'Bel-Air' transforma 'Um Maluco no Pedaço' em um drama inflamado

O que mais destoa entre as duas versões é a forma como os personagens encaram a intolerância, o racismo e a fragilidade do sistema de justiça

Se sua ideia ao assistir "Bel-Air" for reviver memórias do programa original "Um Maluco no Pedaço" ("The Fresh Prince of Bel Air"), pode esquecer. Cada versão tem o seu caminho. Saem a leveza e o colorido dos anos 1990, com roupas de lã, cortes de cabelo quadrados e o conceito americano de família -onde todas as refeições são feitas à mesa e o pai é o modelo sempre a ser seguido– e entra o drama, onde assuntos como o preconceito racial são tratados com muito mais profundidade.


"Você se importa se viver ou morrer?", pergunta tio Phil (Adrian Holmes) ao sobrinho Will (Jabari Banks) no episódio de estreia. O questionamento ocorre logo após a chegada de Will à casa dos tios em Los Angeles, Califórnia. Ele foi preso por causa de uma confusão durante um jogo de basquete. Dessa vez, a ameaça de morte é bem mais explícita, e o faz deixar a Filadélfia de forma definitiva.


Ele consegue manter uma atuação sólida e emotiva e sensibiliza ao se aproximar da casa dos tios, olhando a cidade ao fundo e recebendo dicas do novo amigo para não se esquecer de quem era e de onde veio. O choque cultural que experimenta é evidente. A nova casa é ainda mais majestosa –o que deixa implícito a diferença social entre os estados americanos.


A abertura caricata, com Will flagrado pichando um muro pela polícia dá lugar a uma sala escura, onde a pichação é quem ilumina Will, sentado sob um trono e coroado com uma música instrumental ao fundo. Apenas o porte físico de Will Smith se iguala ao de Jabari, que também consegue reproduzir alguns trejeitos e caretas do antecessor.


Enquanto no passado Will era debochado e brincalhão, o atual é mais inflamado. Dessa vez, o racismo é tratado com bem mais profundidade e a violência policial, responsável pela sua mudança para a casa dos tios, é ainda latente, inclusive em seus pesadelos.


Nessa nova versão, Hilary, interpretada pela atriz Coco Jones, é uma social media e chefe de cozinha "amadora". Enquanto no programa original aparecia como uma garota fútil e atrapalhada, agora parece mais focada em busca de uma carreira. Essa versão traz coadjuvantes com problemas mais complexos.


Carlton (Olly Sholotan) já não dança mais. Trocou a ingenuidade pela perspicácia, mas ainda disputa tudo com Will, inclusive a atenção do pai.


Uma troca de socos entre os primos vaza na internet e o problema familiar pode manchar a campanha de Phil (Adrian Holmes) para o cargo de promotor público. O tio, que agora é magro e não ouve piadas sobre seu corpo nem sobre sua forma de se alimentar, tem receio de que os telefonemas dados para liberar o sobrinho da polícia venham à tona. Ironicamente, teme o que pretende combater.


Numa partida de brincadeira no quintal consegue acessar o passado de Will. A violência policial deixou marcas profundas no jovem, que abandonou o esporte e perdeu a destreza com a bola.


O novo Geoffrey (Jimmy Akingbola) teve a participação reduzida. De mordomo sagaz que ouvia e fazia provocações, passou apenas a delegar tarefas, agora bem mais comedido.


A nova série surgiu a partir de um curta-metragem dramático feito pelo produtor e cineasta Morgan Cooper três anos atrás. A obra chamou a atenção de Will Smith (o verdadeiro) que topou o desafio de ser um dos produtores executivos.


O que mais destoa entre as duas versões é a forma como os personagens encaram a intolerância, o racismo e a fragilidade do sistema de justiça. Se antes, esses problemas geravam apenas piadas nos episódios, agora, eles impulsionam os personagens a se manifestar para modificar efetivamente o sistema.
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BEL-AIR
Quando: EUA, 2022
Onde: Peacock
Autor: Morgan Cooper, Malcolm Spellman, TJ Brady e Rasheed Newson
Elenco: Jabari Banks, Adrian Holmes e Cassandra Freeman
Avaliação: Bom