Sem Lula e Jaques Wagner, PT está em busca de candidato para 2018
Situação do Partido dos Trabalhadores é complicada diante da situação atual
Marcelo Odebrecht costumava falar com orgulho da obra no estádio da Fonte Nova, em Salvador. Frustrado com o buraco aberto pelo Itaquerão nas contas de sua empresa (e da Prefeitura, e do Corinthians?), ele mudava de assunto: "Bom mesmo ficou a Fonte Nova. Precisa ver".
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Passam os anos, Marcelo é preso, resiste, aceita falar, produz a tal "delação do fim do mundo", vai cumprir a pena em casa - e descobre-se então que a tal Fonte Nova serviu para o que serviram todas as grandes obras em que a Odebrecht se metia: encher os cofres do PT.
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De acordo com a investigação da Operação Cartão Vermelho, nada menos que R$ 82 milhões foram parar no bolso do ex-governador baiano Jaques Wagner, na forma de propinas e caixa dois usado em campanhas eleitorais.
Wagner, caso alguém tenha esquecido, é - ou era, sabe-se lá a esta altura? - visto como plano B de candidatura petista a presidente, pois o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado em segunda instância, está proibido de registrar seu nome no Tribunal Superior Eleitoral - a lei proíbe, mas sabe-se lá?


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Não que Wagner tivesse alguma vontade de substituir Lula. Ele preferiria (ainda prefere) concorrer ao Senado, uma conquista mais fácil que lhe tornaria possível manter o foro privilegiado. Agora entendemos melhor por quê.
O inquérito da Polícia Federal desvenda uma daquelas estruturas financeiras rocambolescas, por meio da qual a licitação para a reconstrução da Fonte Nova foi dirigida às duas estrelas da empreita na Bahia: OAS e Odebrecht. De acordo com a PF, a obra foi superfaturada em R$ 200 milhões (ou R$ 450 milhões em valores atualizados), sobre um custo total avaliado em quase R$ 700 milhões.
A Fonte Nova nem é o estádio da Copa do Mundo onde a roubalheira foi maior. A própria PF verificou desvios de R$ 559 milhões na obra do Mané Garrincha, em Brasília, de custo total estimado em R$ 1,6 bilhão. Uma auditoria do Corinthians constatou sobrepreço de R$ 273 milhões na construção do Itaquerão, num total de R$ 1 bilhão.
Como de praxe, Wagner e o PT negam as acusações: "denúncias infundadas", "perseguição", "ataque da parceria jurídico-midiática". O chororô petista não resolve o problema: o que fazer na eleição. Como o inquérito deverá gerar um processo, o nome de Wagner fica queimado. Sempre poderá haver denúncias ou novas provas em plena campanha.
Pos vários motivos, Wagner era um candidato melhor que o ex-prefeito paulistano Fernando Haddad para substituir Lula. Como Haddad, ele tem um perfil capaz de atrair ao menos parte dos votos que o PT perdeu na classe média na esteira dos escândalos de corrupção e da gestão trágica de Dilma Rousseff.
Politicamente, contudo, é bem mais articulado que Haddad. Tem trânsito em vários partidos e no empresariado, é conhecido pela capacidade de ouvir e negociar. Não tem a imagem de acadêmico da Vila Madalena que só quer saber de agradar ciclistas e causas politicamente corretas. Tem uma base eleitoral sólida no Nordeste e entre os sindicatos.
Boa parte dos dez pontos percentuais perdidos pelo PT nas últimas eleições municipais vieram de São Paulo. Petistas levaram uma surra no ABC, Haddad foi massacrado noutros redutos históricos do partido e sofreu uma derrota humilhante no primeiro turno. Difícil acreditar que a população tenha mudado de ideia sobre ele. Wagner é popular no Nordeste e, ao menos, desconhecido no Sul e Sudeste.
O PT ainda representa uma força política considerável. Mesmo que não concorra, Lula tem alto poder de transferência de votos, 80% segundo o último Datafolha. É razoável, portanto, estimar entre um quinto e um quarto do eleitorado os votos no candidato petista, quem quer que seja. Com a divisão do campo oposto entre vários nomes, é alta a chance de ele ir ao segundo turno.
É aí que tudo se complica. Wagner tinha um perfil que permitia construir uma campanha eficaz. Haddad não tem fôlego para os primeiros quinze minutos de debate, como se verificou em São Paulo em sua tentativa de reeleição. Poderá contar, é claro, com o "voto belezura" do eixo Vila Madalena-Baixo Leblon-Savassi e com a base tradicional do PT (sindicatos, funcionalismo público, estatais etc.). Mas isso não basta para vencer. Sem Lula nem Wagner, a situação do PT piora dramaticamente.
