Modelos contam como é a vida no mundo da moda em Alagoas

Dificuldades, preconceito e mercado fechado fazem parte do dia a dia; internet tem sido a aposta das empresas

Quem vê o glamour das passarelas e a riqueza aparente das sessões de fotos pode não imaginar, mas a vida de modelo pode nem sempre ser assim. Em especial em um mercado pequeno como o alagoano, ainda longe do flashs do eixo Rio-São Paulo e com bem menos oportunidades de trabalho para quem decide trilhar esse caminho. 
Pelo menos é o que assegura quem trabalha por aqui, como o modelo Miguel Conceição. Modelando desde 2012, quando foi descoberto por uma olheira enquanto andava em um shopping center da capital, ele conta que as dificuldades são muitas - e começam, para ele, com o preconceito racial. 
"Um dos maiores problemas que encontro é o racismo estruturado, pois quando pensam algo em moda, não pensam na pessoa negra, mas na pessoa branca. Quando você é chamado, é apenas para compor cenário, para segundo plano. É preciso ser muito carismático, o melhor dos melhores, para conseguir um trabalho onde seja protagonista". 
E a segregação vem, muitas vezes, nas entrelinhas, escondida. "O racismo não é só aquele que te maltrata com ofensas, palavras de baixo calão, ele está também nas atitudes. Quando se pensa no belo, o que se imagina? Um homem branco, de olhos azuis, cabelo liso. Não se pensa numa beleza de cabelo crespo, pele escura". 
Mas Miguel não se dá por rogado. E, para burlar isso, decidiu ir à luta: fez cursos de oratória, de dança, de teatro, de cinema. Mostra carisma onde quer que esteja e vai além de outros modelos. Nos sets ou nas passarelas, tenta apresentar sempre mais que seus concorrentes. 

O modelo luta contra o preconceito dentro e fora das passarelas - Foto: FOTO: Reprodução

"O que me faz ser protagonista nos trabalhos de moda e teatro é ter outras qualidades além da passarela. Tenho toda uma gama de coisas que outras pessoas não têm. Aqui, o modelo de comercial geralmente entra mudo e sai calado porque o pessoal não sabe falar, tem vergonha, então tem que ter outras qualidades a mais".
Acontece que as dificuldades não acabam por aí. A conotação permissiva e a imagem de condescendente dadas a quem trabalha no mundo da moda também incomodam Miguel. Segundo ele, há muitas propostas indecorosas para troca de favores, inclusive de cunho sexual. 
"Luto para ter uma consciência política bem trabalhada e não posso deixar que a 'carne mais barata do mercado seja a carne negra'. Não estou no mundo da moda para que meu corpo seja usado. Já me ofereceram títulos, mas tinha que transar com pessoas desses eventos. Jamais", aponta. 

Modelo não acreditava muito - Foto: FOTO: Reprodução

Nem tudo, porém, é negativo. Pelo contrário. O modelo tem um portfólio recheado e, além de desfiles, já fez editoriais para joalheiras, marcas de roupas e até para uma revista de circulação nacional. Também é sempre contratado para recepção de eventos, cerimoniais e até para casamentos.
A carreira vai indo tão bem que recebeu uma proposta da Amazing Models, uma agência internacional com sede em Recife. "Quando a Globo faz o casting no Nordeste, procura modelos de lá, mas como é em outra capital isso dificulta e ainda não fui lá ver como é essa proposta", conta ele, que nunca tinha acreditado que poderia ser modelo. 
Aos 34 anos, Miguel lembra que só confiou mesmo na oportunidade quando foi avistado pela olheira. "Pensar eu já tinha até pensado. Venho do mundo das artes, sempre fui bailarino, ator, então as pessoas me diziam sobre ser modelo, mas nunca acreditei. Precisou alguém achar que dava e fazer a proposta para que eu procurasse".
Uma carreira ainda na infância

Stephany foi descoberta após o pai inscrevê-la em um desfile - Foto: FOTO: Reprodução

Ao contrário de Miguel, a carreira de Stephany Mayara começou cedo, ainda na infância. Agora a menina tem 10 anos, mas a vida de modelo teve início em 2014, ainda aos oito. Apesar da pouca idade, ela já é referência em Alagoas e se destacou até em São Paulo, onde participou de um evento com outras duas mil candidatas.
"Ela participou do Projeto Passarela, que descobre novas modelos e cinco agências escolheram ela. Não pudemos dar continuidade por conta do custo e demos uma travada. Teria que entrar em contato com essas agências, fazer um book fotográfico e isso tudo custa um valor que não temos no momento", expõe a mãe, Maria Alcina do Nascimento.
Esse, aliás, é o maior entrave para a garota, que entrou nesse mundo por acaso, depois de o pai ficar sabendo de um concurso que aconteceria em Maceió. Ele decidira inscrever a filha meio que por brincadeira, mas não esperava que ela ficasse entre as 20 melhores colocadas.
"O pai dela é bem coruja mesmo e estava passeando no shopping quando viu o quiosque de um desfile. Depois disso ela fez o curso de modelo e em 2015 ela participou do segundo desfile dela, onde ganhou em primeiro lugar. Desde então ela vem participando de desfiles, de fotos, de vários concursos", destaca a mãe.

Aos dez anos, a menina ficou em terceirou lugar no Miss Alagoas Juvenil - Foto: FOTO: Reprodução

No mesmo ano, surgiu a oportunidade de que ela participasse de um concurso de miss, o Festival da Beleza Alagoana, que vale como o Miss Alagoas Juvenil. A família não tinha o dinheiro para a inscrição, mas, com a possibilidade de parcelar o valor, acabou conseguindo colocar Stephany. 
Ela ficou em terceiro lugar e só não foi mais longe, segundo os jurados, por causa do tamanho. "Eles disseram que ela era muito grande para a idade", lembra Maria Alcina, acrescentando que esse é o sonho da filha. "É o sonho dela, ela tem talento e buscamos fazer até onde podemos, mas tem coisas que realmente ficamos estacionados".
A mãe revela que a maior dificuldade é mesmo relativa a dinheiro. A modelo não tem nenhum patrocínio e trabalha apenas com parcerias com algumas lojas, que emprestam roupas para desfiles e sessões fotográficas. Depois, os looks são devolvidos. Mas falta, de acordo com ela, um aporte financeiro.
"Quando colocamos ela já sabíamos que esse era um mundo muito caro, porque beleza é caro, tem que ter um investimento. A princípio, temos pessoas que ajudam, emprestam a roupa. Somos pessoas simples e isso dificulta muito", afirma, acrescentando que não imaginava que a filha fosse chegar tão longe.

A mãe diz que a maior dificuldade é a falta de um apoio financeiro - Foto: FOTO: Reprodução

Hoje ela é, além de modelo, também atriz. "Não pensávamos isso. É até impressionante. Meu esposo colocou numa brincadeirinha, para ela participar de um desfile, mas aconteceu que agora ela é procurada, é uma das modelos de referência aqui. A gente vê que ela tem futuro e está no caminho certo". 
Mercado aposta na internet
Dona de uma agência de modelos, a Hits Models, há 19 anos, Regina Tenório diz que o mercado alagoano é mesmo pequeno em comparação com outros, como o carioca e o paulista. Mas ele existe e, apesar das dificuldades, vem se consolidando aos poucos na capital alagoana.
Um novo nicho que vem surgindo, aliás, é a internet. Segundo ela, ele é o que mais tem contratado modelos por aqui. "A internet hoje é dia é de repente o veículo que mais está consumindo", aponta. "No momento, a demanda maior está sendo para rede social. Foi um mercado que se abriu e que é globalizado", complementa.

Agência também recruta modelos para recepções - Foto: FOTO: Reprodução

Ela explica que a agência funciona treinando e depois indicando os modelos, seja para desfiles, comerciais, trabalhos fotográficos ou recepções. Não há um perfil que seja mais procurado. Segundo Regina, há espaço para todo mundo e, de olho no negócio, ela procura não subestimar ninguém.
"Já aconteceu muitas vezes de estar precisando de um trabalho de vídeo ou fotografia outros perfis, como idosos, por exemplo. Hoje vermos cada vez mais pessoas comuns fazendo comerciais. Fazemos de uma forma com que o treinamento seja bom independente que seja para a área de modelo e manequim". 
No meio imobiliário, por exemplo, ela explica que a busca maior é por casais entre 25 e 40 anos. Já a passarela pede por meninas na faixa dos 14 aos 18 anos. As características, porém, são diferentes das procuradas no Rio e em São Paulo - a altura gira em torno de 1,72, um pouco menor, já tendo em vista os traços do Nordeste.
Elas são contratadas principalmente nas épocas de mudança de estação, entre abril e maio, na coleção outono-inverno, e agosto e outubro, na de primavera-verão. Regina conta que a própria agência procura fomentar os desfiles, até como uma forma de aquecer o mercado local.

No casting, agência tem crianças, jovens, adultos e idosos - Foto: FOTO: Reprodução

Para fazer parte do casting, todos os modelos fazem um curso de três meses. São de seis a nove turmas por semestres, com até 12 pessoas em cada. Lá eles aprendem técnica de passarela, postura, etiqueta, dicas de moda, auto maquiagem, fotografia e vídeo, interpretação e posicionamento, além de participarem de dinâmicas e vivências.
"Minha formação é em psicologia e a área da psicologia que sempre quis foi a de treinamento de pessoas, então a proposta da Hits é a de trabalhar, desenvolver a pessoa que tenha interesse em ser modelo", explica a dona, acrescentando que atualmente a agência tem cerca de 500 cadastrados, entre crianças, adolescentes e adultos. 
A ideia dela sempre foi profissionalizar a área. "Infelizmente, uma coisa que acontece, talvez até pelo mercado ser pequeno, é algumas pessoas que têm vontade de ser modelos, são modelos, mas acabam aceitando fazer por um cachê pequeno ou até mesmo sem o cachê. Quando abrimos, foi com o intuito de profissionalizar. Sentíamos essa necessidade de que fosse mais profissional e isso vem melhorando".