Aos 25 anos, contramestre do Guerreiro de Viçosa diz que levar folguedo adiante é sua missão

Rafael Oliveira auxilia a mestra Quitéria, que comanda um dos grupos de Guerreiro mais tracionais de Alagoas

“Primeiro tinha o Guerreiro e depois tinha o famoso forró do Mestre Sebastião” — lembra Rafael Oliveira ao falar da infância cercada pelo colorido das fitas, dos trajes coroados com chapéus pomposos e da festa que é o Guerreiro. Lá em Viçosa, no interior, Mestre Sebastião costumava promover grandes festas após a brincadeira, o que provavelmente cuidou de manter vivo nos jovens da época o entusiasmo pelo folguedo, o grande símbolo de Alagoas.

Mestre Sebastião faleceu em abril de 2010, deixando o Guerreiro de Viçosa nas mãos, nos pés e na garganta afiada da Mestra Quitéria, sua viúva. É ela quem traz na memória as composições geniais de Bastião, seus versos sensíveis de homem do campo e apreciador de folias e cachaças das boas. Depois da mestra, o jovem Rafael é quem lidera o grupo.

A primeira vez que o jovem contramestre entrou em cena foi aos 12 anos. Agora, aos 25, ele diz que se vê responsável por levar adiante o legado do mestre Sebastião, da mestra Quitéria e do Guerreiro de Viçosa.

“O que me motiva é que o trabalho de Mestre Sebastião e Mestra Quitéria está realmente dentro de mim. Se eu não passar isso adiante, ninguém mais vai passar. Quem pode passar essas histórias do grupo é quem viveu, quem sentiu, quem conviveu, quem aprendeu. Eu não vou deixar acabar”, diz.

Além de brincante, Rafael é o articulador do grupo, peça fundamental para a sobrevivência do folguedo nos tempos atuais. Braço direito da Mestra Quitéria, ele foi praticamente adotado pelo casal e acabou herdando as histórias de dois dos maiores mestres da cultura popular de Alagoas.

“Mestre Sebastião faleceu, infelizmente, mas Mestra Quitéria está viva e com saúde. Mestra Quitéria se tornou mestra pelo reconhecimento da comunidade, pelos conhecimentos que ela detém, ela é A Mestra do Guerreiro de Viçosa”, afirma orgulhoso.

Outra função que o jovem assumiu foi a de artesão. É ele quem confecciona os chapéus e diz que busca na imaginação e na memória as formas e cores para produzir as cobiçadas peças.

“A minha estreia foi como embaixador [personagem], em 2008, num dia de desfile cívico. Eu tenho até uma foto que registra esse momento histórico da minha vida. Não sei quem tirou a foto, mas tem. Mestre Sebastião de um lado, Mestra Quitéria do outro, e eu. Isso me orgulha muito”, lembra.

MAS QUEM VAI PAGAR PELO TRUPÉ?

Com a pandemia, contramestre diz que sobrevive com ajuda da comunidade - Foto: Reprodução

Se por um lado o jovem artista popular lembra com afeto das histórias que se encarrega de difundir, por outro, ele sabe que o folguedo, mesmo sendo um símbolo de Alagoas, enfrenta seu momento mais delicado e sobrevive apenas por esse senso de missão dos brincantes.

Na pandemia, com ensaios suspensos e com as já escassas apresentações desaparecendo, o Guerreiro de Viçosa interrompeu as atividades e só respirou quando veio a Lei Aldir Blanc, no final do ano passado, que possibilitou a renovação do figurino e garantiu o ânimo dos componentes para retornar aos trupés.

“Para mim está tudo muito difícil. Venci uma doença que estava enfrentando, mas fiquei desempregado, não tenho nenhuma renda pra poder me manter, vivo da ajuda das pessoas”, revela o jovem, que está concluindo a faculdade de Pedagogia.

“Em plena pandemia, só podemos comemorar os nossos mestres, que sobrevivem em meio a tudo isso que estamos vivenciando no mundo inteiro e as dificuldades que todos os grupos enfrentam, que vêm muito antes da pandemia”, conta o contramestre viçosense.

“É muito difícil, principalmente pela falta de apoio. Mas eu tenho que levar isso adiante. Penso até nas crianças, porque eu tive a oportunidade de viver o Guerreiro na infância e sei como foi importante para que eu criasse raízes no coração."

Rafael é o articulador do grupo de Viçosa, que é comandado pela Mestra Quitéria - Foto: Reprodução

Com a passagem do Dia do Folclore, comemorado no dia 22 de agosto, Rafael questiona a razão pela qual professores, em sua maioria, não tratam dos folguedos de Alagoas na educação básica. “Quando falamos em folclore, muitas pessoas só se lembram das lendas que nós aprendemos na educação básica e infantil. É Saci, Mula-Sem-Cabeça, Curupira, acham que folclore é somente isso. Mas elas esquecem que temos outras coisas. Aqui, na nossa cidade, temos os folguedos, criados por pessoas reais, por pessoas talentosas, como os nossos mestres”, acrescenta, para em seguida levantar a bandeira do folguedo pelo qual se apaixonou.

“O Guerreiro precisa ser mais valorizado no nosso estado. O Guerreiro é um auto de Natal próprio, podemos dizer que é nosso, é alagoano. E isso é um orgulho. Mesmo que seja variante de outros folguedos, mas foi criado aqui. Que nesse Dia do Folclore, a gente pare de colocar na cabeça das crianças somente as lendas e parlendas como símbolos do folclore, vamos falar dos folguedos.”

Ele também critica a falta de atenção ao folclore nos outros dias e meses do ano. “Valorizar um grupo não é somente chamar o grupo no Dia do Folclore. E o restante do ano? É como se fosse o Dia do Índio, o índio existe todos os dias, mas só quando chega o dia específico todo mundo lembra do índio. Isso precisa ser mudado. Folclore precisa ser vivido no dia a dia”.

O GUERREIRO DE VIÇOSA

O Guerreiro de Viçosa nasceu a partir de uma brincadeira entre os amigos Sebastião e Severo, em 1977, mas ganhou rapidamente notoriedade devido à autenticidade e aos versos criados pelo Mestre Sebastião. O Guerreiro de Viçosa teve como inspiração os mestres Luis Belo, João Bau e Juvenal; além da pisada forte inspirada pelo Reisado do Povoado Bananal (de Viçosa), que era comandado pelo Mestre Osório Tavares. Em 2006, o mestre Sebastião recebeu o título de patrimônio vivo da cultura de Alagoas e, em 2009, a imagem do artista integrou uma série comemorativa de selos dos Correios.

O grupo segue ativo e, desde 2010, é comandado pela mestra Quitéria Jorge de Melo, com a ajuda do contramestre Rafael. “Eu ainda tenho muito o que aprender com a Mestra Quitéria, mas eu tenho que passar essa mensagem, o legado do Mestre Sebastião. Ele não criou esse grupo pra ele se acabar, pra ele ficar na lembrança ou cair no esquecimento. Estamos esperando essa pandemia acabar pra que a gente possa voltar a se apresentar, brincar e alegrar as pessoas”, finaliza o jovem contramestre.