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Juros altos por mais tempo são risco para saúde financeira de empresas

Maior parte das empresas tem o endividamento atrelado à taxa Selic, que está em 13,75% ao ano e pode permanecer assim até 2024

Com juros em 13,75% ao ano, o Brasil tem o segundo maior custo do crédito do mundo, perdendo só para a Argentina. O aumento da Selic, que saiu de 2% ao ano em 2020 para o patamar atual, foi a forma de combater uma inflação que superou os 12% no auge, em abril passado.

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Com a queda dos índices de preços para patamares próximos de 6%, o caminho para a queda da taxa Selic estaria pavimentado. Mas a depender dos rumos da política fiscal do novo governo Lula, o aumento de gastos pode resgatar o fantasma da inflação e postergar o ciclo de queda da taxa Selic.

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A permanência dos juros na casa dos dois dígitos preocupa especialistas. Além do impacto direto para o crédito oferecido pelos bancos, uma vez que a inadimplência já começa a subir, há um efeito indireto sobre a saúde financeira das empresas.

A maior parte dos títulos de dívida corporativa emitidos no mercado financeiro têm o CDI, um índice que espelha o valor da taxa Selic, como referência.

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Ou seja: se a Selic demorar mais para cair, como está previsto, as empresas terão um custo mais elevado para financiar suas dívidas, e isso pode levar, primeiro, a um crescimento menor da atividade produtiva e, segundo, a uma renegociação de parte desses títulos. No pior cenário, poderíamos ter casos de insolvência e calote dos títulos emitidos.

“Os fundos de investimento de crédito privado captaram muito dinheiro do investidor quando os juros começaram a subir, porque ofereciam um retorno atrativo. Eu estaria atento a como eles vão lidar com os juros mais altos nos próximos meses”, explica João Bragança, analista do setor financeiro e sócio da consultoria Roland Berger.

Por que isso é uma preocupação?

A primeira preocupação parte de uma lógica econômica convencional: países com juros muito elevados tendem a crescer menos, pois as empresas e famílias precisam dedicar uma parte maior do orçamento para pagar dívidas.

O segundo ponto é a sustentabilidade do endividamento. Em geral, as empresas vão ao mercado financeiro para captar recursos por meio da emissão de títulos de dívidas. Os investidores pessoas físicas e fundos compram esses títulos, fornecem os recursos e, em troca, recebem uma correção anual dos valores geralmente atrelada à taxa Selic.

Há atualmente no Brasil um estoque de títulos de crédito cuja soma ultrapassa o R$ 1 trilhão, algo como 15% do valor do PIB do país.

Colocando de forma simples, as empresas emissoras do título precisam lucrar mais do que pagam de juros para manter as dívidas, mas com o custo do crédito tão elevado, poucas empresas se provam capazes de gerar resultados consistentes ano após ano, especialmente com os desafios do plano de fundo da economia (custos de insumos elevados, consumo em baixa e desemprego em alta).

As empresas que não conseguirem superar tais custos terão duas alternativas: ou emitem novas dívidas para rolar as antigas, ou tentam renegociar os títulos. Nessa renegociação, quem sai perdendo é quem comprou o título – em geral, o investidor.

Cenário inédito

É fato que juros elevados não são uma novidade para o Brasil. A Selic esteve acima dos 13% por quase 2 anos, entre 2015 e 2017, chegando a um pico de 14,25% em 2016.

“Não estamos em 2016, quando o governo que assumiu [o de Michel Temer] tinha um compromisso fiscal claro, e isso permitiu que o BC começasse a cortar a Selic. Agora, não tenho tanta certeza de que os juros vão cair logo”, diz João Abdouni, analista da Inv.

A curva futura do CDI, que reflete as expectativas do mercado sobre os juros futuros, mostra uma taxa perto de 13% até 2027, último ano do governo. É possível (e provável) que a Selic comece a cair antes disso, mas a depender do volume de gastos do governo e da direção da inflação, as empresas não terão vida fácil.

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