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Do "Botinha" ao Benedito Bentes, futebol de várzea pede socorro em Maceió

Gazetaweb mostra realidade de quem luta para não deixar morrer a paixão do brasileiro na periferia da capital, cujo crescimento ameaça peladeiros

Que o futebol é a maior paixão do povo brasileiro, todos já estão carecas de saber. Também não é novidade que o Brasil continua a produzir craques tipo exportação, seduzindo um mercado cuja grandeza é indiscutível. Porém, mesmo com o esporte tendo evoluído ao ponto de movimentar cifras nunca praticadas, a iniciação no futebol segue repleta de obstáculos capazes de ceifar inúmeros talentos. E não são poucos os que buscam, ignorando este cenário nebuloso, realizar o sonho de se tornar jogador profissional.

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Segundo o Atlas do Esporte no Brasil, publicado em 2004, o futebol está presente na vida de mais de 30 milhões de pessoas, entre profissionais e atletas de fim de semana. Com 924 páginas, o atlas traz um diagnóstico acerca das mais diversas modalidades, citando, por exemplo, o futebol de várzea, denominação convencionada ao futebol praticado de forma amadora. E é sobre este assunto que a reportagem daGazetawebresolveu se debruçar, escancarando a triste realidade de quem pratica o esporte em locais quase sempre esquecidos pelo poder público.

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				Do "Botinha" ao Benedito Bentes, futebol de várzea pede socorro em Maceió
FOTO: Rafael Maynart

Devido ao alcance do tema, a reportagem foi dividida em

duas partes

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, com a primeira a retratar a série de problemas que saltam aos olhos, comprometendo iniciativas como a do historiador Lauthenay Perdigão, cujo campeonato destinado a clubes de comunidades carentes da capital findou por falta de apoio. Já na segunda parte, a

Gazetaweb

vai mostrar, também neste domingo (08), casos de superação presentes na periferia de Maceió, descrevendo a odisseia de quem, sozinho, tenta transformar a vida de quase 80 garotos em um campo de terra batida.

Portanto, comecemos por quem, até pouco tempo, organizava competição cujo objetivo maior era fomentar o esporte enquanto instrumento de inclusão social. Criado em 1997, o Campeonato das Comunidades Carentes se tornou atração nos campos do São Paulo e do Botinha, ambos no bairro Vergel do Lago.

"Tudo começou na orla lagunar porque eu não havia encontrado nenhum lugar melhor e também porque ficava mais próximo dos times da parte baixa da capital, que eram maioria. Contamos com o apoio de um supermercado, que passou a ceder lanche para a garotada, com idade entre 10 e 15 anos, e logo passamos a contar com arbitragem da federação alagoana, conseguindo também os uniformes, para os doze times participantes, junto à Confederação Brasileira de Futebol", recordou Perdigão, que recebeu a reportagem no Museu dos Esportes Edvaldo Alves Santa Rosa, o "Dida".

Diretor do museu instalado no Estádio Rei Pelé, Lauthenay recorda também que, muitas vezes, o lanche era servido antes mesmo de a bola começar a rolar, pois, o sanduíche com refrigerante representava a primeira refeição do dia para boa parte dos pequenos. "Os meninos entravam em campo de barriga cheia, o que não é recomendável para a prática do futebol, mas não podíamos fazer diferente", destacou o também jornalista.

E qual a razão de tamanho saudosismo? É que o projeto em foco chegou ao fim há cinco anos, mesmo depois de o campeonato ter sido transferido para a Vila Olímpica Lauthenay Perdigão, construída, no ano de 2010, no Conjunto Village Campestre, parte alta de Maceió. À época, o então prefeito resolvera homenagear o historiador que dá nome ao equipamento orçado em R$ 8 milhões. No entanto, o poder público simplesmente ignorou a ação do tempo e, com isso, a área de 200 mil metros quadrados segue subutilizada(veja no final desta matéria).


				Do "Botinha" ao Benedito Bentes, futebol de várzea pede socorro em Maceió
FOTO: Arquivo Lauthenay Perdigão

"Foram muitas as vezes em que, no Vergel, perdemos bolas que caíam nos barracos de lona que margeiam os campos. Numa das vezes, encontrei a bola que havíamos perdido sendo vendida por um jovem que morava na comunidade e estava sedento por droga. A Vila veio para dar uma melhor condição aos garotos que jogavam nessas condições, mas não demorou muito para os problemas surgirem, até que, sem apoio, não mais tive condições de levar o campeonato adiante. A verdade é que a Vila já nasceu incompleta. Àquela época, o gramado, por exemplo, já deixava a desejar", afirmou Lauthenay, destacando, ainda, que estar matriculado em qualquer unidade de ensino era pré-requisito.

"Cada jogador tinha de assinar a carteirinha de participante. Lembro-me bem de um caso em que o garoto não conseguiu rubricar o próprio nome e o pai me pediu para que eu abrisse uma exceção. Acabei me compadecendo e pedi que voltasse dentro de 15 dias. Ele voltou, conseguiu escrever e garantiu sua participação", descreveu Lauthenay, revelando outro caso ainda mais curioso, desta vez envolvendo um dirigente de clube amador que forjou a matrícula escolar de parte do time. "Tive de expulsar o clube porque descobri que a escola informada simplesmente não existia".


				Do "Botinha" ao Benedito Bentes, futebol de várzea pede socorro em Maceió
FOTO: Rafael Maynart

Faltam espaços

E Lauthenay destaca, com pesar, o fato de o crescimento das grandes cidades, a exemplo de Maceió, seguir na contramão do futebol de várzea. "Infelizmente, os gestores públicos ainda não se conscientizaram da importância do esporte nessas comunidades. No Campeonato do Carentes, por exemplo, não buscávamos apenas atletas, que, hoje em dia, acabam engolidos frente à disparidade cada vez maior entre os clubes, pois, os que eram ricos estão cada vez mais ricos, enquanto os pobres seguem à margem do sistema. É por isso que se vê um calendário tão enxuto para tantos clubes, com muita gente a padecer sem emprego", avalia o historiador.


				Do "Botinha" ao Benedito Bentes, futebol de várzea pede socorro em Maceió
FOTO: Reprodução Google Maps

Um exemplo claro de que o futebol tem sucumbido frente ao avanço desenfreado da construção civil pode ser visto no Complexo Habitacional Benedito Bentes, onde os mais de 50 clubes têm de se revezar aos domingos, pois, os 13 campos lá existentes já não são o bastante. Um deles, denominado Mundaú, tem traves tortas e enferrujadas, além de obstáculos que vão desde o acúmulo de lixo até uma infinidade de buracos. Contudo, nada disso é capaz de impedir quem dispõe daquele espaço como única opção de lazer.

José Nilson dos Santos, o Nil, é o administrador do Campo do Mundaú. Segundo ele, seu time, de mesmo nome, já não se abate com tais dificuldades. "Jogamos sem árbitro e, quase sempre, a turma recorre ao bom senso. Às vezes é que escolhemos alguém que está passando na rua para apitar. Quando alguém se desentende, logo me aproximo para acalmar os ânimos", contou ele, que lamenta o risco de uma das traves simplesmente desabar. "Eu é que me desdobro para conseguir um pedaço de ferro com algum serralheiro do bairro. A falta de ajuda é tão grande que não temos nem cal para a marcação, que é feita na base da enxada", desabafou.


				Do "Botinha" ao Benedito Bentes, futebol de várzea pede socorro em Maceió
FOTO: Bruno Soriano

E os espaços que ainda resistem, segundo Edvaldo Martins, o Índio, podem desaparecer a qualquer momento. Um deles é o campo do São José, localizado nos fundos da Escola Estadual Marcos Antônio Cavalcanti Silva. "A escola foi construída depois do campo, mas não fizeram uma tela de proteção. Já me desentendi com a direção porque não é de hoje que a bola cai dentro da unidade, danificando lâmpadas e até um ar condicionado", desabafou o também morador do bairro mais populoso de Maceió.

Procurada pela reportagem, a Secretaria de Estado da Educação (Seduc) informou, por meio de nota, que está ciente da situação na Escola Marcos Antônio Cavalcanti e que já estuda uma maneira de solucionar o problema ainda este ano, "de modo a não comprometer a atividade esportiva pela população local".

AGazetawebtambém buscou respostas para o alerta feito pela comunidade, dado o receio de os campos serem extintos. Contudo, Assembleia Legislativa de Alagoas e Câmara de Maceió não têm registro de qualquer projeto de lei que aborde a necessidade de se preservar tais espaços frente à especulação imobiliária. Já a Prefeitura de Maceió, por meio das secretarias de Desenvolvimento Territorial e Meio Ambiente (Sedet) e de Esporte, Lazer e Juventude (Semelj), informou que os campos de futebol localizados no Benedito Bentes não pertencem ao Município - que administra apenas três, todos na areia da Praia de Pajuçara, cedidos à população com base em planilhas que disciplinam os horários de uso.


				Do "Botinha" ao Benedito Bentes, futebol de várzea pede socorro em Maceió
FOTO: Rafael Maynart

Sobre o acúmulo de lixo nos campos do Benedito Bentes, a Superintendência Municipal de Limpeza Urbana (Slum) garantiu realizar, regularmente, a coleta de lixo na localidade, acrescentando que o problema seria fruto da falta de conscientização dos moradores do próprio complexo habitacional.

A Seduc, por sua vez, informou que o governo estadual tem priorizado a construção de quadras cobertas, destacando dados do Censo Escolar de 2015, quando eram 32 as escolas que dispunham de ginásios em Alagoas. Hoje, segundo a secretaria, já são 70 as unidades contempladas com este equipamento, enquanto outros 43 espaços "já tiveram as obras iniciadas ou estão em fase de licitação".

A reportagem ouviu, ainda, o vereador por Maceió Silvânio Barbosa, ex-prefeito comunitário do Benedito Bentes. Ele conta que, há duas semanas, esteve reunido com o governador Renan Filho para lhe solicitar a revitalização da área que compreende os campos de futebol. "A ideia é fazer com que aquele espaço seja transformado em um grande complexo de lazer, composto também por campos de futebol society e dotado de toda a estrutura necessária, a exemplo de arquibancada", afirmou o vereador, acrescentando que o Executivo se comprometeu em elaborar um projeto com tal finalidade, a fim de iniciar as obras no início de 2018.


				Do "Botinha" ao Benedito Bentes, futebol de várzea pede socorro em Maceió
FOTO: Rafael Maynart

"É preciso preservar não apenas aquela área, mas também várias outras que resistem ao crescimento urbano da cidade. Maceió tinha, seguramente, mais de oitenta campos de futebol há uma década. Hoje, eles não passam de trinta", emendou Silvânio.

Tombamento como solução?

Ao que parece, a capital alagoana está muito longe de elevar o futebol de várzea à condição de patrimônio cultural, diferentemente do que ocorreu em São Paulo, onde o Parque do Povo - que reúne seis campos com dimensões oficiais - foi tombado no ano de 1995, a fim de se evitar a incorporação dos terrenos, apesar das críticas a projeto de requalificação executado em 2006, quando a Prefeitura teria descaracterizado o tombamento, conforme levantamento da USP.


				Do "Botinha" ao Benedito Bentes, futebol de várzea pede socorro em Maceió
FOTO: Bruno Soriano

À

Gazetaweb

, o professor doutor Jorge Vieira falou sobre a importância de o poder público incentivar a prática esportiva sob todos os aspectos, sobretudo no tocante à recreação. "O brasileiro tem um maior traquejo porque joga, no meio da rua, até com uma meia enrolada no formato de bola. Nesse sentido, tem-se um

Ethos

antropológico muito grande. Afinal, somos originários de populações indígenas, em que o lúdico e a disputa se misturam ao misticismo e à necessidade de desenvolvimento corporal. Portanto, a proliferação do futebol tem muito a ver com a prática antropológica desses povos, com a sua forma de se vestir e de ver o mundo. O futebol é só uma continuidade disso", analisa Vieira, que também tem formação em Filosofia e Jornalismo.

Quanto à iniciativa em prol do Parque do Povo, Vieira afirma reconhecer que algo semelhante poderia ser feito em Maceió. "O Benedito Bentes, por exemplo, é mais uma aldeia, fruto de um processo de desagregação rural. Trata-se de uma região que foi ressignificada. Ou seja, o contexto social em que vivem foi precarizado. Há 30 anos, contava-se as favelas da capital. Eram pouco mais de 30. Hoje, Maceió se tornou uma grande favela, e isso nos leva a perguntar: qual é o espaço de lazer disponível para essas pessoas? Como não há, vê-se a proliferação da droga e da criminalidade, já que o sujeito não consegue se realizar enquanto pessoa. E o que se vê, infelizmente, é o poder público combater apenas a consequência", analisou.

Porém, Jorge Vieira destaca a influência da mídia sobre toda uma geração que, sem a devida escolaridade, pode se deixar levar pelas tentações do futebol moderno.

"Até onde o poder público tem culpa na formação do jogador? Isso porque, numa determinada localidade, ainda que haja estrutura, talvez tenhamos apenas um sujeito realmente com potencial para se profissionalizar. O jogador da várzea precisa ser assistido, mas os pais não devem criar uma falsa expectativa. Portanto, é importante também que saibamos explorar a oportunidade de se formar cidadãos por meio do futebol. É por isso que os maus exemplos precisam ser combatidos também pela imprensa, a fim de que tenhamos mais ética no futebol", emendou o antropólogo, destacando, por exemplo, o advento da Lei Pelé como prejudicial para atleta e clube formador, que perdeu o interesse nas categorias de base, deixando, por exemplo, de garimpar talentos nas periferias das grandes cidades, em virtude da ação indiscriminada dos empresários de futebol.


				Do "Botinha" ao Benedito Bentes, futebol de várzea pede socorro em Maceió
FOTO: Divulgação/Corinthians-SP

Prova de que a base já não tem a mesma força é que o CRB - apesar de ter revelado bons valores no último ano, a exemplo dos atacantes Jonata, emprestado ao Cruzeiro, e Luidy, negociado com o Corinthians - não dispõe dos chamados olheiros, responsáveis por garimpar jogadores iniciantes. Porém, segundo Guilherme Farias, que coordena as categorias de base, o Galo tem feito um trabalho satisfatório. "Eu não posso ir às comunidades porque me falta tempo, mas contamos com a informação de alguns amigos, inclusive no interior do estado", disse o treinador que acompanhou de perto os primeiros passos do alagoano Roberto Firmino, craque do Liverpool e da Seleção Brasileira que passou pelo Campeonato das Comunidades Carentes e pela escolinha do Regatas.

Já no rival CSA, a situação não é muito diferente. Segundo a assessoria do clube marujo, a escolinha reúne cerca de 100 garotos com idades entre 5 e 15 anos, que pagam mensalidades a partir de R$ 60 - a diretoria, porém, costuma abrir exceções para casos considerados excepcionais, quando o candidato alega não ter condição de arcar com a taxa. Ainda segundo a assessoria, as denominadas "peneiras" costumam acontecer no próprio CT Gustavo Paiva, no Mutange.

Vila do abandono


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FOTO: Rafael Maynart

Um espaço que poderia representar um grande garimpo é a Vila Olímpica Lauthenay Perdigão, localizado numa região em que a violência salta aos olhos. José Lima de Almeida, o Passarinho, mora no conjunto residencial onde o equipamento foi construído há quase oito anos. Um dos fundadores da Liga Esportiva do Village Campestre 2, que reúne 12 times, Passarinho descreveu à reportagem as dificuldades que a população tem encontrado para utilizar o campo de futebol, ou o que sobrou dele.

É que o mato se espalhou para encobrir o que restava de grama, que também divide espaço com os formigueiros. E apesar de a Prefeitura ceder o espaço à comunidade para jogos aos domingos, Passarinho conta que as traves sequer possuem redes. "Até a rede sou eu quem coloco. Também pago para limpar o campo. Não temos o apoio de ninguém. Além do mais, temos uma despesa de 60 reais por semana somente com o árbitro. E são quatro por rodada. Por isso, cada equipe participa com 45 reais. Com os 30 reais restantes é que conseguimos cobrir outros custos, como o pagamento do mesário", revelou Passarinho, afirmando desconhecer a existência de qualquer projeto social, voltado para o futebol, na Vila Olímpica.

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Responsável pelo espaço, o árbitro Francisco Carlos Nascimento, o Chicão, reconhece que muito precisa ser feito, pois, o campo que já abrigou certame destinado à inclusão social, hoje, é o retrato do abandono. Afinal, dentro das quatro linhas, também é preciso cuidado para não pisotear as fezes de animais espalhadas pelo terreno visivelmente irregular.

Há muito não se vê a marca da cal, enquanto os refletores também foram consumidos pelo tempo. O coordenador, no entanto, garante que todos serão recuperados, afirmando aguardar a liberação de emenda federal no valor de R$ 1,5 milhão, montante que seria suficiente para a reforma não apenas do campo. "Este recurso também vai permitir outras melhorias, a exemplo da conclusão da pista de atletismo", explicou.

Inaugurado em 2010, o equipamento reúne também duas quadras para as práticas do futsal, basquete, vôlei e handebol, havendo espaço de sobra para atividades de recreação e lazer. Contudo, já nasceu em desacordo com o projeto original, apesar da pompa com que fora inaugurado, com direito à presença do então ministro do Esporte, Orlando Silva.


				Do "Botinha" ao Benedito Bentes, futebol de várzea pede socorro em Maceió
FOTO: Rafael Maynart

Falta quadra coberta e piscina, por exemplo. Hoje, também abriga um Centro de Referência de Assistência Social (Cras), cujos serviços ainda conferem uma sobrevida ao local. Atualmente, são seis profissionais, entre professores e estagiários, responsáveis por ofertar algumas poucas atividades, aula de dança e treinamento funcional.

"Nós tocamos apenas o futebol de salão, e com foco na iniciação ao esporte, reunindo a garotada do Village e comunidades circunvizinhas. O único pré-requisito é residir nas imediações da vila, já que nosso objetivo é oportunizar o espaço para todos, ainda que o jovem não tenha um simples calçado. E com o apoio de professores abnegados, estamos conseguindo tirar muita gente da ociosidade", analisa o coordenador.


				Do "Botinha" ao Benedito Bentes, futebol de várzea pede socorro em Maceió
FOTO: Rafael Maynart

E Chicão vai além, afirmando utilizar-se do prestígio conquistado com o apito para tentar reerguer a vila. "Graças a Deus, posso dizer que o reconhecimento do meu trabalho como árbitro de futebol ainda é capaz de me abrir portas. Por isso, vou convidar o Lauthenay Perdigão a retomar o Campeonato das Comunidades Carentes, buscando parcerias junto à iniciativa privada. Afinal, é possível fazer, mesmo com pouco. Basta querer".

Taça das Grotas


				Do "Botinha" ao Benedito Bentes, futebol de várzea pede socorro em Maceió
FOTO: Rafael Maynart

O governo estadual, por sua vez, garante apoiar o futebol nas comunidades. Uma das iniciativas previstas é Taça das Grotas de Maceió, que pretende mobilizar, em novembro, 16 equipes e mais de 300 atletas com idade entre 14 e 17 anos. É o que explica o secretário executivo do Esporte e Lazer, Charles Hebert, para quem a disputa vai combater a vulnerabilidade social a que estão submetidos os participantes.

"Faremos como já ocorre em estados como Rio de Janeiro e Minas Gerais. O campeonato será no sistema mata-mata, como o da Copa do Brasil, e fecharemos parceria com a FAF no sentido de viabilizar a arbitragem e os campos profissionais, a exemplo dos estádios João Batista (Sete de Setembro) e Nelson Feijó (Corinthians-AL). Já a grande decisão será no Rei Pelé, com a secretaria providenciando toda a estrutura necessária, como bolas, uniformes e premiação para os três primeiros colocados", detalhou o secretário.

Já com relação à ausência de campos de futebol nos bairros periféricos da capital, Charles afirma acreditar que a solução passa pela Câmara de Vereadores, que deveriam propor um projeto de lei no sentido de preservar os espaços ainda existentes, "já que é da várzea que saem os grandes craques".

"Outra carência que enxergo é a falta de um estádio municipal. Ainda que não tivesse as dimensões de um Rei Pelé, o Município poderia, com um espaço dessa natureza, incentivar o futebol de base e, principalmente, a inclusão social", reforçou Charles, reportando-se, ainda, à inauguração, em setembro, do Centro Estadual de Esporte e Lazer. "Esta ferramenta acolheu a comunidade de Bebedouro e região. E a intenção do governo é interiorizar este projeto, levando espaços do tipo para ao menos cinco cidades pólo, como Penedo e Arapiraca", emendou.

Quanto à falta de apoio aos peladeiros do Benedito Bentes, Charles assegura que a Secretaria de Estado do Esporte e Lazer (Selaj) "vem apoiando muitas ligas de futebol". "Nós já ajudamos campeonatos em cidades como Rio Largo e Roteiro. Mas são muitos os peladeiros em todo o estado. Na medida do possível, buscamos incentivar todos eles, a fim de que um dia possamos ter uma Taça Recife, considerado o maior campeonato de futebol de várzea do mundo", complementou.

Apesar da semelhança entre os projetos, a embrionária Taça das Grotas de Maceió certamente está longe do alcance conquistado pela Taça Recife de Comunidades, que reúne 32 equipes da região metropolitana e, já em sua terceira edição, mobiliza 1.000 jovens entre 13 e 15 anos de idade.

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