Barriga solidária: empatia e amor que constroem uma família

Procedimento, autorizado no Brasil, tem tornado real o sonho da maternidade para muitas mulheres

Ser barriga solidária ou útero de substituição para alguém, sem dúvida alguma, é um dos gestos mais generosos que uma mulher pode ter com outra, sejam elas parentes ou não. É emprestar parte do seu corpo, é gestar e enfrentar um turbilhão de hormônios e todas as mudanças físicas e emocionais que uma gravidez traz. Ao mesmo tempo, é também ajudar a realizar um sonho, até então impossível. É multiplicar a vida e transbordar amor.

Antes chamada de “barriga de aluguel”, a prática ganhou nova nomenclatura por ser algo que não se deve fazer por dinheiro e nem pensando em obter algum benefício em troca, justamente por se tratar de um processo que muda para sempre a vida não só de uma, mas de duas, três e até de famílias inteiras. Para passar por esse procedimento, é preciso enfrentar uma certa burocracia que comprove, entre outras coisas, o vínculo sanguíneo ou afetivo existente entre as pessoas envolvidas - em especial a que empresta o útero e o casal que ganhará um filho.

Você faria isso por alguém? Conhece alguém que faria isso por você? A contadora Natália Bakker, de 37 anos, e a biomédica Jeanne da Mata, também de 37 anos, sim. Uma foi barriga solidária da outra e, em 27 de outubro de 2023, veio ao mundo, com 39 semanas e três dias, de parto cesárea realizado no Real Hospital Português, no Recife-PE, o pequeno Luiz Eduardo, filho de Natália e Eduardo, e que foi gestado no útero de Jeanne.

Natália e Jeanne: amizade desde a infância - Foto: Luciana Peixoto/Arquivo pessoal

Em um primeiro momento, a história até parece confusa, mas dá para ser resumida em um generoso gesto de amor e amizade. Jeanne e Natália são amigas desde a infância. Se conheceram em Olinda, no estado de Pernambuco, ainda muito pequenas, e continuaram alimentando o vínculo afetivo por toda a vida, mesmo com Natália tendo se mudado para a capital alagoana aos 12 anos.

A ideia de gerar o filho da amiga veio da própria Jeanne, após uma conversa que aconteceu no dia do aniversário de Natália. Na ocasião, elas decidiram abrir o coração e falar sobre seus medos, sonhos e desejos mais íntimos. Entre eles, estava o de Natália ser mãe.

“Senti que poderia fazer isso desde o momento em que soube. Isso foi no dia do aniversário dela, acho que em 2018 ou 2019. Natália veio a trabalho para o Recife e passamos o aniversário dela juntas, foi quando, espontaneamente, abrimos o coração uma para outra. Eu contei algo pra ela e ela me confidenciou o ‘problema’ que tinha. Senti que queria fazer isso. Chegando em casa, conversei com meu esposo, que não aceitou, pois meu filho era pequeno e ele achava que isso não seria legal para ele. Até então, não tinha sinalizado nada para Natália”, conta.

Em fevereiro de 2022, Jeanne ficou viúva e, em abril do mesmo ano, como a ideia de ajudar a amiga continuava martelando dentro dela, decidiu contar para Natália que estava disposta a passar por esse processo junto com ela. “Antes de falar com a Natália, conversei com meu filho, expliquei tudo para ele e perguntei o que achava. Imediatamente, ele concordou. Já fazia terapia desde o falecimento do pai e continua até hoje, e o assunto foi muito bem trabalhado na cabeça dele”, destaca Jeanne, que é mãe de Leonardo, de 9 anos.

Começava aí a realização de um sonho. Foram alguns meses até elas obterem a autorização do Conselho Regional de Medicina (CRM) de Pernambuco, onde fica situada a clínica de fertilização onde foi feita a implantação do embrião. Na clínica, Natália e Jeanne precisaram comprovar o vínculo afetivo entre elas, anexando uma grande documentação como cartas trocadas, fotos antigas e recentes. Tudo o que pudesse deixar clara a ligação entre as amigas desde a infância, quando foram vizinhas. “Todo material genético foi dos pais do bebê, Natália e Eduardo. Eu fui o útero substituto. Recebi o embrião pronto”, esclarece Jeanne.

Jeanne é mãe de Leonardo, que aprovou o apoio da mãe dado à melhor amiga - Foto: Luciana Peixoto/Arquivo pessoal

Como já tinha passado pela experiência com o filho, a biomédica conta que não gostou de estar grávida e que jamais romantizou a gestação, mas que sentiu que era dela essa missão de ajudar a amiga de longa data. Durante o período em que gestou o pequeno Luiz Eduardo, Jeanne conta que as conversas entre ela e Natália eram diárias e que, no dia do parto, estavam todos juntos para celebrar a chegada tão esperada do bebê.

“Poder fazer feliz quem a gente ama é uma dádiva. Não é uma coisa que faria para qualquer pessoa, mas eu senti que podia e queria fazer. Ele nasceu com 39 semanas e três dias. Apenas um dia antes do marcado, pois minha pressão subiu subitamente na semana do parto e precisamos antecipar um dia. Nós fomos muito fortes. Meu filho diz que somos os 5 principais. Eu, ele, o bebê [Luiz Eduardo] Natália e Eduardo”, fala Jeanne, destacando o apoio incondicional que recebeu da própria família, em especial da mãe e da irmã.

Para Natália, a experiência de ter o filho gestado por uma barriga solidária foi a melhor de sua vida e que resultou no maior presente que ela poderia receber: um filho. Ela conta que sempre sonhou em ser mãe e formar uma família, e quando soube da possibilidade do útero de substituição, ficou empolgada e procurou se informar sobre o assunto.

“Comecei a pensar em barriga solidária quando os médicos me falaram que essa possibilidade era viável para que eu tivesse um bebê. A partir de então, fui buscar informações sobre esse procedimento e vi na internet alguns casos aqui no Brasil e também no exterior. Cheguei a conversar com algumas mulheres que passaram pelo processo e comecei a sonhar em ter um filho através de barriga solidária”, afirma.

O sonho começou a ganhar forma e se tornar realidade no momento em que Jeanne se ofereceu para gestar o bebê. “A princípio, fiquei sem acreditar que era real, pois, para mim, a possibilidade de ter um filho biológico através de barriga solidária era algo muito distante. Eu aceitei de imediato e só queria que o tempo passasse logo para iniciarmos o processo médico. Meu esposo agiu de forma positiva e confiante, pois o nosso filho seria gerado por uma amiga que estava se dispondo a nos ajudar por amor, empatia e doação”, detalha.

Eduardo e Natália realizaram o sonho de se tornarem pais graças a uma barriga solidária - Foto: Luciana Peixoto/Arquivo pessoal

Natália conta que, durante a gestação de Jeanne, se sentiu grávida junto com ela. Um período “mágico”. “Fanfa [como Natália carinhosamente chama Jeanne], o filho e a família foram maravilhosos conosco durante todo o processo. Eu sentia que todos estavam torcendo por nós, amando nosso filho, e vivendo conosco esse sonho. Nos falávamos o dia inteiro, a todo instante pelo Whatsapp, e eu, em tempo real, sabia tudo que ela e o neném estavam sentindo. Soluços, chutes, se ele estava acordado ou dormindo. Ela me mandava fotos, fazíamos chamadas de vídeo, tudo que eu comprava para o neném mostrava a ela, desde o quartinho, as roupas, os presentes que ganhávamos. Nas férias escolares de Léo [filho de Jeanne], ficamos o mês inteiro juntas aqui em Maceió e, mensalmente, nos víamos no Recife, visto que todo pré-natal foi realizado lá”, relata.

Sobre a sensação de pegar o filho nos braços, pela primeira vez, Natália descreve como a melhor que já teve na vida. “Eu vivi uma gravidez completa, eu vi meu filho em formato de embrião sendo implantado no útero da minha amiga, vi meu filho nas ultrassons, eu senti meu filho mexer, eu vi seu rostinho tomando forma nas ultrassonografias, eu o vi crescer e, por fim, eu o peguei nos braços. Naquele momento, meu mundo parou, era um pedacinho meu e do meu esposo que foi cuidado durante 9 meses por minha amiga e que, naquele momento, estava nascendo. A partir daquele dia, eu tinha uma família! Quando peguei ele nos braços, me senti forte, feliz e realizada. Aprendi que tudo na vida tem uma solução, tem seu tempo, tem seu propósito”, diz.

Além de fortalecer ainda mais a amizade de infância, a chegada de Luiz Eduardo fez com que Jeanne ganhasse um afilhado para mimar e cuidar por toda a vida. Além disso, o processo também fez com que Natália enxergasse a vida de outra maneira.

“Posso afirmar que hoje, depois de todo esse processo, sou outra pessoa e vejo as coisas de outra forma. Uma gestação através de barriga solidária fez eu me sentir amada, acolhida e entendida por minha amiga, que durante todo esse processo foi uma grande parceira, sempre paciente e respeitando todas as minhas inseguranças e meus medos. Essa foi a melhor experiência da minha vida e que me deu o maior presente que Deus poderia me dar, que é um filho e a crença de que o amor e a empatia são a solução da maioria dos problemas que temos”, pontua Natália.

CFM regulamenta

A gestação de substituição é um procedimento permitido no Brasil, regulamentado pelo Conselho Federal de Medicina (CRM), pois não existe no país uma legislação específica que trate do tema. Em 2022, a resolução nº 2.320 trouxe novos parâmetros éticos que devem ser seguidos pelos profissionais da Medicina, entre elas a de que pessoas sem parentesco também poderiam passar pelo processo de “cessão temporária do útero”, desde que seja solicitada uma autorização excepcional.

Na resolução, o CFM ainda apontou que a cessão temporária do útero, ou útero de substituição, não pode ter caráter lucrativo ou comercial, ou seja, é vetada a prática de "barriga de aluguel', quando uma gravidez é gestada sob pagamento.

A reportagem entrou em contato com o Conselho Regional de Medicina (CRM) em Alagoas, mas não foram disponibilizados números relacionados aos processos relacionados a barriga solidária no estado.

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