CT do Mutange: da modernidade à desocupação emergencial

Palco esportivo, que já recebeu inúmeros craques, hoje sofre com um futuro incerto; equipe do CSA deixará o Centro de Treinamento em dezembro

O palco que viu a formação de Jacozinho, Dida e Felipão, o encerramento da carreira do argentino Ferreti e recebeu a presença ilustre de Garrincha, o "Anjo de Pernas Tortas", pode deixar de existir. Com 97 anos completados nesse dia 22 de novembro, o Centro de Treinamento Gustavo Paiva sairá de seu local de origem, o bairro do Mutange. Em 1922, na partida inaugural, o CSA venceu o Perez, extinto clube de Recife-PE, pelo placar de 3x0. 
O hoje Centro de Treinamento já foi considerado por muitos anos o estádio mais moderno do Estado de Alagoas. Por ser o único palco esportivo que possuía refletores, os jogos que ocorriam durante o período noturno eram realizados lá. A primeira partida internacional realizada em território alagoano aconteceu no Mutange: CSA e Velez Sársfield empataram por 1x1.

Garrincha já vestiu a camisa do CSA, em 1973 - Foto: FOTO: Arquivo/Museu dos Esportes

De lá para cá, uma carreira vitoriosa foi construída às margens da Lagoa Mundaú. Foi em treinamentos no Mutange que o CSA conseguiu chegar à final da Conmebol em 1999, tornou-se o primeiro time de Alagoas a conquistar a taça da Série C do Campeonato Brasileiro em 2017 e ocupa o posto de maior campeão estadual, com 39 títulos.
Em um passado não muito distante, mais precisamente no final do ano passado, a diretoria decidiu investir na modernização do CT visando à temporada de 2019, ano de disputa da Série A do Campeonato Brasileiro. Mais de R$ 2 milhões foram gastos para construir e reparar o centro médico, a academia, o refeitório e o vestiário.
A mudança do CT Gustavo Paiva será para o Estádio Nelson Peixoto Feijó, o antigo campo do Corinthians Alagoano. A intermediação da mudança está sendo feita entre a Braskem, empresa de mineração responsável pela extração de sal na região, e o empresário e dono do imóvel, João Feijó.
Em conversa com a Gazetaweb, o presidente do Azulão, Rafael Tenório, disse que o CSA não tem ligação com a negociação da transferência do CT do Mutange para a Via Expressa. 
"O contrato será feito entre Braskem e João Feijó. O CSA será apenas o usuário do Centro de Treinamento, não estamos intermediando. Nós conversamos com o João Feijó, que entendeu a gravidade da situação. Ele já teve uma reunião com os executivos da Braskem e deve firmar um contrato de 24 a 36 meses no Nelsão. Vamos começar uma nova vida e construir uma nova história para o CSA".
Emocionado, o mandatário da equipe maruja afirmou que a mudança de local acarretará uma perda histórica irreparável para ele e para o clube, que já fincou raízes no bairro.
"Eu tenho 58 anos que conheço o Mutange, cheguei lá aos 8 anos de idade no campo do CSA. Passei minha adolescência e, hoje, sou presidente do clube. Participei da recuperação do time. Para mim é um filho que estou vendo ir embora".

Rafael Tenório lamenta saída do CT - Foto: FOTO: Ailton Cruz/Gazeta de Alagoas

O último treino do elenco no CT está previsto para acontecer no dia 7 de dezembro, véspera da partida final do Campeonato Brasileiro, contra o São Paulo. A parte administrativa do clube deverá sair do Mutange até o dia 15.
A temporada de 2020 começa para o CSA no dia 4 de janeiro e a expectativa de Rafael Tenório é que os treinamentos já sejam feitos no Nelsão.

Conquista do título da Série C em 2017 - Foto: FOTO: Ailton Cruz/Gazeta de Alagoas

Paixão que vem de berço
A história do clube que passou a ser conhecido por Azulão do Mutange não será esquecida facilmente por Israel dos Santos. O torcedor e funcionário da cozinha do time azulino passou a infância frequentando o Centro de Treinamento.
Filho de torcedor fanático, o falecido "Seu Léo", que trabalhou durante 22 anos no clube da capital alagoana, Israel passou a criar laços com o CSA desde os seis anos de idade, tornando-se funcionário - com carteira assinada, segundo ele - desde o ano de 2005.
"É triste. Muito triste ver o que foi realizado nesse CT pelo Rafael [Tenório] e pelo Raimundo [Tavares]. Isso aqui ficou muito bonito e sair assim, às pressas, é muito difícil", afirmou o fanático torcedor.
Israel também disse que, como a certeza da mudança é muito recente, os funcionários do clube ainda não conversaram com a diretoria sobre o futuro, mas espera que possa acontecer um diálogo nos próximos dias.

Mutange já foi palco de conquistas históricas - Foto: FOTO: Levi Yuri/RCortez

Azulão do povo
A identificação com o clube também veio da família. Essa é a realidade de Eduardo Alvim, apaixonado pelo CSA e um dos fundadores da principal torcida organizada do clube, a Mancha Azul.
"Eu frequentei o Mutange quando criança. Meus pais, principalmente minha mãe, me levava para o Centro de Treinamento. Tive o prazer de ver alguns jogos do Campeonato Alagoano lá. É triste ver essa situação. Eu lamento, porque são 97 anos de história. Foram muitas glórias, que, infelizmente, serão apagadas. Fico muito triste em saber que as atividades lá serão encerradas. Mas, para mim e para toda torcida, será sempre o Azulão do Mutange, do morro e do povo".
Eduardo, que pintava o bandeirão da torcida para animar as festas na arquibancada, chegou a passar noites no Centro de Treinamento. Ele, assim como toda a massa azulina, deixará guardado na memória os momentos mais vitoriosos do Azulão do Mutange no campo à beira da Lagoa.