Dia do Poeta: Três artistas alagoanos falam da paixão pelos versos e dos desafios do ofício
Cícero Manoel, Fernando Fiúza e Audálio Honorato refletem sobre o cotidiano visto pela ótica da poesia
Amantes das palavras e do universo da literatura, os poetas são celebrados esta semana, no dia 20 de outubro. Carregando a paixão de infância para a vida adulta, viver da poesia é contar histórias através de olhos sensíveis e atentos, observando cada detalhe do mundo e destrinchando-o em versos e rimas.
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“A poesia está em tudo e em todos”, é o que afirma o poeta e um dos fundadores da Academia Alagoana de Literatura de Cordel, Cícero Manoel, que viu brotar o amor pela literatura ainda criança quando ouvia sua mãe ler para toda família os contos dos Irmãos Grimm.
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Para ele, o poeta é um ser sensível que enxerga a poesia onde outro ser não consegue enxergá-la, pois todo poeta nasce com uma visão aguçada e sensível para abraçar as coisas mais simples da vida.
Definindo a poesia como “uma ideia ritmada”, o poeta Fernando Fiúza, com muita disciplina, concilia os dias de professor na Universidade Federal de Alagoas com os momentos em que deixa a poesia fluir. Seja passeando de bicicleta, preso no trânsito ou até mesmo lendo um livro, os versos sempre estão presentes no seu dia-a-dia, sendo anotados ou gravados para que depois sejam filtrados e, enfim, publicados.


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Alagoas é berço de grandes escritores, como Jorge de Lima e Guimarães Passos, mas a poesia sempre está em movimento, se adaptando à era das redes sociais e conquistando as novas gerações e novos poetas. Nesse sentido, os artistas das letras têm levado os poemas dos livros para as mídias digitais, como é o caso de Fernando Fiúza, consagrado escritor alagoano, que também escreve e publica no Instagram.
Em formato de foto, os escritos de Fiúza assumem uma forma curta e ainda mais direta, abordando temas diversos, como um diário do que observa no seu entorno.
“Para você ser poeta é preciso que você leia poesia e essa nova geração pode ler isso na internet. O que vale é ter conhecimento. Eu publico em minhas páginas pequenos poemas feitos para aquele veículo, que são diferentes dos que vão para os livros, pois tem que ser um assunto que interesse as pessoas”, explicou.
O alagoano Hugo Novais ganhou destaque no Instagram ao divulgar seus escritos em formato de vídeos de um minuto. O poeta viralizou e hoje já alcança mais de 300 mil seguidores, que aguardam sempre ansiosos pelos vídeos.

A nova geração também tem aproveitado os editais lançados pelos órgãos públicos para conseguir publicar suas obras. De acordo com Fiúza, nos últimos anos, a juventude poeta de Alagoas tem crescido bastante graças às oportunidades que surgem através dos editais que possibilitam os lançamentos dos livros, dos prêmios e concursos que abraçam a classe.
Além disso, as entidades que reúnem escritores também têm sido responsáveis pelo aumento do número de jovens no universo da literatura e cada vez mais próximos da poesia. A Academia Alagoana de Literatura de Cordel é um exemplo disso. Segundo Cícero Manoel, a AALC nasceu com o intuito de unir, acolher e fortalecer os cordelistas alagoanos.
“A AALC, além de abraçar cordelistas veteranos, a exemplo de Jorge Calheiros, também abraça aqueles que estão engatinhando na arte do cordel, oferecendo apoio e incentivo, tanto nos escritos como na publicação de folhetos. Outro ponto que mostra a importância da entidade é promover eventos voltados para a valorização da poesia popular no estado, como feira e recital de cordel, além de incentivar e levar através de seus membros o cordel para a sala de aula”, contou.
O cordelista ainda aconselha que a atual e a futura geração de poetas não escrevam para ser um poeta famoso, mas sim para ser imortal, pois o poeta não morre nunca.
Já o renomado poeta Fernando Fiúza, aconselhou que a juventude poeta leia os clássicos da poesia, seja ela brasileira ou estrangeira. “O poeta, se quiser ser sério e respeitado, ele tem que ler os poetas que vieram anteriormente, porque a literatura nasce da vida, mas também nasce da própria literatura”.
VIDA EM VERSO

Na cidade de Viçosa, conhecida como Atenas Alagoana, em decorrência dos diversos intelectuais e escritores com relevância nacional ao longo do tempo, o poeta Audálio Honorato diz que a poesia nasce do olhar para as coisas simples com curiosidade e com carinho.
“A poesia desse poeta matuto não é a que fala só dos palácios ou das pessoas que muitos julgam importantes, mas das coisas e das pessoas simples, do nosso interior, da vida cotidiana, acho que é isso que faz a poesia ser bonita”, afirma.
No início da pandemia, o artista resolveu transformar essa visão em um tipo de negócio e, desde então, conta histórias reais com seus cordéis personalizados, transformando os causos da vida das pessoas que o procuram em poesia.
"Se chama ‘Vida em Verso’ o nosso projeto, que é quando eu conto a história de pessoas em cordel. As pessoas procuram homenagear o pai, a mãe, o marido, o irmão com uma coisa diferente. E encontram na poesia essa forma inusitada e muito bonita de imortalizar alguém”, conta.
“Eu gosto demais de fazer essas poesias sobre gente, sobre pessoas. Além das nossas histórias, dos causos, às vezes engraçados, outras vezes dramáticos, mas histórias que merecem ser contadas”, continua Audálio.
“Nesse Dia do Poeta, acho que é importante que o poeta fale com o povo, que escreva para o povo e sobre o povo. Temos muita coisa para contar, coisas que só a poesia pode capturar”, conclui.
