Dodge pede que caso de chacina no Alemão vá para esfera federal
Segundo a procuradoria, a evidência de que os órgãos do sistema estadual não mostram condições de seguir no desempenho da função de investigação
Nesta segunda-feira (9), a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, enviou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) um pedido de federalização da investigação dos processos relacionados às chacinas ocorridas em 1994 e 1995. O caso aconteceu na comunidade Nova Brasília, no Complexo do Alemão.
Tudo em um só lugar.
Receba notícias da GazetaWeb no seu WhatsApp e fique por dentro de tudo!

Ao justificar o pedido, a PGR também destaca que já se passaram 25 anos sem a adequada apuração dos fatos. Vinte e seis pessoas foram mortas e três mulheres torturadas e violadas sexualmente durante operações das polícias civil e militar do Rio de Janeiro. Ninguém foi responsabilizado pelos crimes. No ano passado, o MPRJ reabriu a investigação sobre as mortes.
Leia também
Segundo a procuradoria, o pedido de federalização é resultado de procedimento instaurado em 2017, com o objetivo de verificar se havia causas para suscitar o chamado Incidente de Deslocamento de Competência (IDC).
De acordo com Raquel Dodge, os elementos colhidos durante a apuração demostraram que estão presentes os requisitos que autorizam a federalização do caso. "Mais que isso, as evidências impõem o deslocamento da apuração para a atribuição e competência das autoridades e órgãos federais", reforça a PGR na peça encaminhada ao presidente do STJ, João Otávio de Noronha.


Doação de sangue em Maceió

Acidente em Marechal Deodoro gera engavetamento

Áudios revelam ordem para PTK se infiltrar na política de Maceió

Polícia prende suspeitos de integrar o Comando Vermelho em AL e no RJ
A apuração sobre o possível deslocamento de competência foi iniciada após a decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) - instituição judicial autônoma da Organização dos Estados Americanos (OEA) -, que condenou o Estado brasileiro por não garantir a realização da Justiça com a punição dos culpados.
No documento, a PGR aponta para a presença simultânea dos requisitos necessários para levar o caso à esfera federal. Foram constatadas a grave violação dos direitos humanos e a possibilidade de responsabilização internacional, decorrente do descumprimento de obrigações assumidas pelo Brasil em tratados internacionais.
Além disso, mais um critério foi atendido para viabilizar o pedido, segundo a PGR: a evidência de que os órgãos do sistema estadual não mostram condições de seguir no desempenho da função de investigação, processamento e julgamento do caso.
A PGR também chama atenção para a jurisprudência do STJ, que determina que o simples risco de responsabilização internacional do Brasil, estando presentes os demais requisitos, dá causa ao deslocamento de competência para a esfera federal.
O objetivo da federalização, ainda de acordo com a PGR, é assegurar o cumprimento da sentença da CIDH no que diz respeito ao direito à proteção judicial e às garantias de independência e imparcialidade da investigação, devida diligência e prazo razoável, em observância aos compromissos assumidos perante a comunidade internacional.
"O Brasil efetivamente foi responsabilizado, não se tratando mais de mero risco, cabendo agora cumprir a sentença interamericana. Anote-se que, anualmente, o país deve prestar contas sobre o cumprimento da sentença à Corte", disseRaquel Dodge.
"Além do tempo excessivo e injustificado das investigações, sem nenhum resultado para o esclarecimento dos fatos, também a forma de atuação das autoridades locais - com gestos abonadores das condutas policiais até então sendo investigadas - demonstrou a falta de isenção e de vontade política para apurar e responsabilizar os envolvidos. Houve quebra de confiança daqueles que esperaram - e ainda esperam - longamente por resposta estatal adequada aos fatos gravíssimos mencionados", frisa a procuradora-geral.
Dodge complementa que os casos merecem investigação realizada em ambiente isento, afastado de possíveis intervenções que prejudiquem, novamente, a busca por respostas à sociedade, às vítimas e a seus familiares.
