Projeto de R$ 30 mi de Renan Filho para regionalização do abate fica no papel
Com matadouros fechados e sofrendo com o descaso do governo de Alagoas, produtores recorrem a outros estados
Com o fechamento de matadouros municipais, mais de 2 mil bois de Alagoas são abatidos, mensalmente, em Sergipe, Pernambuco e Bahia. Em 2015, o governo Renan Filho (MDB) prometeu resolver o problema, pegou carona num projeto do ex-governador Teotonio Vilela Filho (PSDB) e anunciou a liberação de R$ 30 milhões para a regionalização do abate. Prometeu também concluir os matadouros que estavam em obras. Até agora, entretanto, nada saiu do papel. Os abates clandestinos ocorrem na maioria dos 102 municípios. Em Murici, um dos clandestinos funciona a poucos metros da casa dos avós do governador Renan Filho e do prefeito Olavinho Neto (primo do governador), ambos do MDB, no bairro Cajueiro.
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Os animais são abatidos às margens do rio Mundaú, num local sem a menor estrutura. Às sextas-feiras, dia de matança, a água do rio fica vermelha de sangue e suja com restos dos animais abatidos de forma rudimentar. A carne é comercializada em bancas fétidas, cheias de moscas num local da feira livre da cidade, infestada de ratos e animais doentes.
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O mercado público da cidade, inaugurado em março passado, está fechado e sem previsão de abertura, lamentam açougueiros e feirantes cujos nomes serão preservados para evitar perseguições da fiscalização municipal. Acredita-se, na cidade, que o novo mercado será entregue ano que vem, próximo ao período eleitoral. Na prefeitura, ninguém confirma isto.
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O que chama atenção - na terra natal do governador - é que a cidade tem um matadouro quase pronto há mais de dois anos, construído com dinheiro público. O local está tomado pelo mato. A Gazeta esteve no matadouro e encontrou equipamentos modernos, salão operacional com capacidade para abater até 50 bois e suínos por semana, quantidade capaz de atender à demanda dos municípios de Branquinha, Messias e outras localidades da região. Tudo se acabando.
O projeto custou ao Ministério da Agricultura, à Caixa Econômica Federal e à Prefeitura de Murici R$ 1.166.210,78 e virou um dos monumentos do desperdício do dinheiro público naquela cidade.

DESPREZO
"Quem consome carne em Murici corre risco porque o abate é clandestino e não segue normas da Vigilância Sanitária. Os produtos são comercializados no meio da rua, em bancas sujas, em locais impróprios", lamentou um dos médios pecuaristas da região, Caubi Freitas, ao cobrar providência da fiscalização federal, da Secretaria Estadual de Agricultura e do Ministério Público.
O fazendeiro confirmou, também, que alguns criadores da região, por falta de opção, abatem cerca de 100 bois/mês no interior de Pernambuco, porque o Mafrial [Matadouro Frigorífico de Alagoas], que, atualmente, abate também os animais de Murici, impõe cotas por falta de condições para atender à demanda da região. "Enquanto o Município perde receita, a população consome carne clandestina, e nós temos um matadouro, que custou mais de um milhão de reais, abandonado", lamentou o pecuarista, ao confirmar que a família Calheiros é a maior pecuarista da região e não deveria permitir tal irregularidade.
A cidade de 27 mil habitantes, distante 50 quilômetros de Maceió, há mais de 20 anos, é dominada politicamente pelos Calheiros. O registro da ascensão da família como elite econômica e política começa em 1992, com a vitória eleitoral de Olavo Calheiros, avô do governador, que também começou a carreira política como prefeito no período de 2004/2008, cargo que revezou com o tio Remi Calheiros (1996, 2000 e 2012). O atual prefeito, Olavinho Neto, é filho do deputado estadual Olavo Calheiros (MDB) e primo do governador.
Dos 11 vereadores da cidade, apenas dois fazem oposição à família Calheiros. Um deles é Fernando Tenório (PSB). "Murici é o paraíso de obras públicas abandonadas e, há 20 anos, a prefeitura não faz concurso público", lamentou o parlamentar, que também cobra a conclusão do matadouro municipal.
Matadouro de Viçosa está com obras paralisadas há mais de um ano por falta de verba
Outro matadouro considerado como maior exemplo de desperdício de dinheiro público no setor de abate de animais está no município de Viçosa. O estabelecimento, que começou a ser construído em 2013 (gestão do governo Teotonio Vilela Filho), teve as obras retomadas em 2015, custou quase R$ 10 milhões à Secretaria Estadual de Agricultura e está com as obras paradas há mais de um ano, à espera de nova remessa de dinheiro dos cofres estaduais.
A parte estrutural e física do estabelecimento está 90% concluída. Internamente a situação é idêntica à do matadouro de Murici: equipamentos caros empoeirados, se acabando com a ação do tempo (os compartimentos principais estão prontos); falta conclusão nos sistemas elétrico e hidráulico; na parte externa há três tratores se deteriorando; e os setores de almoxarifado e compartimento de higiene de trabalhadores vazios.
O local só não está totalmente abandonado porque três vigias se revezam em turno de 24 horas. Segundo um dos comerciantes da cidade de Viçosa, Genivaldo Soares, o matadouro, quando estiver em operação, terá condições de abater mais de 200 bois/semana e atender as cidades vizinhas de Atalaia, Cajueiro, Chã Preta, Mar Vermelho e Pindoba. "Os criadores e marchantes desta região levam os animais para serem abatidos em Maceió ou Arapiraca. Por isso, a carne é cara. O frete encarece o produto", avaliou Genivaldo. Na região, existem diversos pontos de abate clandestino.
Os criadores cobram a conclusão da obra e criticam a 'politicagem' no setor, que provocou o fechamento dos matadouros municipais sem oferecer alternativa para os marchantes.

SERTÃO
Já os criadores e marchantes do Sertão levam, semanalmente, seus animais para abate em cidades próximas a Canindé do São Francisco (SE), Paulo Afonso (BA) e à região do Carié (PE). A medida é para fugir da fiscalização da Vigilância Sanitária e do Ministério Público. Mesmo assim, os matadouros clandestinos se proliferam. Alguns profissionais, sem se identificar, afirmaram que preferem evitar abate clandestinos e prejuízos com a fiscalização, por isso, levam os animais para matadouros de estados vizinhos. Estima-se que o Estado perde receita tributária de mil animais/mês. E, o pior, alguns desses animais são abatidos clandestinamente nas cidades de estados vizinhos.
EMPREGOS
Num cálculo aleatório, os marchantes afirmam que cada boi abatido gera mais de 20 empregos diretos e indiretos, além de receita tributária, e movimenta economia de toda a cadeia produtiva. Neste momento de recessão e desemprego, a evasão agrava a situação social do desemprego no Sertão.










