Isolamento da Piscina do Amor repovoa espécies do bioma após destruição marinha
Área degradada por ação natural e humana virou alvo do IMA e Ufal, evitando o avanço do mar
Aparentemente, pode parecer algo banal saber que existem seres vivos tanto na superfície ou na profundidade do mar. Porém, a realidade se torna preocupante quando não se tem a certeza do número de espécies destruídas pela responsabilidade do próprio ser humano. O homem se tornou o principal inimigo de peixes, corais, lagostas, ouriços, estrelas-do-mar e tantos outros da fauna marinha. Mas, o cenário está sendo reconstruído com o repovoamento de espécies na chamada Piscina do Amor - no mar de Pajuçara -, desconhecida por muitos alagoanos, mas guardiã da biodiversidade.
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O Instituto do Meio Ambiente (IMA) iniciou um estudo isolado sobre a biodiversidade recifal na enseada da Pajuçara, ainda em 2010. Durante a análise, descobriu-se que havia uma queda no número de algumas espécies enquanto outras estavam sob ameaça de desaparecer. Pela proximidade dos bancos de recife à costa, a região vinha sendo explorada significativamente, com 23% da extensão da praia sofrendo graves processos erosivos, ou seja, inexistência de parte recreativa.
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De acordo com o coordenador de Gerenciamento Costeiro do IMA, Ricardo César de Barros, nos últimos três anos, a exploração na Piscina do Amor se intensificou com atividades de pesca, turismo, recreação e mergulho. Após estudos complementares, o local foi interditado no dia 9 de junho de 2015.
"Levamos toda a documentação para o Conselho Estadual do Meio Ambiente [Cepram], que legitimou o fechamento por meio da Resolução 97/2015. O relatório técnico-científico foi elaborado pelo IMA e pela Ufal [Universidade Federal de Alagoas]. Para a tomada da decisão, contamos com o apoio da Colônia de Pescadores da região, a Federação de Velas e Motor e a Federação de Pescadores, além do entendimento técnico fundamentado na pesquisa no decorrer dos últimos seis anos", explicou Ricardo, citando que a interdição da área é feita por boias artesanais, a uma distância de 20 metros em relação à borda do recife e com área de, aproximadamente, 42 hectares.


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"No primeiro momento, os banhistas depredavam o material e fazíamos a reposição constantemente. Hoje, percebemos a tomada de consciência. Além disso, fazemos o monitoramento da evolução da biodiversidade e a estrutura física do recife, manhã e noite, o que vem reduzindo, aos poucos, erosivos costeiros, de forma a diminuir a energia do mar e o seu consequente avanço", reforçou Ricardo.
Pela resolução do Cepram, "a fiscalização, monitoramento e pesquisa na área selecionada ficarão a cargo do Instituto do Meio Ambiente do Estado de Alagoas e instituições de pesquisas conveniadas com o IMA-AL, podendo este órgão solicitar auxílio do Batalhão de Polícia Ambiental, Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, Secretaria Municipal de Proteção ao Meio Ambiente, Capitania dos Portos e Colônia de Pescadores do Jaraguá".

Com o isolamento da Piscina do Amor, as espécies destruídas reapareceram naturalmente, sem intervenção técnica. A interdição segue por tempo indeterminado, mas, mesmo assim, com algumas ameaças, a exemplo de mudanças climáticas, contaminação, consciência humana e a possibilidade de aparecimento de espécies exóticas, como o coral-sol.
"Antes, procurávamos espécies de peixe e não encontrávamos rapidamente; hoje, em trinta segundos, achamos um. Quanto ao coral-sol, este se multiplica muito rápido e se adapta facilmente, invadindo a área e promovendo o rebaixamento dos recifes. Ainda não existe aqui em Alagoas e fazemos o monitoramento constante em embarcações que atracam no estado", explicou Fellype Quintella, consultor biólogo.
No total, a Piscina do Amor conta com 126 espécies, dentre elas, peixes com 31 tipos, poliquetas com quatro, crustáceos com seis, moluscos com seis, equinodermos com nove espécies, cnidários (corais) com 13, as macroalgas com um total de 57, subdividido em algas vermelhas com 33 espécies, algas verdes com 15 e algas pardas com 10 espécies cada. A tendência é que o número de espécies aumente com o passar do tempo de fechamento do recife.
Além dos técnicos do IMA, a escola de mergulho Let's Dive auxilia nos trabalhos com o monitoramento das espécies que habitam na Piscina do Amor. Como a escola já realizava esses treinamentos na área da enseada da piscina, foi firmado um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC). A equipe, composta por sete mergulhadores, ficou encarregada de fotografar e filmar as espécies que aparecem durante as aulas, e encaminhar todas para o IMA, ajudando na identificação e monitoramento de novas espécies que venham a surgir na região.

E a piscina natural de Pajuçara?
Apesar dos estudos na Piscina do Amor, uma equipe de biólogos da Ufal começou a analisar antes a piscina natural da Pajuçara, onde banhistas e pescadores podem ter acesso. O resultado mostrou um desequilíbrio na região de "maior trânsito", ocasionado por três fatores: deposição de sedimentos sobre o topo recifal, ancoragem e pisoteio de banhistas. Gabriel Le Campion, professor de Biologia, Ecologia e Oceanografia da Ufal, explica que a caça submarina já vinha reduzindo os estoques naturais. Em 2007, houve um estudo mais aprofundado em toda a Enseada da Pajuçara.

"Estudos complementares mostraram que a praia estava com déficit sedimentar e, por isso, sofria os mecanismos erosivos marinhos. Como consequência, enseada mais rasa, proporcionando o avanço do mar, além da alteração do biota de fundo. Ainda bem que os recifes protegem a praia da ação das ondas e das tempestades, que poderiam agravar ainda mais o problema", pontua Le Campion.
Questionado sobre a Piscina do Amor, o biólogo cita que o local sempre existiu, mas não era tão explorado. Ou seja, o público-alvo era formado pelos próprios pescadores, que utilizavam a área para namorar. Com o passar do tempo, percebeu-se o sumiço de algumas espécies de peixe, como o Papagaio, Gato e Mero, além de estrelas-do-mar, estrelas-serpente e alguns corais.
"A saúde dos recifes estava de mal a pior. Por isso, foi sugerido um projeto de implantação para exclusão da área. Junto com o IMA, notamos que a ictiofauna [conjunto de peixes de uma região] encontra-se em franca recuperação. Vemos, portanto, um repovoamento gradativo desse recife e o ideal é manter interditada a área em caráter definitivo", afirma o pesquisador.
Na oportunidade, o biólogo marinho criticou a ausência de guias turísticos com formação técnica na área, o que "fragiliza a biodiversidade local". Para ele, é uma profissão digna, mas não dotada de qualificação e visão para com o cenário. "É preciso que sejam colocados guias que tenham formação superior na área de Ciências Biológicas, com enfoque nas espécies marinhas".
"Além dos guias, reunimos vários fatores que contribuem para a realidade gritante dos recifes: educação da sociedade, situação econômica que força parte da população de baixa renda a ir buscar alimentos nos recifes, incapacidade de gerência governamental e falta de visão das pessoas que exploram economicamente os locais", assinala o professor.

Outra visão
De acordo com Cecília Corado, coordenadora geral de projetos da Secretaria de Promoção do Turismo de Maceió (Semptur), os passeios turísticos em jangadas feitos nas piscinas naturais são regulamentados por lei e, todo mês de maio, existe a renovação da permissão aos jangadeiros.
Um dos pré-requisitos para a renovação é participar obrigatoriamente de um seminário, com palestras sobre meio ambiente, primeiros socorros e informações turísticas, garantindo assim a continuidade de sua permissão de atuação. Atendimento ao turista é um dos temas abordados nessas palestras obrigatórias. Nelas, é mostrado como se deve atender e orientar os passageiros, além do que podem ou não fazer em relação ao meio ambiente.
Joruatam Cardoso, agente de fiscalização ambiental da Secretaria Municipal de Proteção ao Meio Ambiente (Sempma), afirmou que está havendo uma conscientização maior das pessoas que fazem os passeios turísticos naquela região. "Em relação à Piscina do Amor, quando começamos a fazer o trabalho de conscientização, percebemos que a quantidade de peixes que tinha ali está voltando a aparecer. A flora marinha está começando a brotar, resultando numa melhor qualidade de vida para a biodiversidade do setor, assim como para o próprio jangadeiro, que vai ter mais atrativos para trazer o turista", diz.
Além das jangadas de passeio, existem as jangasbar, onde comidas e bebidas são servidas aos turistas que chegam para visitar as piscinas naturais. Ricardo Walker, agente de fiscalização ambiental da Vigilância Sanitária, garante que as inspeções para detectar irregularidades são feitas com frequência. Essas fiscalizações consistem em detectar se o descarte de resíduos e óleo está sendo feito corretamente, para não espalhar o lixo nas piscinas, além de observar a qualidade e manipulação do alimento.
Caso existam irregularidades, são aplicadas multas de R$ 500 e, se houver reincidência, o valor aumenta de acordo com a quantidade de multas já recebidas. "Até hoje, nenhuma das jangasbar que existem foi multada. Os jangadeiros têm consciência de que o descarte deve ser feito corretamente, então nunca tivemos problemas quanto a isso", informa Walker.
Para continuar o funcionamento, as jangasbar passam por inspeções e devem atingir uma pontuação mínima de 70 pontos numa escala de 100, em um check list feito pela Vigilância Sanitária. Somente este ano, três inspeções foram feitas e todas as jangadas tiveram uma pontuação acima da média.

Degradação do ambiente marinho
Antes do trabalho de conscientização, era frequente o turista ir visitar as piscinas e levar um pedaço de coral como lembrança, causando uma degradação constante. Os próprios condutores das jangadas faziam isso para vender e garantir um dinheiro extra. Mas, após esse trabalho, os pescadores, condutores e turistas estão mais conscientes.
Com relação ao modo de atracação, os condutores costumavam jogar as âncoras em cima dos arrecifes, causando uma deterioração, além de ser considerando um crime ambiental. Hoje, essa atracação é feita de modo diferente. Boias com cordas foram colocadas em torno dos arrecifes para que os condutores amarrem suas embarcações, desse jeito não prejudicando os corais. Existe um projeto onde seriam colocados alguns píeres flutuantes, que não agrediriam o meio ambiente, onde a última jangada a sair traria o píer de volta, além de ter um baixo custo de manutenção.
As línguas sujas, líquido proveniente da drenagem das águas pluviais junto com o esgoto resultante de ligações clandestinas que é jogado no mar, aparecem com frequência quando chove em Maceió. Segundo a Sempma, essas línguas afetam diretamente a qualidade da vida marinha existente nas piscinas naturais.

Gilvan Oliveira da Silva, conhecido como "Banha", tem 55 anos e é jangadeiro. Há 30 anos ele faz os passeios para as piscinas naturais. Sem hora marcada, Gilvan faz, em média, de um a dois trajetos por dia, que custam R$ 25. Segundo ele, quem vai até as piscinas não quer sair de lá nem tão cedo.
Ele chega no começo do dia à praia à procura de turistas que querem fazer o passeio e, quando os seis lugares de sua jangada estão ocupados, parte em direção ao destino tão procurado pelos visitantes: as piscinas naturais. Durante o trajeto, o pescador vai orientando os passageiros em como se comportar diante do bioma.
"Temos que orientar as pessoas a não mexer nos corais e nem dar comida aos peixes. Os peixes não nasceram para comer pão, bolacha ou pipoca. Geralmente, eles jogam essas coisas para atraí-los até a jangada, mas, se você joga um pedacinho de alga, ele vem do mesmo jeito. Sempre que vejo alguém fazendo isso durante meu passeio, eu explico que não se deve fazer, porque é ruim para o animal", relatou.
Sobre a interdição da Piscina do Amor, Gilvan disse que achou a medida excelente. "Os peixes vão poder se desenvolver, ninguém vai pisar nos corais, que vão poder crescer mais saudáveis e o ambiente vai ficar mais adequado para a reprodução das espécies. Eu já vi espécies bem maiores das que eu via antigamente, sinal de que o isolamento está dando resultado", testemunha.
Ao voltar para terra firme, Gilvan diz que se sente grato ao ver o sorriso no rosto de seus passageiros, o que o motiva a continuar o que faz, além de estar sempre em contato com as belezas naturais de Maceió.



