erda tá todo mundo careca de saber, é um fato. Shit happens ['merda acontece', em tradução livre]. Tempos difíceis fazem homens mais fortes, você pode ver a situação de agora como um obstáculo ou como um caminho para se tornar uma pessoa mais virtuosa”, escreveu na postagem de um vídeo.
Na mesma semana, ele comentou sobre morar em uma mansão em Jurerê, bairro nobre de Florianópolis, Santa Catarina.
“Há 3 anos atrás se você me falasse que eu ia estar morando em uma mansão em Jurerê, cercado de gente foda, e tendo a oportunidade de aprender e conhecer também mulheres incríveis, eu ia falar que você é louco de imaginar isso, mas eu desde o começo estive disposto a fazer o que fosse necessário para eu chegar nessa realidade que eu vivo hoje em dia.”
Em dezembro de 2020, a parcela do auxílio recebida foi de R$ 300. Algumas postagens falavam sobre a última turma de mentoria coletiva do ano.
“Homens irão gastar 99 reais num jogo de vídeo game, 500 reais num tênis, 1000 na balada. Mas reclamam sobre gastar seu dinheiro em um curso sobre masculinidade que dará a ele fundamentos para uma vida de sucesso”, disse em uma imagem num post.
Em outubro de 2021, ganhou R$ 2.043,56 em um processo de danos morais que movia contra uma companhia aérea quando teve o voo para um evento no Rio de Janeiro cancelado. A causa tinha o valor total de R$ 30 mil.
Segundo documentos apresentados pela defesa dele à Justiça, ele ensinava, em 2021, como “sair com 52 mulheres diferentes por ano com um simples plano de 3 passos”.
Ele se apresenta como um mentor que viajou, até 2021, por 34 países e tem o propósito de “ensinar homens a se tornarem mais masculinos para atraírem mais dinheiro e mais mulheres”. O texto dizia que eram mais de 400 alunos.
Amigos de coaches estrangeiros
A Polícia Civil de São Paulo investiga o recrutamento de brasileiras para uma festa na capital paulista que funcionou como "aula prática", segundo os relatos de quatro mulheres ao g1.
No site Millionaire Social Circle ("Círculo Social de Milionários"), todos os textos e as fotos relacionadas com as viagens por países como Costa Rica, Colômbia e Filipinas foram tiradas do ar entre sexta e sábado. Eles apresentavam como eram os cursos, assim como os valores.
A conta do TikTok do "MSC" foi deixada como privada. O canal do grupo no YouTube tinha apenas o vídeo de uma partida de vídeo game, e o perfil do curso no Instagram não estava disponível até a última atualização desta reportagem.
O evento ocorreu no final de fevereiro e foi promovido por Mike Pickupalpha e David Bond. Fabrício ajudou na organização, e a assinatura dele aparece no contato de locação da mansão em São Paulo, em fevereiro.
O inquérito instaurado pela Polícia Civil investiga se houve favorecimento de prostituição ou outra forma de exploração sexual e de agenciar, aliciar, transportar, transferir, comprar, alojar ou acolher exploração sexual pelo 34º DP, Vila Sônia, Zona Sul de São Paulo, responsável pela área.
Os advogados de Fabrício não encaminharam resposta sobre o Auxílio Emergencial, mas, em nota anterior, contaram que ele conhece Mike desde 2017, quando fez uma "visita ao Brasil a fins de turismo, conduzindo-o a uma visita pelo Conjunto de Favelas da Rocinha, no município do Rio de Janeiro/RJ".
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O que você precisa saber sobre o caso:
Dois coaches dos Estados Unidos venderam cursos de US$ 12 mil a US$ 50 mil.
"Alunos" estrangeiros aprendiam, com técnicas deles, a se relacionar com mulheres.
As mulheres ouvidas pelo g1 não sabiam que eram parte da aula prática do curso.
Grupos de alunos viajavam para países como Costa Rica, Colômbia, Filipinas e Brasil, em fevereiro. Os participantes da edição brasileira se encontraram com mulheres por meio de apps e outras foram chamadas por redes sociais.
Coaches fizeram uma festa na Zona Sul de São Paulo com comida, bebida à vontade e transporte; o caso repercutiu depois que algumas mulheres descobriram que homens faziam curso.
Ao menos duas delas denunciaram o caso para a polícia e alegam que foram filmadas sem autorização; material colhido por eles é usado em grupos e para publicidade.
A próxima etapa do curso deve ocorrer na Tailândia.
Terceiro coach é brasileiro e aparece como parte da locação da mansão em SP, onde foi feita a festa.
Menor de idade em festa
Ao menos uma menina de 17 anos esteve na festa realizada na Zona Sul de São Paulo. A informação foi confirmada pelo pai dela ao g1 e ao Fantástico. Segundo ele, a garota disse ter contado à mãe sobre Mike. Os dois foram a restaurantes, parques ou "só ficavam em casa", afirmou ela ao pai.
Ela teria dito ao coach que tinha 21 anos e revelado a verdadeira idade durante uma viagem a Florianópolis, em Santa Catarina. Os dois discutiram, e Mike pesquisou se havia cometido crime, mas depois "deu tudo certo", afirmou a garota ao pai.
Sobre a festa, a jovem contou que "não queria que fosse gravada e não queria tirar fotos". Os dois aparecem em um vídeo comendo comida japonesa postado no perfil excluído do curso e abraçados na praia.
Ao menos duas mulheres registraram na Polícia Civil de São Paulo que conheceram "alunos" dos coaches pela internet, foram a um jantar em grupo e dias depois estiveram numa festa na mansão. Nas duas situações, foram feitos vídeos usados em peças publicitárias em curso sobre como conquistar mulheres, segundo elas.
As duas jovens e outras duas ouvidas pelo g1 afirmam que não sabiam que o grupo estrangeiro participava de um curso (veja abaixo os relatos).
O Ministério Público acompanha as investigações da polícia. Segundo o promotor Rogério Sanches Cunha, o crime de exploração sexual foi alterado em 2009 e não pune apenas quem explora a prostituição.
A lei também prevê punição para quem coloca pessoas na condição de objeto sexual, mesmo que elas não tenham recebido dinheiro algum, nem tenham se relacionado sexualmente com os alunos.
A dupla Mike e David lucrava por meio da venda dos cursos.
