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"Tenho estado completamente estafada mental e emocionalmente", diz Samara Felippo

Atriz fez um relato da maternidade durante a pandemia

Na quarentena me tornei uma mãe completamente permissiva, mais irritada e menos legal, segundo minhas filhas. Sim, perguntei isso. Afinal, ninguém melhor que elas para me darem uma opinião real sobre o assunto. Dói um pouquinho, mas concordo com elas. Acontece que estamos todas esgotadas.

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Tenho estado completamente estafada mental e emocionalmente e, com isso, fico muito mais vulnerável à irritação, à falta de paciência e ao estresse. Talvez porque nunca imaginei conviver todos os dias 24 horas com elas — e nem vice versa. Me tornei a mãe que brinca menos e se divide entre mais funções. Passei a ter esse lado permissivo depois de quase explodir internamente de tanta irritação. Tenho uma balança imaginária na minha cabeça onde estou equilibrando “o que deixar” e “o que não deixar” aquilo que acredito ser saudável para mim enquanto mulher.

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Não fui uma criança que apanhou, tomou tapas e beliscões, mas meu pai tinha uma voz potente e usava isso como forma de ameaça. Hoje, se não busco uma reeducação, reproduzo o mesmo com minhas filhas. Aprendi que gritos, castigos e punições só vão deixá-las com mais raiva. Cuido sozinha delas e já descarreguei meu estresse e raiva berrando, confesso, mas, logo em seguida, vem aquele choro profundo e um pedido de desculpas explicando o motivo daquele meu desabafo ou agressão verbal — e terminamos numa conversa sensível e sincera.

Passei a querer ter menos o controle de tudo e tenho me visto muito mais indo ao encontro de bons diálogos em vez de partir para os berros. Berrar me faz muito mal. Ou melhor: nos faz muito mal. Durante esse isolamento, tanto eu quanto as meninas enxergamos isso. Como é nocivo criar uma criança aos gritos! Porque gritar me faz adoecer e faz com que elas cresçam como cresci, naturalizando esse tipo de comportamento. Então, agora grito menos e respiro mais quando vontade de berrar vem com tudo. Respiro, explico, repito pela décima vez. Respiro (mais uma vez!) e o impulso de gritar passa. Ufa!Fui tentando achar um equilíbrio entre ser gentil e firme, mas o trabalho é árduo. Tenho me visto tendo que separar brigas por motivos banais que viram um caos dentro de casa. Isso é chato. É uma tarefa sufocante ser a única responsável por duas crianças, dar limites para eles e na quarentena isso piorou. No início da pandemia eu sabia que não podia cobrar demais, as duas já estavam isoladas, sem ver os amigos, tinham mudado de cidade, estavam lendo notícias tristes... Era muita coisa na cabecinha delas. Por mais que saibamos o quão privilegiados somos, a pressão ainda é enorme e não deixa de existir na rotina.

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ceResolvi ir “relaxando”, mas é desolador se ver não cumprindo o papel da mãe organizada, que sabe todos os horários de compromissos dos filhos, que verifica se o dever de casa está em dia, que não perde a reunião da escola e que confere se os dentes estão mesmo bem escovados. Em contrapartida, me tornei a mãe que faz o melhor arroz (confesso, ele era horrível!), o melhor purê, o melhor strogonoff, que forra a cama com mais afinco, arruma as gavetas, passa as calcinhas, decora coreografias, é mais transparente. Fui tentando passar por cima das cobranças que eu mesma me fazia. Sigo tentando, errando e acertando. Por fim, aprendi que preciso ser paciente... porque não me resta outra alternativa.

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