Desorganização pode afetar o relacionamento de casais de forma negativa

Os afetos podem transitar de um clima amistoso para outro de enfrentamento, além dos sentimentos de desconfiança, desamparo, desmotivação ou estresse.

A toalha molhada em cima da cama, a louça acumulada na pia e as roupas misturadas no armário. Quem nunca se deparou com essas situações ao dividir o mesmo espaço com seu parceiro? Esse cenário, porém, pode comprometer a vida amorosa de um casal.
Para tentar driblar as dificuldades em meio à desorganização, especialistas recomendam conversar sobre os limites de cada um e entender o que o outro não se sente bem fazendo. Negociação e diálogo são os caminhos.


O cinegrafista Eduardo Cesar Gonçalves, 57, e a produtora de conteúdo Paula Géssica, 34, são casados há 14 anos. Eles já perderam as contas de quantas vezes brigaram por causa da organização do apartamento onde moram. Paula admite ser a desorganizada, mas mesmo assim se sente injustiçada em algumas situações.

"O Edu guarda as coisas tão bem que ele mesmo esquece. Quando perde ou não sabe onde colocou tudo OK. Só que se isso acontecer comigo pronto, começa a reclamar. Me sinto mal, parece que nem estou na minha casa", diz.
Já Eduardo tenta abstrair, mas nem sempre consegue. "Me pergunto se tem necessidade de ocupar os dois banheiros com as coisas dela, das oito gavetas no armário, cinco são só para ela e os sapatos dela já estão invadindo o lado dos meus", critica.


A desorganização interfere na produção e reprodução dos afetos na relação, uma vez que há uma sobrecarga de trabalho para um dos protagonistas, afirma a psicóloga Jacqueline Figueiredo, mestre em Educação Sexual pela Unesp (Universidade Estadual Paulista).


Os afetos podem transitar de um clima amistoso para outro de enfrentamento, além dos sentimentos de desconfiança, desamparo, desmotivação ou estresse. Não há, porém, como se esquivar do conflito. Mesmo que sejam feitas negociações de maneira honesta para minimizar os desencontros e os desconfortos, Figueiredo diz que é preciso observar as diferenças existentes entre cada um.


"Por isso, sempre que se falar em relação, devem tratar os acordos a serem feitos e eles devem incluir aspectos de maior ou menor valor para os envolvidos. [Se] tem alguma coisa que é "inegociável", que o outro realmente não se sente bem fazendo", ressalta.
Os limites entre o inegociável e o negociável dependerão da individualidade de cada um.


"Considerando isso, retomar os acordos feitos em um primeiro momento da relação é uma constante para que o relacionamento seja saudável", completa a psicóloga.
Mas não é só preguiça, a desorganização também pode ser um sintoma de ansiedade
Sirlene Ferreira, psicóloga e psicanalista especializada em psicologia escolar e organizacional, afirma que pessoas perfeccionistas podem precisar de atenção profissional.


"Conviver num ambiente engessado e super controlado é estressante. Vamos imaginar que após um exaustivo dia de trabalho, tudo que almejamos é chegar a casa e descansar. Se para conseguir isso precisa estar dentro do formato do outro, não haverá descanso", afirma.


Ter combinados como colocar o copo usado na pia para lavar pode ajudar. "O inconveniente é ter que colocar o copo na pia de acordo com as exigências do perfeccionista. Pouco provável que esse relacionamento possa ser harmonioso", diz Ferreira.
Caso um dos parceiros tenha um diagnóstico de depressão ou esteja vivendo o puerpério, a organização deve ser uma prioridade menor na relação.


Bagunça x sujeira Bagunça, porém, é diferente de sujeira. Se uma pessoa não se incomoda em dormir num lugar sujo e usar um banheiro sem o mínimo de limpeza, ela não está emocionalmente bem.
"Não podemos afirmar qual é a sua psicopatologia, mas que há algo que a faz aceitar um ambiente sem o mínimo de ordem e limpeza, essa pessoa está com a autoestima afetada", afirma Ferreira.


De acordo com a especialista, os casais podem fazer combinados, desta forma nenhum dos dois ficará sobrecarregado. Entender que cada um tem seu tempo também é importante. Lavar a louça depois do almoço ou após um descanso tem que ser algo negociável. "Competição para saber quem é mais ou menos organizado só gera tenção entre o casal", diz a psicóloga.


Como manter a organização? Dividir as tarefas, conversar e usar organizadores podem ser saídas para uma convivência mais harmoniosa. A organizadora Ju Aragon preparou dicas que podem ajudar a diminuir conflitos entre casais.
Divida as tarefas. Fazer acordos é uma estratégia muito efetiva quando se trata de organização. Isso fará com que ambos se comprometam com as suas obrigações e saibam exatamente quais são suas tarefas.


"Decidam juntos o que cada um se sente mais à vontade fazendo e o que é possível encaixar no dia a dia entre outros compromissos. Dessa forma, a organização se tornará um hábito, evitando possíveis discussões", afirma Aragon.
Diálogo acima de tudo. A organizadora lembra que a base de qualquer relacionamento é o diálogo, mas quando se trata de um casal, principalmente aqueles que acabaram de iniciar a vida a dois, conversar é ainda mais importante.


Ela também reforça que o lar deve ser o porto seguro do casal, e isso só acontecerá se existir uma troca constante. "Diga o que gosta e o que não gosta sempre de forma respeitosa e sugerindo melhorias. Você saberá que está no caminho certo quando considerar que a sua casa é o melhor lugar para curtir e descansar." Organizadores como aliados. Depois de definir as responsabilidades de cada um e implementar o hábito do planejamento e da conversa, os organizadores podem ser aliados da rotina.


"Criados especialmente com essa finalidade de trazer qualidade de vida e facilitar a rotina, o casal pode investir em organizadores para todos os ambientes da casa, começando pelos mais coringas e que sejam mais necessários na rotina de ambos. Por exemplo, as colméias são perfeitas para delimitar o espaço de cada um dentro do guarda-roupa", afirma Aragon.