ENSINO AGONIZA

Que os bilhões dirigidos ao concreto não abalem o desenvolvimento humano e o futuro do Estado e de seu povo

Passou com certa discrição pela mídia uma frase do discurso da deputada Jó Pereira, ao defender mais investimentos e ações na educação do Estado: “que areia, cimento e pedra não venham comprometer o futuro de Alagoas”.

A parlamentar deu um sinal de alerta para um setor da administração pública que, nos últimos seis anos, fracassou na missão de revolucionar o ensino e a formação da nossa juventude.

Acaba de completar nove meses uma gestão interina à frente da Secretaria de Educação do Estado de Alagoas. É pertinente qualificá-la como tal, pois os escaninhos do poder não escondem a intenção do governador Renan Filho de lançar mão da pasta – ainda sob reserva – como dote valioso em eventual composição política.

Se antes do improviso, o governo de Alagoas já acumulava pontuação vermelha na educação pública, em razão da ineficiência, avalie a crise atual agravada pela pandemia. Em 2019, o IDEB para o ensino médio em Alagoas ficou bem abaixo da meta, assim como ocorreu no ano anterior.

Para agravar o cenário educacional, a Operação “Casmurros”, da PF, descortinou um rombo de R$ 8,5 milhões, através de contratos fraudados por uma organização criminosa, tendo como alvo o serviço de transporte escolar. Sem falar na devolução à Brasília de recursos oriundos do Orçamento da União, como se o Estado pudesse abdicar da aplicação de recursos federais.

Enquanto o governador alardeava “mudança profunda” na educação estadual, o Sinteal alertava para a dura vida letiva: “Quem está distante do chão da escola pública faz suas avaliações ignorando a realidade”, declarou dirigente da entidade.

Agora, no momento mais duro de uma grave crise sanitária que se arrasta há um ano, a educação segue numa agonia silenciosa. Com o anúncio governamental de início do ano letivo no modo remoto, o abismo social vai lamentavelmente evidenciar-se bem mais, a começar pela dificuldade de o alunado dispor de meios tecnológicos e conectividade adequados, indispensáveis na era digital.

Sobre a frase contida no pronunciamento da deputada Jó, segue a tradução livre: que os bilhões em investimentos alardeados não virem apenas contratos com empreiteiras na véspera de eleição, em detrimento de políticas educacionais inclusivas, de uma rede consistente de assistência social, de aporte em saneamento básico e de ações concretas para fomentar o empreendedorismo e a agricultura familiar em nossa terra.