Marcha da extrema-direita em Jerusalém Oriental vira 1º teste para novo governo de Israel

'Marcha da Bandeira' celebra o aniversário da 'reunificação' de Jerusalém em 1967 e é uma provocação para palestinos, que tentam impedir a passeata e foram dispersados pela polícia

O novo governo de Israel enfrenta nesta terça-feira (15) o seu primeiro teste, com uma marcha da extrema-direita por Jerusalém Oriental que pode reacender o conflito com o Hamas, que governa a Faixa de Gaza.

A "Marcha das Bandeiras" celebra o "Yom Yerushalaim" ("Dia de Jerusalém"), quando os israelenses comemoram o aniversário da "reunificação" da Cidade Sagrada após a Guerra dos Seis Dias, em 1967.

A concentração para a passeata começou por volta das 11h (horário de Brasília). Nela, israelenses radicais passeiam por áreas da Cidade Velha de Jerusalém, na parte Oriental da cidade.

A marcha é considerada uma "provocação" por palestinos, que se organizaram para impedi-la e marcaram protestos para o mesmo horário em Gaza e na Cisjordânia.

Antes da passeata, a polícia israelense dispersou centenas de palestinos perto do portão de Damasco, na entrada da Cidade Velha

Importância da Cidade Velha

Israel considera Jerusalém sua capital indivisível. Palestinos consideram a parte leste da cidade como um território ocupado (assim como a comunidade internacional) e querem transformá-la na capital de um futuro estado da Palestina.

É na parte Oriental de Jerusalém que fica a Cidade Velha — e, dentro dela, locais sagrados para o islamismo, o judaísmo e o cristianismo como a Esplanada das Mesquitas, a Torre de Davi e o Santo Sepulcro (veja mapa abaixo).

A Esplanada das Mesquitas é chamada pelos muçulmanos de Al-Haram al-Sharif (Nobre Santuário) e pelos judeus de Har HaBayit (Monte do Templo). Ela abriga o Domo da Rocha, a mesquita Al-Aqsa (A Distante) e o Muro das Lamentações, vestígio do templo judaico destruído pelos romanos no ano 70.

O local é o mais sagrado do judaísmo e o terceiro mais sagrado do Islã (depois de Meca e Medina).

A "Marcha das Bandeiras" seria realizada em 10 de maio, coincidindo com o fim do Ramadã (mês sagrado de jejum e oração para os muçulmanos), mas foi desviada no último minuto para longe do Portão de Damasco, da Cidade Velha e do Bairro Muçulmano para evitar conflitos.

Mas, mesmo após o redirecionamento, a marcha ajudou a desencadear o conflito de 11 dias entre Israel e Hamas que deixou mais de 250 mortos (a esmagadora maioria do lado palestino).

Reação palestina

Além de convocar protestos para o mesmo horário em Gaza e na Cisjordânia, palestinos se mobilizaram para tentar impedir a marcha. O Hamas, que controla a Faixa de Gaza, e o Fatah, que administra a Cisjordânia, pediram aos palestinos que fossem para a Cidade Velha.

"Advertimos sobre as repercussões perigosas que podem resultar da intenção da potência ocupante de permitir que colonos israelenses extremistas realizem a Marcha das Bandeiras em Jerusalém ocupada", disse o primeiro-ministro palestino, Mohammad Shtayyeh, em uma rede social.

O enviado da ONU para o Oriente Médio, Tor Wennesland, pediu "a todas as partes que atuem com responsabilidade e evitem provocações que possam levar a um novo ciclo de confrontos".

A embaixada dos Estados Unidos em Jerusalém pediu a seus funcionários que não compareçam à Cidade Velha de Jerusalém, devido à marcha e às "possíveis contramanifestações".

Novo governo de Israel

A marcha ocorre no segundo dia de governo do novo primeiro-ministro de Israel, Naftali Bennett, que conseguiu formar uma coalização que destronou Benjamin Netanyahu, o premiê mais longevo da história do país, após 12 anos.

Bennett é de um partido de extrema-direita, mas para conseguir formar um governo se juntou ao progressista de centro Yair Lapid e fez uma coalizão improvável de oito partidos: dois de esquerda, dois de centro, três de direita e um árabe.

A coalizão foi aprovada por um triz, em uma votação apertada que fez muita gente duvidar da sua viabilidade até o último segundo. No final, foram 60 votos a favor e 59 contra. Um parlamentar se absteve.

Na segunda-feira à noite (14), o novo ministro da Segurança Interna, Omer Bar-Lev, decidiu manter a manifestação, apesar dos pedidos de suspensão por parte de deputados árabes israelenses e de líderes palestino.

"O direito de manifestação é um direito de todos na democracia", afirmou o gabinete do ministro em um comunicado para justificar a decisão. "A polícia está preparada e faremos tudo o que estiver em nossas mãos para preservar o delicado tecido da convivência".

O ministro da Defesa israelense, Benny Gantz, se reuniu com chefes de polícia, militar e de inteligência nesta terça-feira (15) e "ressaltou a necessidade de evitar atritos e proteger a segurança pessoal dos cidadãos israelenses, judeus e árabes", disse seu gabinete.