Por que a frase de Neymar e de Renato sobre posse de bola é machista? Explicamos

Camisa 10 do PSG repetiu técnico do Grêmio e comparou posse de bola e vaga na semifinal da Champions à "conquista" de mulheres. "Mulher não é um objeto", diz pesquisadora

Neymar usou uma frase machista para ironizar a maior posse de bola do Bayern na partida que rendeu a classificação do PSG à semifinal da Liga dos Campeões. A analogia já havia sido usada pelo técnico Renato Portaluppi. O que muita gente não entende é por que se trata de uma frase sexista. O ponto de partida para entender o problema da frase é a questão da objetificação.

”O próprio termo já dá uma pista do que se trata a objetificação: o ato de transformar em objeto.“

Neymar fala sobre alguém conversar com a mulher a noite toda, e posteriormente "vem um cara e em cinco minutos fica com ela". Nesse contexto, ele objetifica ao torná-la comparável à bola e à classificação, como explica a doutora em Antropologia e pesquisadora de gênero Cláudia Kessler.

- A mulher é diferente da bola porque ela não é um objeto e pode escolher se quer ir ou não a algum lugar, quando e pra onde deseja ir.

Neymar no aquecimento antes de PSG x Bayern - Foto: AFP

Ao tornar a mulher comparável a um objeto, os sentimentos e desejos dela são ignorados, acrescenta Kessler. Ou seja, ela não é encarada como sujeito capaz de tomar suas próprias decisões, mas, sim, um objeto que tem o seu destino definido pelas ações daqueles que são considerados sujeitos – nesse caso, os homens.

Assim, a fala de Neymar repete uma ideia de que a mulher é uma conquista, diz a doutora em Psicologia Social Jaqueline de Jesus.

- Há o sentido simbólico da conquista, que esconde por trás a ideia de poder. Por que elas não são agentes? Colocá-las como um objeto de conquista diminui toda a humanidade das mulheres - reforça Jaqueline.

- São homens que acham que as mulheres devem estar à sua disposição - diz Kessler, que destaca também a presença de um discurso de posse da mulher.

Técnico Renato Gaúcho em coletiva; treinador fez a mesma analogia que Neymar no ano passado - Foto: Lucas

- Quem reproduz esses discursos ignora que existem estruturas de poder na nossa sociedade que hierarquizam os sujeitos e conferem diversos privilégios a determinados grupos - diz a pesquisadora.

Por Neymar ser um modelo para muitos homens e meninos, Kessler acrescenta que o fato de a frase ter vindo do camisa 10 do PSG pode colaborar para a reprodução desse tipo de discurso machista.

- A mensagem dele não apenas é recebida, mas em muitos momentos disseminada, sem ser refletida - diz.

- O senso comum já está dado, e Neymar o reproduz - diz Jaqueline de Jesus.

Ela afirma que a sociedade precisa de uma educação, dentro e fora da escola, que não repita e não reforce esse tipo de ideia machista, especialmente pessoas com o alcance de Neymar.

- A opinião da mulher que sofre a objetificação não é considerada, só a aceitação de quem acha que isso é "mimimi". Ele prejudica ao reforçar estereótipos que já são difíceis de mudar — finaliza Jaqueline.