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Imagem ilustrativa da imagem OS ÓRFÃOS DE ROMA parte 2 - A SEMENTE DO FEUDALISMO | Benedito Ramos

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Letras de Alagoas

OS ÓRFÃOS DE ROMA parte 2 - A SEMENTE DO FEUDALISMO | Benedito Ramos


				
					OS ÓRFÃOS DE ROMA parte 2 - A SEMENTE DO FEUDALISMO | Benedito Ramos
CLOACA MÁXIMA.
O III século d.C. é marcado pelo crescimento das concentrações rurais – latifundia, geralmente, grandes propriedades que passam a ser fortificadas. Estas indústrias agrícolas, que produziam, praticamente, tudo o que as cidades consumiam, se voltaram exclusivamente aos mercados locais. E isto concorreu para o empobrecimento dos aglomerados urbanos. Com isso, artesãos e pequenos agricultores passaram a buscar proteção, junto aos grandes proprietários, que trocaram os escravos, já bastante escassos, pela mão de obra dos coloni. Estes, passaram a trabalhar, recebendo um percentual da produção. Iniciava o regime servil onde o trabalho era a paga pela proteção e a sobrevivência. O crescimento do latifundia coincidiu com o declínio das cidades, a esta altura, saqueadas, depredadas e expostas aos criminosos. Estava nascendo o sistema feudal. Nascia a idade média.
Não é difícil imaginar, o homem do início da idade média, em meio à convulsão causada pelo declínio econômico de Roma, pelas invasões e guerras, pela miséria, doenças e principalmente, pela falta da ordem e da justiça. A perda da fé no Estado, a falta de confiança na administração pública, tudo isto, somado a desordem moral, política e econômica reduziu as crenças pagãs romanas ao lodo. Roma patrocinava a sua religião, cujos oráculos, naquele momento, pareciam inócuos. É neste cenário que o cristianismo, surge num alento ao sofrimento Primeiro, pela solidariedade ou a fraternidade, criada entre seus adeptos, para acudirem-se mutuamente. Depois, o fascínio de uma história viva contada pelos seguidores mais íntimos, pessoas que haviam conhecido os primeiros mártires da Igreja, como Policarpo, bispo de Esmirna. Ou mesmo, aqueles que haviam passado pela cruel perseguição de Décio, que cingido da púrpura imperial resolveu devolver a antiga glória de Roma, conforme nos conta o historiador Justo L. Gonzales, em seu livro “A Era dos Mártires”, ed. Vida nova, pg. 141. Por outro lado, o paganismo, que não se preocupava com a vida futura e sim com ritos secretos, exóticos, tornava-se cada vez mais amoral aos novos padrões do entendimento humano. Até então era comum o culto a Dionysio que simbolizava o poder reprodutor. Razão pela qual, ainda se pode ver no Museu Arqueológico de Nápoles, os mesmos falos, que a artesania popular reproduz hoje, para vender a turistas, em frente à Vila dos Mistérios, na antiga Pompéia. Mas eram, sobretudo, as religiões orientais que faziam sucesso na urbe. No culto a Cybele, havia padres cantores, bailarinos que dançavam ao som de címbalos, flautas e tambores. Tudo isso era muito difícil de ser mudado, mais ainda, pelo temor e o fanatismo. O próprio Agostinho de Hipona, conta em suas “Confissões”, pg. 90 – Coleção “Os Pensadores”, que sua mãe Santa Mônica, embora convertida ao cristianismo, durante muito tempo, ainda participou da festa fúnebre pagã, que ocorria entre 13 a 21 de fevereiro, quando levava alimentos e bebidas ao cemitério. Deixou o costume, apenas, quando foi advertida pelo Bispo de Mediolanum(Milão) – Santo Ambrósio, que dizia tratar-se de um culto pagão. Da mesma forma, não podemos esquecer que o dia 25 de dezembro é, na verdade, o dia, considerado pela religião persa, de Mithra – o deus do sol, como o do nascimento do sol invencível – Mithra, hoje comemorado como o Natal Cristão.
Mas foi o enfraquecimento do poder político de Roma, o fortalecimento dos latifundia que contribuíram para criar as lideranças necessárias para o surgimento de uma nova casta de aristocratas rurais. É só entender, que para ser rei, basta ser aclamado, mesmo por aqueles a quem venceu. É a sua aceitação diante da comuna que o faz rei. A partir de então o poder passa a ser herdado através da primogenitura. Isto sempre foi assim e não mudou até hoje. A crença de que o poder era dado por Deus, concorria para que o soberano fosse ungido pela Igreja, como uma vez foi o Rei Davi. Estes reis, nesta época eram apenas os “Senhores” donos das terras. Como diz Thomas Hobbes – Leviatã – edições Martin Claret, pg. 98: “Torna-se manifesto que, durante o tempo em que os homens vivem sem um poder comum capaz de os manter a todos em respeito, eles se encontram naquela condição a que se chama guerra. Uma guerra que é de todos os homens contra todos os homens. A guerra não consiste apenas na batalha, ou no ato de lutar, mas naquele lapso de tempo durante o qual a vontade de travar batalha é suficientemente conhecida.” Isto quer dizer que o cidadão romano viu-se órfão de sua pátria, numa Roma desunificada, abandonado, sem a proteção e a segurança que o Estado lhe devia, conforme volta a afirmar Hobbes na pg. 125: “Constituiu-se insuficiente para garantir aquela segurança que os homens desejariam que durasse todo o tempo de suas vidas, ou seja, que eles fossem governados e dirigidos por um critério único(...)” Se o feudalismo surgiu desta busca de proteção o homem medieval cerceou a sua liberdade a ponto de tornar-se um servo. Considerando, inclusive, que o regime escravista nunca foi abolido por Roma. O escravo foi que se tornou, simplesmente, dispendioso para seu dono. Isto não alterou em nada a condição de miséria e pobreza a que o império romano havia reduzido o homem, pobre, miserável, mas, em tese, cidadão romano. O Senhor feudal apenas o agregou aos seus domínios e o submeteu ao seu despotismo.
Os órfãos de Roma não herdaram mais que o sincretismo religioso e as superstições do paganismo. O helenismo, na sua essência filosófica, na sua cultura e, sobretudo no próprio idioma em nada lhes servia. Se não falavam sequer a sua língua vernácula, o latim, como saber de filosofia ou entender o que se passava com as artes e a cultura? Esta população, analfabeta, inculta e pobre se alastrava em guetos ou perambulava em busca de alimento, em cidades destruídas ou seguia a alhures pelas estradas abandonadas.
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Benedito Ramos Amorim

Pesquisador, Crítico de Arte e Coordenador de Ação Cultural e Social da Associação Comercial de Maceió, tem livros publicados a partir de 1974: Mona Lisa Um Autorretrato de Leonardo da Vinci - Pesquisa, em 1979 Lamento Derradeiro que recebeu o Prêmio Moinho Nordeste da Academia Alagoana de Letras – Contos, 2003 A Construção do Palácio do Comercio – Pesquisa, Edufal, 2005, Um Amor Além do Tempo – Romance, HD Livros, 2006, Doce de Mamão Macho – Novela, Editora Catavento. Articulista em diversos jornais da capital alagoana desde 1976, no extinto Jornal de Alagoas desde 1976, a partir de 2002 no O Jornal e Jornal Gazeta de Alagoas. Prêmio Graciliano Ramos da Academia Alagoana de Letras com o romance inédito Pensamentos Mágicos em 2006, ano em que assumiu a cadeira número 9 da Academia Alagoana de Letras. Editor por 5 anos do jornal O Palácio publicado pela Coordenadoria de Ação Cultural e Social da Associação Comercial de Maceió. 2019 Prêmio Editora Gracialiano Ramos com edição dos livros, Nadi e 2ª Edição do livro Doce de Mamão Macho.