Pesca predatória ameaça única reserva extrativista marinha de Alagoas
Órgãos agem contra esta e outras práticas danosas à harmonia da Lagoa de Jequiá
Quem chega a Jequiá da Praia - o município mais novo de Alagoas e localizado a 68 km de Maceió, pelo Litoral Sul do Estado - depara-se com o Rio Jequiá, que divide a cidade em dois lados. O ambiente é característico: girais de madeiras montados pelos próprios pescadores, tarrafas postas sobre os barracos prontas para serem usadas e embarcações de pequeno porte que navegam sobre as águas. O cenário já evidencia a típica atividade que sustenta a tradição e a economia da população: a pesca.
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Mas, a pesca não começa e nem termina no Rio Jequiá. É na Lagoa Jequiá que os pescadores encontram sua maior fonte de renda. E não é para menos: ela abriga uma rica diversidade de espécies de peixes e é considerada uma das lagoas mais extensas e profundas do Brasil. Devido à sua importância socioambiental, desde 2001 ela é a única Reserva Extrativista Marinha (Resex) do Estado de Alagoas, administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), do Governo Federal.
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O objetivo da Resex é o de equilibrar as necessidades da população com a preservação da Lagoa Jequiá. Entretanto, não foi suficiente para eliminar os impactos causados por anos de pesca desregrada e predatória. Pescar já não é mais como antigamente. O local chamado de 'Balança' - que existia no Centro da cidade para medir a quantidade do pescado que era comercializado nas feiras e mercados - já não existe mais; o comércio da espécie mais querida da região, a carapeba, não está em um dos seus melhores momentos. Está cada vez mais difícil viver da pesca em Jequiá da Praia.

É o que afirma a pescadora Maria Cícera Vieira, de 43 anos. Mãe de cinco filhos, sua renda não passa dos R$ 400 por mês, quando somada ao dinheiro do Bolsa Família. "Isso quando estamos no melhor momento", afirma a pescadora, que exerce a profissão desde os 14 anos de idade. "Aprendi sozinha a pescar com jereré, hoje também pesco com rede e tenho a ajuda dos meus filhos", diz. Jereré é o nome dado a um instrumento de pesca feito de bambu ou cipó. Dentro dele, coloca-se a isca para pegar peixes de pequeno porte.


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"Não dá para viver com cerca de dez quilos de peixes que a gente consegue pegar na semana. Tem dias que a gente pega somente meio quilo, tem dias que não pega nada", conta a pescadora, que precisa trabalhar em torno de 10 horas por dia. Hoje, às margens da lagoa, Maria Cícera vive com os cinco filhos, com idades entre 12 e 23 anos, em uma casa de barro, no povoado de Ponta de Pedra, localizado na região lagunar de Jequiá da Praia.

Agora, a pescadora aguarda a entrega das casas prometidas a ela e aos moradores que vivem nas Áreas de Preservação Ambiental (APAs) e à margem da lagoa. Alguns receberam as casas do conjunto Três Irmãos, construídas pelo Incra, e entregues inacabadas quase um ano depois do prazo, em 2015.
"Não é brincadeira sustentar seis pessoas só com o dinheiro que ganho. Não posso sair daqui porque não tenho dinheiro para pagar aluguel. Minha casa está desabando, cheguei a fazer o cadastro para receber uma, mas até agora não foi me dado nada", diz a pescadora.
Nilza Pinto Martins, de 40 anos, também é pescadora. Ela começou a atividade aos 15 anos, quando acompanhava os pais pela lagoa e conseguiam pescar peixes aos "montes". "Antigamente a gente pescava e dava para sobreviver. Hoje, o que a gente consegue é só pra comprar o que comer no dia", conta.

O que lucra com a pesca é apenas uma renda complementar, aponta a pescadora, que mora com o esposo e o filho de 15 anos. As tarefas são divididas entre ela e o marido, José Marcelino. Agora, em processo de aposentadoria, ele fica responsável por tratar artesanalmente os instrumentos de pesca, e Nilza toma à frente da atividade.
"Lembro que quando eu pescava, eu pegava de cinco a seis peixes de uma só vez que jogava a tarrafa. Chegamos a pegar de 15 a 20 kg por dia. Teve um tempo que o peixe mandi ficava na beira da lagoa de tanto que tinha", recorda Marcelino.
Conscientes do manuseio sustentável da Lagoa Jequiá, Marcelino prepara a rede sempre em "malha grande", para a esposa pescar os peixes maiores, deixando os pequenos na água. Mas, eles sabem que há muitos pescadores que ainda se utilizam de práticas irregulares durante a atividade pesqueira, como o uso da rede de malha fina, a pesca de batida e de arpão.
"Eles acham que lucram desta forma, porque quando se pesca com essa rede, vem peixe de 'monte', mas são todos pequenos, que deveriam ficar na lagoa para se reproduzirem depois", reconhece Nilza, mesmo afirmando que há fiscalizações do Ibama - Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis.
ESPÉCIES NOBRES TAMBÉM SUMIRAM DO RIO JEQUIÁ
O problema da escassez de peixes e sua principal causa, a pesca predatória, também se estendem ao Rio Jequiá, que deságua na cidade, e desemboca no mar, no povoado de Duas Barras. Segundo os pescadores, a falta do principal recurso para sua subsistência vai do siri ao tradicional peixe carapeba. Além destas, outras espécies como carapicus, tainhas e camurins tiveram seus estoques reduzidos.

No entanto, encontra-se com facilidade espécies como tilápias e tucunarés, pouco lucrativos, exóticos, e que causam danos aos peixes nativos, por serem devoradores e de difícil retirada das águas. Até hoje, os pescadores desconhecem os responsáveis por colocar estes peixes em Jequiá.

























