Como Football Manager passou a 'fazer parte' do jogo

Há quase 20 anos, simulador de gerenciamento conquista fãs entre torcedores, atletas e técnicos

No mundo moderno, tirar um tempo para si já não é das missões mais fáceis. Imagine, então, passar horas e horas em frente a um computador tocando, entre outras coisas, as tarefas mais burocráticas de um time de futebol. É isso que, há quase 20 anos, o simulador Football Manager oferece. E foi assim que conquistou uma legião de fãs, influenciou figuras do futebol e já faz parte do jogo na “vida real”.

O game nasceu ainda em 1992, como Championship Manager. O formato e nome atuais vieram em 2004. O foco do título, desenvolvido pela Sports Interactive, é a simulação do trabalho de um manager, as figuras de técnicos com mais autonomia nos clubes, algo comum no futebol europeu. Diferentemente de séries como EA FC (antigo Fifa) e eFootball, a proposta não é de controlar seu time em campo, mas sim treiná-lo de fato.

Base de dados

O jogador assiste às partidas, dá orientações, faz substituições e alterações táticas, mas o resultado depende do desempenho do time escalado. Tudo isso é o estopim da simulação de gestão de elenco, negociações, conversas de vestiários, entrevistas coletivas, finanças, treinos e papos com a diretoria. Detalhes que fazem a base de fãs ser tão apaixonada pelo simulador.

Para dublar o futebol da vida real, o game utiliza uma larga base de dados, construída, expandida e aperfeiçoada a cada edição lançada, que dá números a atributos técnicos, físicos e mentais de boa parte dos atletas do futebol mundial, bem como de membros de comissões técnicas. Foi esse trabalho que chamou a atenção de Wayne Rooney.

Atual técnico do DC United-EUA, da MLS, o ídolo inglês revelou que tem uma parceria com o game para se utilizar dessa base.

"Fazemos muito mercado na América do Sul e fechamos um acordo com o Football Manager. Damos a eles publicidade, e eles nos dão acesso a 11 ou 12 “olheiros” ao redor do mundo. (José) Mourinho já fez isso no passado", explicou o treinador ao jornal The Times, em julho.

Esses olheiros são chamados de “pesquisadores” pela equipe do jogo. Espalhados pelo mundo e normalmente jogadores de FM, são recrutados e treinados pela Sports Interactive e fazem trabalho voluntário. Alguns deles, segundo a empresa, conseguem empregos fixos na própria equipe do jogo após a experiência. Há casos também de pesquisadores contratados pelo alemão Hertha Berlin e pelos ingleses Watford e Plymouth, bem como aqueles que hoje fazem parte de empresas focadas em análise e scout.

No Brasil, onde o jogo não é distribuído de forma oficial desde a edição 2017, a base de fãs é grande. Um deles, hoje presidente de um clube "na vida real", conversou com o GLOBO.

— Não digo que é o grande influenciador, mas é uma das peças desse quebra-cabeça. Trabalho com esporte há muito tempo por ser apaixonado — diz Bruno Manfio, presidente e fundador do Primavera, do Mato Grosso, que conquistou a segunda divisão estadual este ano.

Manfio, que iniciou a empreitada buscando ser executivo, joga Football Manager desde a edição de 2008. Dadas as especificidades do futebol brasileiro e regional, ele elogia o realismo. Mas aponta principal diferença de gerir futebol na “vida real”:

"É a gestão fora de campo, de pessoas. Entender que, para produzir dentro de campo, os atletas têm toda uma situação particular. É a única coisa que o simulador não consegue emular", conta o gestor.

Essa diferença esteve no caminho de nomes que foram das noites jogando FM a um banco de reservas profissional. Abel Ferreira, técnico do Palmeiras, é um deles. No ano, passado, Will Still, belga de 30 anos, viralizou ao comandar o Reims em campanha surpreendente no Campeonato Francês sendo também um ávido jogador de Football Manager na juventude, antes de iniciar a carreira de treinador profissional. No campo, o jogo também conquista corações: o atacante francês Griezmann, do Atlético de Madrid, é abertamente fanático pelo simulador.

Mudanças no simulador

O Football Manager passará por mudanças profundas a partir de 2025. Em postagem oficial no blog do jogo, em junho, o criador e diretor da Sports Interactive, Miles Jacobson, anunciou que a edição 2024 (que será lançada ainda este ano) será "a última do seu estilo".

Segundo Jacobson, o jogo adotará uma nova engine (motor gráfico), a Unity. A ideia é investir de forma mais pesada na parte gráfica do game, que ganhará cenas virtuais de partidas mais fiéis à realidade e com mais opções de interação para os jogadores.

"Pela primeira vez em décadas, teremos uma sequência de fato. A Unity trará um novo motor gráfico, uma interface de usuário renovada e animações avançadas, além da introdução do futebol feminino", diz a postagem.

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