Maestro de Alagoas diz que a indústria unificou os gêneros musicais para vender
Madonna anunciou recentemente um novo álbum com a participação de Anitta e a Gazetaweb levanta o debate sobre a evolução musical no Brasil
A indústria musical está sempre se movimentando. Pode-se dizer que é assim desde que o mundo é mundo, mas, nas últimas décadas, o fluxo parece ter aumentado. A qualidade aumentou também? Será que o consumo mudou ou as pessoas se acostumaram a ouvir algo rotineiramente? O que os especialistas têm a dizer sobre isso? AGazetawebfoi em busca das respostas e você acompanha tudo a partir de agora.
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Os ritmos em destaque e que 'bebem da fonte' do que se fala nesta matéria são vários. No ranking das músicas brasileiras mais tocadas de 2019, naquele aplicativo de músicas famoso no qual você tem um perfil, o sertanejo ocupa o primeiro lugar, o funk aparece em segundo e o forró em terceiro.
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O funk, que é um dos gêneros que mais conquistaram espaço no Brasil no decorrer dos anos, parece ser um reflexo do que a geraçãomilleniumprioriza: letras simples, diretas, que geralmente falam sobre relacionamentos (desde a paquera até formas de superá-lo), e uma batida eletrônica - ora menor, ora maior, ela sempre está lá. Lembra dos solos de guitarra que se ouvia no forró, por exemplo? Sumiram. A tecnologia entrou em todos os espaços e transformou até as músicas mais ouvidas em algo guiado, de certa forma, por algoritmos.
A explosão de Anitta é outro exemplo do fenômeno acima citado, que ganhou mais força em 2009. E o funk brasileiro continua ganhando mais território: na quarta-feira (17), Madonna começou a anunciar seunovo álbume, entre as participações, Anitta cantando com a 'rainha do pop' uma versão da música "Faz gostoso", da funkeira Baya. Percebe? Pois é.


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O que os cantores alagoanos acham de todo esse movimento? "O funk, a origem americana dele, é incrível. No Brasil, melodicamente falando, são coisas repetitivas, é como um mantra. Não há problema em ser simples, só que eu acho que a questão é o jeito como as coisas são ditas nele. Às vezes, parece ter simplicidade demais, e isso não toca as pessoas. O fato é que o gênero se popularizou, é o novo pop, no sentido literal. Talvez o público mais jovem tenha cansado do elaborado demais. E aí, numa festa, eles conhecem aquela música dançante e acabam ouvindo mais o que está popular e de fácil acesso", comenta a cantora alagoana Elisa Lemos, de 26 anos.
Ela também faz uma ressalva sobre o uso dos meios eletrônicos na construção musical e manda um recado. "A tecnologia é muito boa, ajuda muito na hora de compor, mas é aquela coisa de usar com cuidado pra não perder o lado humano. O legal é mesclar. Se a gente faz uma mistura bacana, a música fica enriquecida. É importante destacar também que toda música tem espaço, tem seu lugar ao sol. Agora, quem acha que as músicas mais elaboradas não existem mais, é só procurar a gente na internet [risos]".
O maestro Almir Medeiros, regente da orquestra do Instituto Federal de Alagoas (Ifal) e da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), aponta o tipo de música que é feito hoje em dia e a tentativa da indústria de não mais diferenciar os gêneros. "Eu não tenho dados, mas, eu vejo a tentativa de unificação. O que se produz no sertanejo, funk e forró são músicas dançantes. E o funk se sobressai porque você tem mais coreografias individualizadas ou em grupo, enquanto os outros citados levam para uma dança a dois. A indústria cultural percebeu que esse tipo de música vendia e focou nisso, fazendo com que os gêneros fossem se mesclando. Foi unificando os gêneros para vender. É muito difícil diferenciar o forró do Safadão de uma música de sertanejo, por exemplo", afirma.

Sobre o consumo massivo de músicas 'vazias', Medeiros opina voltado aos grupos sociais da geração. "Eles conseguem conhecer o que o grupo social em que vivem possibilita. Quando um jovem conhece e gosta de rock atualmente é porque os pais gostam e acabaram influenciando. É uma questão que vem muito do ambiente social, da comunidade em que se vive. Se você vive num lugar que tem quadrilhas juninas, você conhece, aceita, e vai ter uma vivência e um saber mais próximo daquele ritmo e dos artistas relacionados", expõe.
"Forró de plástico"
E é claro que o nosso 'forrózinho' também passou por modificações. Na conversa com aGazetaweb, Almir Medeiros ressaltou que o gênero é o mais apreciado no Nordeste e conta o que aconteceu com o passar do tempo.
"O que houve com o forró, aquele de pé de serra, foi o forró de Ceará ganhando mais espaço, o forró de banda, que saiu do convencional e foi para a guitarra, a percussão, o sax. Foi fazendo muito sucesso com Matruz com Leite, Cavalo de Pau, com versões de músicas internacionais que a Calcinha Preta dominava. Algumas pessoas começaram até a criticar, na época, dizendo que aquilo era um 'forró de plástico'. É curioso que agora as pessoas consideram esse forró de plástico como forró das antigas, mas não é forró de fato. O foco na venda fez com que as coisas fossem mudando e os gêneros se aproximando muito".
Mas por quê a sociedade comprou isso tudo com tamanha facilidade, ao que parece? "Olha, o ambiente midiático pode ter influenciado. Eu acredito que sim. Apesar da facilidade para ouvir música, porque você é o seu senhor na internet e consegue encontrar muito fácil as músicas mais elaboradas, é possível que a mídia tenha influenciado até certo ponto. Porque, se você pegar um jovem que não tinha uma família ouvindo MPB, ele vai ser influenciado pelo grupo social, que é quem determina o que vai ser ouvido para ele, e esses jovens estão ouvindo o que veem na mídia, os sucessos instantâneos do momento", finaliza Almir.
