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Estudante do ITA relembra medo de fiasco minutos antes de protesto

Talles de Faria, ex-aluno do Instituto de Tecnologia da Aeronáutica, entrou com vestido em formatura em protesto contra a discriminação a LGBTs

Talles de Faria, de 24 anos, chamou a atenção ao receber seu diploma de Engenharia pelo Instituto de Tecnologia da Aeronáutica (ITA), no sábado, 17, usando salto alto, um vestido vermelho e, na roupa, algumas palavras de protesto contra alguns pontos que o incomodaram durante os cinco anos de estudo na universidade.

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"No vestido estava escrito ITA/Aeronáutica e suas tradições. O primeiro tópico era homofobia. É um mecanismo não-regulamentar que usam para expulsar todos os LGBTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros) de lá. O segundo tópico era racismo. E isso está relacionado à falta de representatividade por causa do vestibular. O do ITA é muito difícil e acaba que a maior parte das pessoas que passam é rica, com condições de pagar cursinhos muito caros", afirma Talles em entrevista ao EGO.

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A manifestação já vinha sendo pensada há algum tempo. "Desde o terceiro ano, já sabia que, quando fosse pra minha colação de grau, iria com um vestido. A primeira ideia que foi surgindo é que seria um glamuroso, uma coisa bem rebuscada. Mas, devido a tantos acontecimentos, falei que mais importante do que estar bonito era chamar a atenção para a causa e os problemas que acontecem lá"", diz.

Apesar de todo planejamento antecipado, Talles teve um probleminha minutos antes de chamarem seu nome para pegar o diploma. "Tinha comprado o salto no dia anterior e, quando estava descendo, o cinto dele arrebentou. Já estava treinando em casa para dar a rodadinha sem escorregar, mas, quando arrebentou, fiquei muito preocupado. Era uma preocupação técnica de, na hora de tirar o tecido que estava por cima, girar, escorregar e cair. Ia ser um fiasco", assume, aos risos.

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Essa não foi a única vez que Talles usou salto. "Mas, quando você usa em festa, você não fica preocupado em fazer o momento perfeito. Mas lá... Bom, que bom que deu tudo certo", comemora.


				Estudante do ITA relembra medo de fiasco minutos antes de protesto
FOTO: Rafael Cusato / EGO

"Adoro usar saia, acho muito bom. Lá no ITA, dentro do refeitório, você não pode usar regata, shortinho. Era uma coisa que me incomodava muito ter que sair do meu quarto e colocar uma calça para fazer a refeição e depois voltar. A saia, você coloca em três segundos", diz.

"A saia que estou usando atende às regras de lá porque eles falam que devia bater na altura do joelho", conta ele, que não se importa com os julgamentos sobre sua escolha na hora de se vestir. "No dia a dia, acho que me acostumei e nem percebo se as pessoas estão olhando, com olho arregalado. Fico tanto no meu mundo, que é tranquilo".

Repercussão

Talles conta que, desde o protesto, não sofreu nenhuma represália por parte da faculdade, mas foi chamado pela administração para uma reunião. "Nessa conversa, foi só eu falando por cerca de 1 hora. Eles ouviram e falaram que algumas das reivindicações eles já estavam discutindo. Mas eu falei: 'Não confio no trabalho de vocês, não acho que de fato vão mudar alguma coisa'. Então vou continuar fazendo o que acho que devo fazer", conta.

Ele afirma ainda que, antes do manifesto, sua mãe estava tensa com a repercussão. "Ela estava preocupada com o que aconteceria comigo, mas entendia a importância. Meu irmão também. Minha avó estava lá (na formatura), meus tios... Dentro da família foi bem acolhedor", explica.

Já fora, nem tudo foi positivo. "Gera os dois lados, né? Um apoio muito grande, de pessoas falando, se sentindo representadas. E, por outro lado, tem, por exemplo, os militares, que não gostaram de nada disso", conta ele, que chegou a ler frases como "se fosse eu, pegava e fuzilava". "Um ódio bem grande vindo de militares, que é algo que contradiz muito quando a Aeronáutica fala: 'Nós não somos homofóbicos'. E são pessoas que daqui dois anos vão assumir cargos de poder em várias instituições", aponta ele.

Redes sociais

Com a grande repercussão da manifestação, o assédio foi inevitável. "Estão uma bagunça as minhas redes sociais. De lá para cá, não tive tempo de fazer quase nada. Estou correndo de um lado para outro. Postei só algumas fotos, mas tive muito pouco tempo para interagir com o pessoal", conta ele, que não sabe enumerar se foi no ramo pessoal ou profissional que recebeu mais mensagens. "Recebi propostas de emprego também. E algumas cantadas", confessa ele, com um sorriso tímido.

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