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Cartórios registram aumento de mortes por doenças cardiovasculares

O aumento diz respeito ao período de 16 de março a 31 de maio deste ano, em comparação com o mesmo período do ano passado

Os cartórios brasileiros registraram um aumento de 31% no número de mortes por doenças cardiovasculares no País em meio à pandemia de covid-19. É o que mostram os dados do novo painel do Portal da Transparência do Registro Civil, divulgado nesta sexta-feira, 26, desenvolvido pela Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil) em parceria com a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Para especialistas, a alta na morte por causas cardíacas pode estar relacionada à subnotificação de óbitos por covid-19 e também à sobrecarga do sistema de saúde.

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O aumento diz respeito ao período de 16 de março a 31 de maio deste ano, em comparação com o mesmo período do ano passado - neste intervalo, o número de óbitos por doenças como morte súbita, parada cardiorrespiratória e choque cardiogênico saltaram de 14.938 em 2019 para 19.573 em 2020.

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Marcelo Queiroga, presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia, explica que é possível que haja casos de covid-19 embutidos nesses números. "Sabe-se hoje que o novo coronavírus tem relação direta com problemas cardíacos. Porém, há outros motivos que podem explicar também essa alta, como o envelhecimento da população, fatores de risco impostos pela pandemia como estresse e tabagismo, e o receio de ir ao hospital quando aparecem sintomas de doenças cardíacas, por medo de contrair a covid-19", afirma.

Entre os Estados que mais contabilizaram aumento no número de mortes por doenças cardiovasculares no período analisado está o Amazonas (com aumento de 94%) seguido por Pernambuco (85%) e São Paulo (70%). Fernando Bellíssimo Rodrigues, epidemiologista da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, nota que esse locais que registraram maiores números também são regiões que sofreram com sobrecarga do sistema de saúde. "Esse dado pode refletir óbitos ocorridos sem assistência hospitalar, resultando no registro da morte como parada cardiorrespiratória sendo que provavelmente é óbito por covid-19", afirma.

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Infarto e AVC

Os dados mostram que, na contramão de outras doenças cardíacas, mortes por síndrome Coronariana Aguda (Infarto) e Acidente Vascular Cerebral (AVC) registraram queda no período analisado, de 14% e 5%, respectivamente. Queiroga, da Sociedade Brasileira de Cardiologia, explica que provavelmente há um problema de registro desses óbitos. "É provável que esses números estejam escondidos em diagnósticos incorretos de óbitos em domicílios, que tiveram aumento", afirma. Vale lembrar também que cartórios registraram alta de mortes por causa indeterminada em meio à pandemia.

Andrei Sposito, cardiologista da Unicamp, enxerga outro problema de notificação neste ponto. "As pessoas que morrem de covid-19 são as mesmas pessoas que têm doença cardiovasculares como infarto e AVC: são as mais vulneráveis. Elas podem ter tido o diagnóstico de covid-19 e não da doença cardiovascular - chamamos isso de competição de risco. É possível também que pela gravidade da manifestação e pelo medo de ir ao hospital, elas estejam morrendo em casa".

Base para estratégias

Na visão de Sposito, a alta de 31% no número de mortes por doenças cardiovasculares no País nos últimos meses não é uma surpresa. "Existem várias publicações no mundo inteiro mostrando que a covid-19 pode causar doenças cardíacas por vários mecanismos. Além disso, estamos convivendo com uma desassistência: como os hospitais estão dedicados principalmente à pandemia, acaba havendo um retrocesso nos cuidados e acompanhamentos de doenças cardiovasculares", afirma.

Especialistas concordam que os dados apresentados pelo Portal da Transparência do Registro Civil são importantes neste momento. "Ter os números bem discriminados ajuda as autoridades a pensarem em estratégias de contenção de risco cardiovascular. Essas informações podem sugerir, por exemplo, a necessidade de assistência remota para as pessoas serem assistidas dentro de suas casas", diz o cardiologista da Unicamp.

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