Com mais de um milhão na miséria, Alagoas mantém sistema herdado de Pernambuco
Atraso e a desigualdade vigentes ainda são resquícios da época da emancipação
O historiador Cláudio Jorge Gomes de Morais avalia que a emancipação de Alagoas, onde mais de um milhão de pessoas ainda vivem abaixo da linha de pobreza, ainda "não foi totalmente consolidada" porque o "empobrecimento é modelo de sistema" herdado dos tempos que nosso território pertencia a Pernambuco.
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"O atraso e a desigualdade vigentes nos dias atuais não são naturais e ainda são mantidos como sistema imposto por uma oligarquia que continua produzindo indiferença", avalia o historiador, que é mestre em história da Educação e, atualmente, leciona no Centro Universitário Cesmac, em Maceió.
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Dados do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA) mostram que, até 2014, o número de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza em Alagoas era de 1.046.441. Uma década atrás, os miseráveis representavam contingente ainda maior, 1.903.791 pessoas nos 102 municípios do estado.
Sem emancipação social


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A melhora no índice de miséria, entre 2001 e 2014, não esconde o latifúndio ainda vigente na sociedade local. "Nós até avançamos na emancipação política, mas não temos ainda emancipação social. Nossa desigualdade funciona dentro de uma perspectiva que produz indiferença", avalia o mestre.
Embora a sociedade local tenha se modernizado desde sua independência do vizinho Pernambuco, 201 anos atrás, "isso não significa necessariamente mudança, mas adaptação ao sistema", na avaliação do professor, para quem a emancipação política ainda não foi plenamente construída.
Dois séculos após a emancipação política, o historiador, que é pernambucano do Recife, avalia que a estrutura social dos dias atuais guarda resquícios de uma "ética particular" caracterizada pelo imediato e pela vantagem, tão comuns entre representantes da elite local atual, a exemplo do passado.
Mortalidade infantil ainda é presente
"A ideologia dominante ainda é o que prevalece", avalia o educador. "Quem está na extrema miséria pouco importa (à elite dominante)", complementa. Mesmo assim, dados oficiais, aqui e acolá, mostram alguma melhora, mostram que os sobreviventes vão, aos poucos, se multiplicando.
É o caso da mortalidade infantil, que apavorava Alagoas na segunda metade do século passado, mas vem caindo regularmente, de acordo com o Ministério da Saúde (MS). Em 2010, para cada 30,9 mil nascidos vivos, havia uma morte. Em 2014, este índice caiu para 15,04. Em 2017, desceu para 13,4.
Se mais pessoas nascidas vivas continuam vivas, dados oficiais mostram também que o número de pessoas extremamente pobres (que não conseguem sequer repor calorias) caiu de 1.055.157 em 2001 para 399.675 em 2014, ainda de acordo com o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA).
O professor também atenta para a necessidade de "não se ignorar a educação de base", questão "basilar" para o desenvolvimento da região Nordeste e de Alagoas também. "Com investimentos sólidos em educação, a Coréia do Sul avançou e tem PIB (Produto Interno Bruto) parecido com o do Brasil".
Investimento em educação é necessário
Aliás, para explicar nossa atual situação, Cláudio Jorge relembra Florestan Fernandes, sociólogo brasileiro falecido em 1995, e afirma que "O Brasil é um gigante com pés de barros", motivo pelo qual é necessário, avisa, investir ainda mais em educação, "conscientizando a população de seus direitos".
Para o mestre em Educação, a elite não tem interesse em ter educação de base. "Educação muda pessoas, e pessoas mudam o mundo. Só assim é possível acabar com tanta indiferença social", analisa Cláudio Jorge, segundo o qual um dos grandes desafios é "reduzir o índice de analfabetismo político também".

